Nem lixívia desinfetava esta presidência contaminada

"Nunca pensei ter que escrever isto, mas, por favor, não bebam lixívia"Joe Biden, Twitter. "Donald Trump é um perigo para os americanos. Mas os republicanos recusam-se a travá-lo", Suzanne Moore, Guardian.

Donald Trump foi avisado em janeiro pelos seus próprios conselheiros e assessores do que poderia estar para vir.

Voltou a ser avisado em fevereiro. Adiou, minimizou, negou. Só começou a agir em março.

Os Estados Unidos passaram, na segunda-feira, dia 27 de abril, um milhão de infetados confirmados - mais do que os cinco países seguidos (Espanha, Itália, França, Alemanha e Reino Unido) juntos. No número de mortos por Covid-19, os EUA congregavam, na terça de manhã, mais de um quarto do total mundial: 56 mil em 211 mil.

Como foi possível Donald Trump ter dito o que disse sobre os desinfetantes e os raios UV?

E como é possível que ainda haja quem tente contextualizar, relativizar, normalizar, desdramatizar?

Como?
Há um ponto prévio para se iniciar esta conversa fundamental. É claro que Trump não disse aquilo da boca para fora.

O que ele, essencialmente, quis fazer foi chegar a um segmento minoritário -- mas muito significativo -- da sociedade americana que deixou, pura e simplesmente, de se preocupar com o conhecimento. Muitos por falta de acesso, outros por darem primazia à crença em relação ao método científico. Convém lembrar que 38% dos americanos acreditam que beber cerveja Corona pode ser uma forma de contrair Corona (vírus).

A dimensão da percentagem não é casual - é mais ou menos essa a base fiel e indestrutível de Trump.

Uma base movida pela ignorância, pelo poder destruidor - mas persuasivo -- da mentira, da noção enganadora de que "se vamos atacar e minimizar quem nos critica temos a situação controlada".

Não interessam os factos, não interessam os valores básicos de civilidade.

É preciso mergulhar no caldo de cultura que está instalado nesses quase 40% da sociedade americana para se perceber (um bocadinho, pelo menos) a loucura em que estão emergidos. Uma loucura investida por suposta legitimidade presidencial.

Levou, nos últimos anos, ao aumento preocupante dos crimes de ódio da supremacia branca. Levou ao ataque a jornalistas. Levou ao ataque a quem se preocupa com o Clima e o futuro do planeta. Levou ao ataque à Ciência, aos investigadores, ao conhecimento.

A pandemia trocou-lhes as voltas.

É que desmentir mortes é mais complicado. E quem morre não pode continuar a mentir e a atacar quem está certo, objetivamente certo.

A pandemia, de súbito, mostrou à evidência como é decisivo respeitar a Ciência e seguir o que de melhor ela nos traz.

O que faz o Presidente quando há manifestantes a dizer coisas como "My Body My Choice" (não deixa de ser divertidamente irónico, se nos lembrarmos a intolerância que mostram em relação ao direito ao aborto) e escrevem coisas como "Trust in God not in Vaccines" e "#SaynotoBillGates"? Atira coisas como a que atirou há dias de perguntar em plena conferência de Imprensa aos cientistas: "E se injetarmos desinfetante?"

Só se choca com o que aconteceu nas horas seguintes - picos de intoxicações por desinfetante em vários estados - quem não perde uns minutos para pensar no que isto verdadeiramente representa.

O peso do que o Presidente dos EUA diz é brutal. Tem consequências.

Quando o Presidente dos EUA tem um comportamento profundamente irresponsável do ponto de vista das mensagens básicas numa pandemia, isso tem consequências trágicas.

É claro que, no dia seguinte, veio fazer o que faz sempre quando passa das marcas e depois percebe que está a perder o controlo da situação: disse que era a brincar e que estava a ser irónico. A eterna explicação de "era uma imagem", "estava a ser metafórico", tão usada por quem, depois disto tudo, ainda gosta de fazer o papel de idiota útil de desculpabilizar Trump.

