Le Pen, uma bomba-relógio

No seu habitual espaço de Opinião na TSF, Daniel Oliveira começa por recordar a interrupção de Augusto Santos Silva a André Ventura, na última sexta-feira, durante o encerramento do debate do Programa do Governo, no Parlamento, para afirmar que "não há atribuições coletivas de culpa em Portugal". No final da intervenção, lembra o jornalista, o presidente da Assembleia da República foi aplaudido de pé.

Para o cronista, "a interrupção foi justa, assim como foi justa a primeira intervenção que o presidente da Assembleia da República fez, depois de tomar posse, que dedicou quase exclusivamente ao Chega, apesar de ter dito que não se lhe deve dar mais importância que os votos que teve."

"A má tática não tem de ser injusta e a tática de Augusto Santos Silva, o mais calculista e dos mais inteligentes dos socialistas é aproveitar o desnorte do PSD e a enorme fragilidade dos partidos mais à esquerda para valorizar o partido que mais serve os interesses do Governo", explica.

Na opinião de Daniel Oliveira, "os tempos que aí vêm são duros", enumerando que as consequências podem chegar devido aos "resultados económicos e sociais da guerra, das sanções e da inflação".

"Ser o Chega a aproveitar esta boleia e não um partido que possa ser uma alternativa política ao PS, é o ideal", considera, porque "secundariza o PSD e os partidos que disputam votos aos socialistas e garante um seguro de vida por muitos anos."

A situação política de Portugal serviu de mote para a passagem de Daniel Oliveira para as eleições francesas, que se realizaram este domingo. Tal como o PS, Emmanuel Macron tinha Le Pen como adversária mais desejada porque sabia que "por mais contrariados que os democratas se sentissem, não hesitariam em elegê-lo, se a única alternativa fosse a líder de extrema-direita."

Da mesma forma, o cronista também acredita que Macron também é o líder ideal para Le Pen: "neoliberal na economia, progressista nos costumes e sem uma proposta para as classes populares, incluindo as que votam à esquerda."

"Com os candidatos conservadores, socialista, ecologista e comunista reduzidos a votações marginais nas eleições do último domingo, o único que conseguiu segurar voto popular fora desta dicotomia foi Jean Luc Mélenchon", recorda.

O candidato, caracterizado por Daniel Oliveira como sendo da "esquerda populista" e, perante "o ódio popular que Macron provoca, é quase um milagre que ainda haja quem segure votos que poderiam fugir para candidatos xenófobos e que vence destacado no voto mais jovem."

"Há quem divida a política entre liberais e iliberais; nacionalistas e globalistas; moderados e extremistas; o objetivo é reduzir a democracia a um suposto consenso neoliberal. Mas, quando chega a segunda volta, todas essas dicotomias desaparecem e volta a falar-se da esquerda para apelar a que vote contra o perigo da extrema-direita em nome da democracia", expõe.

No caso de Mélenchon, caracterizado por Daniel Oliveira como um "obstinado egocêntrico", disse que nem um voto deveria ir para Le Pen. O cronista acredita que o candidato deveria "ter ido mais longe e apelar diretamente ao voto em Macron, o único possível para um democrata".

Para o jornalista, "tal como em 2017, as coisas vão mudar ao longo da campanha". "Como todos os democratas, Mélenchon tem o dever de fazer a sua parte, com a responsabilidade que faltou a comunistas, socialistas e ecologistas na primeira volta. Se tivessem desistido para o candidato mais bem colocado à esquerda, teriam afastado imediatamente Le Pen, que ficou apenas 1% à frente e teríamos uma segunda volta em que o debate se faria entre a esquerda social e o centro neoliberal", considera.

"O único a quem não se exige nada para conquistar votos a Macron, é a Macron". Na opinião de Daniel Oliveira, o presidente francês cessante "não se debate o que fez para merecer tal desprezo popular, da esquerda e direita, e muito para além dos extremos."

"Não foi só a França que se extremou, foi o Macron que expulsou a França do centro e não está sozinho na Europa", acredita.

O cronista acredita que "Macron é uma benção para Le Pen", porque "representa um consenso cada vez menos consensual".

"As pessoas não desistiram da democracia, a democracia é que se tem desistido delas" e a esquerda, para Daniel Oliveira, "tem culpas" e "este é o momento para impedir a vitória de Le Pen".

"É em Macron que votarão todos os democratas" na segunda volta das presidenciais francesas, a 24 de abril, segundo o jornalista, porque "tem contado com esta responsabilidade para não governar para o povo", explica.

"Espero que ainda não seja desta vez que Le Pen leva a França e a Europa para o abismo. Basta olhar para as eleições dos EUA ou no Brasil para perceber o que isso significaria, mas é uma bomba relógio à espera de rebentar", conclui.

*Texto redigido por Clara Maria Oliveira

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