Opinião

Senhor Presidente, não havia necessidade

"O telefonema para o programa de Cristina Ferreira, esta semana, está longe de ser uma coisa inédita. Em fevereiro de 2017, Marcelo já tinha pegado no telefone para dar os parabéns ao diretor da Rádio Comercial, em direto. Fátima Lopes agradeceu-lhe, também em direto, o telefonema que recebeu depois do divórcio. A diferença, desta vez, é o contexto e só por isso decidi escrever este texto."

Tenho o maior respeito por Marcelo Rebelo de Sousa. Pelo professor, pelo político, pelo comunicador, e, mais recentemente, pelo Presidente da República. Tenho elogiado várias vezes o papel importante que ele tem tido desde que chegou ao Palácio de Belém. Durante a tragédia dos incêndios em 2017, no caso do assalto a Tancos e na forma como tem exercido a sua magistratura de influência junto do Governo, da Assembleia da República e do País.

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Nunca me juntei aos que o criticam pelo estilo mais popular - ou popularucho, conforme os casos. Pelo contrário. Acho que ele percebeu cedo que o país precisava de um Presidente diferente no conteúdo, mas, sobretudo, na forma. E ninguém melhor que Marcelo para interpretar e saber equilibrar-se nesse limbo da política, que tanto pode atirar para níveis de popularidade avassaladores como pode fazer cair no ridículo e no descrédito.

A popularidade tem sido, de resto, a principal arma política de Marcelo Rebelo de Sousa. Deu-lhe, até hoje, o crédito de que precisava para poder "demitir" uma ministra em direto na televisão. Para forçar o Governo a fazer o que não queria. Para evitar males maiores na manifestação dos coletes amarelos em Portugal. Isto só para citar alguns exemplos.

Admito que a omnipresença do Presidente primeiro estranha-se, depois entranha-se. Mas a verdade é que esta estratégia do Presidente da República tem produzido resultados positivos, para o país e, claro, também para ele. Aristóteles dizia que a função principal da política era atender aos interesses dos cidadãos e Marcelo - ainda que nem sempre isento de erros - tem-no feito.

Mas há um lado de superstar - que as suas participações televisivas terão exponenciado - que confesso que me faz alguma confusão. Não porque Marcelo Rebelo de Sousa não tenha todo o direito de o cultivar. Mas porque ao Presidente da República cabe também um papel institucional, que se perde de cada vez que o banaliza.

O telefonema para o programa de Cristina Ferreira, esta semana, está longe de ser uma coisa inédita. Em fevereiro de 2017, Marcelo já tinha pegado no telefone para dar os parabéns ao diretor da Rádio Comercial, em direto. Fátima Lopes agradeceu-lhe, também em direto, o telefonema que recebeu depois do divórcio. A diferença, desta vez, é o contexto e só por isso decidi escrever este texto. A chamada para Cristina Ferreira surge depois de o programa concorrente - apresentado por Manuel Luís Goucha - ter levado a estúdio um criminoso fascista chamado Mário Machado, provocando com isso uma polémica daquelas boas, que dão audiência. Falem bem ou falem mal, mas falem. E, sobretudo, vejam.

Ao tomar a iniciativa de ligar para Cristina Ferreira para lhe desejar boa sorte para o novo programa, o Presidente da República não só entrou nesta guerra de audiências, como permitiu que daqui se extraíssem conclusões - porventura erróneas - de que o mais alto magistrado da nação estaria, indiretamente, a tomar posição sobre o convite que a TVI fez a Mário Machado.

Marcelo veio, entretanto, explicar que quis compensar a apresentadora da SIC por não lhe ter dado uma entrevista, como havia feito com Manuel Luís Goucha há umas semanas. Mas a explicação é, em si mesma, a prova de que não devia ter feito aquela chamada. É, em primeiro lugar, a demonstração de que muita gente não compreende como é que um Presidente da República se presta a este papel. Em segundo lugar, porque o país e o Presidente têm assuntos muito mais importantes com se preocupar do que perder tempo com explicações sobre telefonemas para programas de entretenimento. E, por fim, porque Marcelo Rebelo de Sousa pode e deve fazer as chamadas que quiser, dar os parabéns, desejar boa sorte, feliz Natal ou fazer votos de bom ano a quem quiser que ninguém tem nada a ver com isso. Mas sempre que opta por não o fazer em privado, mas em direto, é o Presidente da República que o está a fazer. Por muita popularidade que isso lhe granjeie, não havia necessidade.

Confesso que não consigo evitar algum sentimento de vergonha, que não alheia, ou não fosse Marcelo o Presidente de todos os portugueses.

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