Quem veja as imagens e leia a transcrição da própria Casa Branca sabe que ele não estava "a ser irónico". Mas admitamos que até estivesse. Não há forma de interpretar essa "ironia", tendo em conta as consequências trágicas que já teve, que não seja a de que esse é um comportamento profundamente indecente. Porque permite que pessoas sem instrução e sem discernimento coloquem a sua vida em risco.

É disto que estamos a falar.

Uma questão de decência

Joe Biden vai fazer a sua campanha contra Trump baseada na ideia de que a América precisa de voltar a ter um Presidente decente. E precisa mesmo.

O que é preciso mais acontecer para que Donald Trump não seja "relativizado" e desculpado?

Em tweet publicado a 27 de abril, assumiu uma espécie de rutura das suas obrigações como presidente de uma União de estados. Numa clara e manifesta violação do espírito da Federação americana, escreveu assim: "Porque é que as pessoas e os contribuintes devem financiar e ajudar os estados mal governados (como o Illinois, por exemplo) e cidades, em todos os casos governados por democratas?"

Ora, para quem conhece a lógica federal, isto é de uma gravidade sem nome - e sem qualquer tipo de desculpa quando tem a assinatura escrita do Presidente dos EUA.

Os Estados Unidos são uma república constitucional e federal - fundam-se na diversidade dos estados, coesos nessas duas ideias indestrutíveis: o respeito pela Constituição e a União que decorre dessa federação de estados diversos.

Quando o Presidente, maior responsável pela preservação dessa unidade na diversidade, assume uma divisão pela cor política de quem governa os estados, algo de profundamente irreversível já aconteceu. Não é "pode acontecer". Já aconteceu.

Demissão americana

O que é mais triste em tudo isto é que esta era a altura exata para que a boa influência do Presidente dos EUA surgisse como contrapeso à perda de prestígio da China na cena internacional. Sobretudo no plano em que mais nos identificamos, o da aliança atlântica.

Que falta fazia, agora, o grande espaço transatlântico preconizado por Barack Obama no seu discurso do Estado da União de 2013 - e que nunca viria a sair do papel.

Yuval Harari, filósofo e historiador israelita, assume a sua perplexidade pela falta de "adultos na sala" em Washington: "A América tinha tudo para assumir a sua liderança pelo exemplo, como fez no pós-crise 2008 ou no Ébola. Mas desta vez abdicou desse papel. O atual Presidente dos EUA prefere dizer "não quero ser um líder global, só me quero preocupar comigo". Mas sinceramente: olhando para a falta de qualidade da resposta dos EUA na sua própria casa, talvez não seja mau que não esteja a assumir responsabilidade global."

Timothy Snyder, historiador americano e professor em Yale, grande conhecedor do Holocausto, recordou há dias que "contar mentiras consome tempo e neste momento consumir tempo fundamental para salvar vidas". E sobre Trump, é claro: "Temos um líder que acredita na bruxaria e não na ciência".

A importância de respeitar as palavras

"Os cidadãos de 80 e 90 anos construíram o nosso país, o bem-estar com que vivemos foi construído por eles. Lutamos contra o vírus também por eles". A frase de Angela Merkel voltou a lembrar-nos como é importante, numa fase como esta, ter líderes que respeitem as palavras.

Porque são as palavras que nos dizem o que, verdadeiramente, somos.

A vandalização da palavra foi um dos sinais de maior degradação do discurso político e do exemplo de liderança nos últimos anos.

Levou a que, nos EUA, emergisse um Presidente com um discurso infantil, em que tudo é "fantástico ou horrível", "maravilhoso ou péssimo", "grandioso ou muito mau". É uma linguagem binária, pobre, preconceituosa, que explora a dimensão simplista com que os seus apoiantes veem o mundo: "nós" ou "eles", "estrangeiro" vs "nacional".

Trump e Bolsonaro são os dois exemplos mais claros de como a linguagem hiperbólica se tornou legítima e dominante nos últimos anos em segmentos que deixaram de querer esclarecidos com a verdade complexa e demorada e passaram a preferir as crenças rápidas, simples e preconceituosas - mas mais confortáveis de aceitar.

As mortes não são "uma metáfora"

O grande problema é que, neste ambiente perverso e contaminado, passou a ser muito mais difícil explicar a verdade e a realidade complexa.

