Jacinda e o suicídio da democracia

Daniel Oliveira dedica o seu habitual espaço de Opinião na TSF às terças-feiras a Jacinda Ardern, que tinha 37 anos quando chegou a primeira-ministra da Nova Zelândia e agora renunciou ao cargo.

"Dias depois de sair, Jacinda disse aos jornalistas que tinha dormido profundamente pela primeira vez em muito tempo. Foram anos de difamação e ataques pessoais. A avalanche de ódio nas redes sociais, os ciclos noticiosos de 24 horas em busca desenfreada de atenção tornaram o exercício político não apenas exigente, mas num jogo impossível de resistência. As ameaças à vida da primeira-ministra quase triplicaram em três anos, vindas de opositores à legislação para regulamentar as armas após o tiroteio de Christchurch, em que 51 pessoas foram mortas e 49 feridas em duas mesquitas", começa por recordar Daniel Oliveira.

Apesar da islamofobia crescente, o jornalista recorda que a jovem primeira-ministra não teve medo de estar incondicionalmente do lado das vítimas, aparecendo de véu islâmico abraçada a mulheres muçulmanas.

"Mas as ameaças vieram sobretudo de ativistas anti-vacinas. Jacinda encerrou fronteiras a estrangeiros que não fossem residentes ou não tivessem parentes próximos no país, impôs confinamentos em instalações oficiais para quem entrasse na Nova Zelândia e quarentenas obrigatórias quando ainda não havia qualquer morto. Foi longe demais e os efeitos disso sentiram-se mais tarde", afirma o jornalista.

Não lhe faltaram suspeitas de preparação de assassinatos, tumultos à porta do Parlamento e perseguições. Ainda assim, destacou-se pela proximidade e empatia que deu às vítimas do atentado terrorista, algo que lhe deu força política "para se revelar como líder carismática".

"Foi mãe durante o seu mandato, coisa só uma vez vista na história moderna e é uma progressista que defende o Estado social e que os ricos paguem impostos. As políticas, muito restritivas durante a pandemia, mais fáceis numa ilha, até lhe valeram uma maioria absoluta, mas deixaram mazelas evidentes mais tarde. Todas as escolhas políticas têm prós e contras e a crise inflacionista não a atingiu menos do que a outros", lembra.

Recorda ainda o que Jacinda Ardern disse quando renunciou ao cargo, mais de cinco anos depois de chegar ao poder, quando já se sentia "o desgaste e as sondagens davam conta disso".

"'O que hoje se exige a um político, para resistir a momentos adversos, só pode ser conseguido por dois tipos de pessoas: pulhas, que não se preocupem em preservar a sua dignidade, ou sociopatas indiferentes a tudo o que os rodeia. Eu sou humana, os políticos são humanos'", palavras de Jacinda Ardern, recordadas por Daniel Oliveira.

Ainda assim, apesar de todos os ataques, Daniel Oliveira considera que a ex-primeira-ministra da Nova Zelância teve "direito ao benefício da dúvida" por parte da maioria dos compatriotas. E defende que os eleitos são o espelho da forma como os eleitores lidam com a política, refletindo também a forma como "lidam com a comunidade" a que pertencem.

"Se suspeitamos que os políticos são todos ladrões, dificilmente os honestos quererão estar nesse lugar. Se somos cínicos, teremos cínicos", sublinha o jornalista.

O Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, também é referido por ter afirmado que o "escrutínio é hoje mais exigente, mais atento" e que há coisas do passado que hoje não são ignoradas ou perdoadas.

"Grande parte dos heróis políticos que recordamos não sobreviveria um dia ao tipo de escrutínio que hoje se faz, mas não basta ser exaustivo, é preciso ter critério. A desconfiança militante é tão inútil como a credibilidade absoluta. A comunicação social não está apostada no escândalo por ser mais exigente, pelo contrário: precisa de audiências e o escândalo garante mais atenção", garante.

No entanto, o jornalista acredita que não há mais exigência e a prova disso é que os políticos que ganham força "não são os mais honestos, são os que fazem o mesmo ou pior", dizendo o que queremos ouvir.

"Exigência é outra coisa, é exigirmos aos eleitos nem mais nem menos do que exigimos a nós mesmos. É não esperarmos que sejam um exemplo, mas um reflexo do que somos como comunidade. A pergunta não é "por que faltam políticos que nos inspirem?", é se ainda queremos ser inspirados por humanos com as suas contradições ou se éramos inspirados apenas porque a distância do poder, que não estava 24 horas por dia nas televisões e redes sociais, o permitia", afirma Daniel Oliveira.

Remata dizendo que queremos tudo da política, mesmo sem estarmos disponíveis a acreditar em nada.

"Queremos um político que seja tão competente como os melhores gestores das maiores empresas, pagando-lhe muito menos. Que seja mais sério do que um cidadão comum, mas tratando-o como um suspeito à partida. Que tenha um sentido de serviço público extraordinário e uma brutal carreira em empresas privadas. Que tenha experiência na área em que governa, mas nenhum interesse na área em que governa. Que venha imaculado da vida profissional e, ao mesmo tempo, tenha imensa experiência profissional. Que tenha o mais aguçado sentido político, mas que o tenha conseguido fora da política. Que seja tão próximo como um vizinho, mantendo a distância que lhe dá", disse o jornalista.

E, por fim, lembra que há quem ganhe com tudo isto: "Os poderes que não elegemos, que adoram que os únicos que são escolhidos por nós estejam tão fragilizados."

*Texto redigido por Cátia Carmo

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de