A Opinião

O sketch da procuradora

"A Opinião" de Fernanda Câncio, na Manhã TSF.

Anteontem, vi um vídeo que me deixou estarrecida.

Quando o abri, no Twitter, não sabia o que estava a ver. Pareceu-me um sketch humorístico: uma imitação cómica das divulgações de interrogatórios judiciais num determinado canal, com uma mulher, identificada como "procuradora", de voz alterada, a destratar um homem, que só dizia "Sra. Dra., posso falar?".

"Isto é a gozar, não é?" Foi a minha resposta a quem me referiu o vídeo.

E não, não estava a ser irónica. Por mais descrente que esteja na justiça portuguesa, e estou; por mais que tente não me espantar com nada, e tento; por mais esforço que faça em conformar-me com o facto de a Procuradoria-Geral da República fazer de morta perante a divulgação quotidiana e criminosa de excertos de inquirições judiciais no dito canal, mesmo assim, confesso, fiquei estúpida.

Fiquei estúpida ao perceber que o que tinha ouvido correspondia mesmo a uma parte de um interrogatório. O de um dos arguidos do caso do ataque à Academia do Sporting em Alcochete, conduzido, se bem percebi - o vídeo não diz o nome correspondente àquela voz - pela procuradora Cândida Vilar.

Por que fiquei eu estúpida, perguntará quem me ouve. Não sei já do que a casa gasta? Por que insisto eu em maçar-vos com as minhas indignações inúteis e repetitivas?

Peço desculpa. Mas uma procuradora a gritar com um arguido que, ainda por cima, está preso, a dizer-lhe "o senhor não é nada"? A impedi-lo de falar quando ele tenta responder? A perorar em tom irado, como se estivesse a discutir com alguém, não numa sala de um edifício judicial para conduzir um interrogatório? A inflamar-se na defesa dos jogadores agredidos e falando do carinho que o povo português nutre por eles, como se estivesse a discursar de um púlpito?

O que é isto? A que ponto chegámos? Que vamos ver ou ouvir a seguir? Procuradores à mocada nos arguidos para gáudio das audiências do canal do costume?

Deixar uma empresa privada instrumentalizar a justiça, apropriar-se dela, transformando-a numa máquina de espetáculo, de fazer audiências e, portanto, dinheiro não tem efeitos só na perceção pública do sistema: muda-o por dentro. A ponto de assistirmos a um interrogatório num caso classificado como de terrorismo e o confundirmos com um sketch cómico. Porque, simplesmente, não acreditamos que aquilo possa ser verdade.

*a autora não escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990