Os lugares vazios de Rui Rio

É tão certo como o sol se levantar todos os dias: quando um político não tem nada para dizer, desata a falar da reforma do sistema político.

Os principais partidos do nosso sistema estão transformados, em larga medida, em agências de emprego, com gente que não consegue trabalho em mais lado nenhum, especializando-se em carreirismo, mas o problema é do sistema político. As autênticas chapeladas com carrinhas que vão buscar militantes a quem alguém paga as quotas continuam a acontecer nas eleições internas dos partidos, mas o problema é do sistema político. Os partidos não conseguem captar bons quadros na sociedade civil, fecham-se como ostras bloqueando a chegada de gente que quer participar, mas o problema é do sistema político. Os presidentes da câmara, os secretários de Estado, os ministros e outros detentores de cargos políticos são muito mal pagos, mas o problema é do sistema político. Não se consegue criar inteligência nos partidos, desenvolver propostas, organizar grupos que estudem questões importantes para a comunidade, mas o problema é do sistema político.

Os líderes não fazem o que devem fazer dentro dos seus partidos e depois falam de reformas do sistema político.

Rui Rio, que apareceu com bandeiras importantes e até corajosas, como a questão da justiça, da necessidade de pactos de regime, que até tem um histórico de limpeza e moralização dentro do PSD quando foi secretário-geral e que marcou o rumo certo de aproximar o partido do centro, deixou-se arrastar pela história do costume dos líderes que não conseguem mostrar propostas sólidas quando estão na oposição. E se todos sabemos a urgência do aparecimento de uma alternativa à governação socialista.

Não se lembrando de melhor, Rui Rio propôs algo que não existe em mais nenhuma democracia e que nunca passou pela cabeça de um único político: um Parlamento com um número de deputados variável (entre os limites constitucionais de 180 e 230) em função dos votos nulos e brancos.

A coisa é de tal maneira inverosímil que vai ser esquecida rapidamente, mas quando o líder da oposição levanta a hipótese não há como dar-lhe alguma importância.

Em primeiro lugar, quem vota em branco ou nulo está a dizer que não quer ser representado por quem se propõe a eleições. Posso admitir que são pessoas que gostam da democracia mas que gostariam de outros partidos, outras pessoas. Não havendo exatamente o que elas querem, protestam votando em branco ou nulo. É um voto que, na expressão da sua falta de vontade de participar na escolha de representantes, fala por si: não quer ser representado.

Talvez apenas protesto, talvez uma confissão de incapacidade de fazer com que outras pessoas partilhem ideais para fazer um partido, talvez preguiça, talvez desgosto, talvez diletantismo. Sim, é uma maçada perder tempo a tentar organizar pessoas com valores parecidos.

É um voto que pode ser tudo menos homogéneo. Ninguém diz exatamente o que quer, só o que não quer. Como pode então estar representado, seja na forma de cadeiras vazias, seja na redução de deputados? Um votante que faz um desenho num boletim ou insulta alguém, deve ter o mesmo tratamento de que alguém que vai votar por um partido? Enfim...

Em segundo lugar, que critério poderia ser utilizado? Imaginemos que a maioria das pessoas votava branco ou nulo, que lógica teria continuar com 180 deputados - o mínimo que a Constituição exige? A nossa Constituição seria vista como um entrave à representação, um erro em si mesmo. Se se quer dar tanta dignidade a um voto que se recusa a escolher como a outro que escolhe, não teria lógica que um tenha menos peso.

Como se faria para estabelecer a redução de deputados? Se em Viana os brancos fossem a maioria, reduzia-se a representação para metade? E se fosse em Lisboa? Que critérios se utilizariam?

A democracia tem o mérito único de deixar à liberdade das pessoas a capacidade de se poderem organizar para defender os seus ideais. Quem prefere não o fazer ou se recusa a escolher o que lhe propõem está no seu direito. Não espera, com certeza, ver-se representado por uma cadeira vazia. Não consta que as cadeiras vazias tenham o que for para dizer. A não ser que sejam muitas, mas aí não se falará de cadeiras vazias porque não haverá possibilidade de se falar: não haverá democracia.

Espero sinceramente que Rui Rio caia em si e perceba o disparate que propôs.

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