Qual é o Estado da Nação?

O "estado da nação" e do desporto em particular

O desporto e o futebol em particular não podem ser compreendidos sem ter presente a conjuntura política, económica e social de Portugal.

Parte I

O "estado da nossa nação" tem, indiscutivelmente, implicações positivas no desporto de todos e para todos que ambicionamos alcançar, mas também implicações negativas, traduzidas nos problemas que afligem instituições e agentes desportivos atualmente: a falta de transparência e a corrupção, o ódio e a violência, a perda de competitividade e a falta de modernização, entre outros.

Mas já lá vamos. Vivemos no país da "geringonça", um exemplo de compromisso político e solução governativa viabilizada por partidos políticos (PCP e BE), que por natureza são contestatários face ao poder instituído. Do fracasso anunciado, a "geringonça" foi para além da lei da morte se libertando, vislumbrou uma saída, dirão alguns, aliviou o sufoco que o país ainda atravessa, dirão outros, perante uma crise económica e social que nos assolou enquanto sociedade, particularmente após 2012.

O ambiente político tem sido marcado pelo compromisso à esquerda, pacificação e concertação social e por uma uma oposição que não o tem sido verdadeiramente, marcada pela promessa adiada de renovação geracional e pela manutenção de um status quo que tem tornado, cada vez menos rica e plural, a discussão político-partidária no parlamento.

Somos, também, o país que tem ao leme duas figuras que interpretaram na perfeição a necessidade de compromisso político: Marcelo Rebelo de Sousa trouxe os afetos de que desesperadamente precisávamos, uniu os portugueses do litoral e do interior, exaltou um orgulho e a identificação nacional, que pareciam esquecidos nos tempos mais adormecidos do "cavaquismo" e da troika. António Costa trouxe a habilidade de enfrentar os momentos de tensão com diálogo e habilidade política, explorou as zonas cinzentas e potenciou políticas que, no curto prazo, voltaram a colocar a máquina a funcionar.

Talvez bafejados pelos ideais do bloco que suporta o governo, ou pela era digital e globalizada, em que tudo é informação e todos tendem a ter uma opinião sobre os acontecimentos, somos uma sociedade muito mais aberta, em que, pelo menos na aparência, a igualdade, a dignidade, a proteção social, o respeito pela diferença e a tolerância sob várias formas têm ganho terreno face ao conservadorismo que imperou teimosamente durante décadas. A distância entre Portugal e o mundo é hoje, indiscutivelmente, menor.

Parte II

Mas, será que o desporto, acompanhou esta tendência?

O desporto juntou-se à educação com o governo da "geringonça", numa simbiose que seria perfeita não fosse esbarrar na falta de programação política. Não existem verdadeiras linhas orientadoras para a atuação dos agentes do desporto, corremos ao sabor dos calendários competitivos e somos, profundamente, reacionários face aos problemas que afligem essas mesmas competições. O movimento associativo continua no Portugal antigo e é, sobretudo, ao nível dos recursos humanos que se denota a causa de um certo estado de apatia.

Teimosamente, os portugueses são bombardeados através dos meios de comunicação social com o lado negro do desporto. O desporto, que tem um tremendo potencial económico e social, tem sido profundamente negligenciado, contrariamente ao que acontece noutros países mais "arrumados" quanto à política para o setor, quanto às pessoas que nele atuam e em relação aos valores sociais que se querem através dele promover.

No que ao futebol diz respeito, vivemos a duas velocidades. A Federação Portuguesa de Futebol, sob o magistério do Dr. Fernando Gomes, alavancou um projeto que tem garantido o sucesso das seleções nacionais, a qualificação dos quadros e a implementação de medidas que beneficiam o desenvolvimento do futebol desde as suas estruturas de base. A cidade do futebol é o centro de conhecimento e, nessa dinâmica, não posso deixar de destacar o quanto me orgulho do envolvimento de ex-jogadores profissionais nas estruturas diretivas e operacionais da Federação, o que, durante décadas, foi verdadeiramente segregado.

A velocidade cruzeiro da FPF contrasta com a do associativismo desportivo em geral. A visão integrada de todos os clubes e estruturas desportivas esbarra no individualismo patente, na rivalidade desmedida, no desentendimento em matérias que exigiam um compromisso ao género da "geringonça". Os chamados "três grandes", que potenciam o lado comercial do desporto, não estão isentos de culpa neste ambiente de conflitualidade que dificulta a modernização do sistema. Se olharmos ao rendimento gerado por esta modalidade a ao impacto na economia local e nacional, é elementar que este problema não se circunscreve às paredes do sistema desportivo, a degradação do futebol é também a degradação da sociedade portuguesa e da sua imagem no mundo.

Como referi, a falta de programação estratégica para o setor preocupa, assim como preocupa a proliferação de fenómenos criminosos que tiveram o epicentro da sua exposição mediática, na época que findou, com a invasão da Academia do Sporting, em Alcochete.

Entrámos, indiscutivelmente, num ciclo vicioso: a falta de qualificação dos recursos humanos, a intolerância e o discurso do ódio, a incapacidade de compromisso dos nossos dirigentes e, sobretudo, a omissão dos que poderiam trazer novas ideias e medidas programáticas para o setor, impedem-nos de explorar o seu verdadeiro potencial, ao mesmo tempo que nos obrigam a correr atrás do prejuízo e dos fenómenos altamente gravosos para a imagem do desporto português, seja ao nível da falta de transparência e corrupção, seja ao nível do ódio e da violência que proliferam pelos recintos desportivos e fora deles.

Não tenhamos ilusões, o desporto é parte da sociedade e talvez o maior recetáculo dos problemas que esta apresenta em cada momento. O que nos tem limitado enquanto país, é a incapacidade para obter compromissos, definir medidas que não mereçam contestação e requerem ações concertadas.

No Sindicato dos jogadores a estratégia política está traçada e áreas estratégicas de intervenção bem definidas, sabemos para onde queremos ir. No apoio jurídico, na educação e promoção das carreiras duais, na saúde e bem-estar, na comunicação, na investigação ou na promoção do futebol feminino queremos, dentro da nossa identidade, assegurar os direitos e legítimos interesses dos praticantes, ao mesmo que tempo que pugnamos por novas garantias para os futebolistas e as futebolistas, respeitadoras da sua condição de atletas, trabalhadores e pessoas. Nessa perspetiva, inspiramo-nos do que melhor existe lá fora e integramos a FIFPro com a convicção que de podemos enriquecer ainda mais o trabalho que fazemos a nível interno.

A visão 360 graus do Sindicato pretende alcançar e dar resposta a todos os problemas que assolam os nossos associados ao longo da sua carreia e depois de penduraram as chuteiras. Foi por isso que, perante a falta de qualificações, concebemos um programa de educação e formação à medida para os jogadores, desenvolvemos um programa de educação financeira, diagnosticando a forte iliteracia e gestão inadequado dos recursos financeiros obtidos pelos praticantes, apresentámos um projeto de saúde mental que pretende levar aos jogadores que lidem com perturbações deste foro ajuda médica especializada e constituímos um Fundo de Pensões que, juntamente com uma proposta de alteração legislativa, pretende responder às necessidades de financiamento e proteção social do jogador em momentos críticos do seu percurso: final de carreira, desemprego de longa duração, lesão ou doença grave e incapacitante. Na relação com a comunidade estamos em múltiplos projetos internacionais, financiados pelos programas Erasmus +.

Em síntese, o Sindicato reconhece o potencial do futebol e dos seus protagonistas e, por isso, define na sua atuação diária o exercício responsável das suas competências, em diálogo e concertação social, convictos que é das relações entre pessoas e pelas pessoas que representamos que faz sentido atuar no sistema desportivo.

E se o futebol, onde o interesse da competição se sobrepõe ao interesse individualizado dos seus atores, e onde sem equilíbrio competitivo não há negócio, não é possível criar uma solução ao género da "geringonça", preocupa-me e não posso deixar de questionar, que solução de futuro haverá para o nosso futebol?

Deixo apenas uma certeza, dado o progresso da sociedade Portuguesa, é o futebol que terá de correr atrás da modernização e valorização, e não o oposto.

*Joaquim Evangelista é Presidente da Direção do Sindicato de Jogadores

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