Isso ficou tão evidente nas últimas semanas: perante o surgimento improvável e inesperado da maior pandemia num século, milhões de americanos e brasileiros tardaram em assimilar a informação. Negaram. Não quiseram acreditar. "Não, isto não é nada". "É só uma gripe". "Eles estão a exagerar". Até que as mortes começaram a crescer. E a crescer. E a crescer. E a crescer. E não, não dá para negar as mortes.

Não, não dá para dizer que as mortes são "uma metáfora". Mortes são mortes, ponto.

De tanto gritar que vinha aí o lobo, os "trumpistas" não conseguiram mesmo perceber quando apareceu o lobo a sério.

É no que dá quando se aceita o inaceitável e se prefere a mentira "sexy" e rápida.

Os populistas prometeram, nestes anos de sombra e confusão de conceitos, soluções rápidas e instantâneas - "I alone can fix it", eu sozinho consigo resolver isto, podia ler-se no "backdrop" da Convenção Republicana de 2016, que confirmou a nomeação presidencial de Donald Trump.

O tempo pandémico que vivemos é tudo menos isso: exige paciência, complexidade, demora. É tudo menos o simplismo básico de ir atrás de quem promete rapidez providencial de ser um homem só a resolver tudo. É esse o grande paradoxo: a pandemia chegou no momento em que um número incrivelmente grande de pessoas em países supostamente civilizados quiseram acreditar nas soluções fáceis e rápidas.

Agora têm que esperar. E muito. Como os outros.

Não, já nem a "Economia" está boa

Donald Trump vai passar, em poucas semanas, de ser o presidente que tinha o desemprego mais baixo em meio século (3,5%) para presidente com a maior recessão em várias décadas. É certo que apanhou a maior pandemia num século - mas também convém recordar que até esta pandemia ele tinha herdado uma recuperação muito bem lançada pelo seu antecessor, Barack Obama, que -- esse sim -- tinha conseguido lançar as bases para reagir à maior depressão económica que tinha ocorrido em sete décadas - a crise financeira de 2008/2010.

Ainda é cedo para sabermos em que ponto a pandemia vai ficar nesta comparação histórica, mas tudo indica que nos próximos três ou quatro trimestres (até ao fim de 2021) assistamos à maior queda da Economia em 90 anos, desde a Grande Depressão.

No EUA, os 22 milhões de novos desempregados no último mês devem ser multiplicados por mais dois ou três até ao final do verão - e isso dará um desemprego de cerca de 30%, três vezes maior que no pico da crise de há uma década - 10,5% pelo final do verão de 2010.

Até aparecer o novo coronavírus SARS-Cov2, os Estados Unidos seguiam numa rota de 119 meses seguidos a criar emprego - 81 com Barack Obama mais 38 com Donald Trump. A média mensal de novos empregos nos EUA nos três primeiros anos da Presidência Trump foi de 181 mil. É bom. Mas a média mensal de criação de novos empregos nos últimos três anos da Presidência Obama tinha sido ainda melhor: 202 mil.

Durante os primeiros três anos desta bizarra presidência americana, havia sempre quem, com uma espécie de "síndrome de Estocolmo" política, fazia questão de ver qualquer coisa positiva e aceitável no comportamento indigno de um Presidente que mente descaradamente, hostiliza aliados tradicionais da América e vandaliza o legado dos seus antecessores, ao retirar valor e respeitabilidade à palavra do Presidente dos EUA.

"O Trump pode ser isto ou aquilo, mas a Economia está ótima...", aparecia sempre alguém a ressalvar, quase que com uma necessidade não assumida de se juntar a um "bully", a ver se assim recebia uma proteção especial de não ser agredido por ele. Está estudado, é um comportamento que muitos adotam para tentar sobreviver. Sucede que agora esse último, e muito discutível argumento, ruiu como um baralho de cartas.

Como é óbvio, a "Economia" não está ótima. E a "Economia", que diabo, não pode ser tudo. Ser Presidente dos EUA é assumir uma posição fundamental em relação ao que a maior potência do mundo deve ser. Que exemplo deve dar. Que alianças deve preservar e que pontes pode construir.

Afinal era mais importante do que parecia acreditar na ciência, não era?

Com Barack Obama, os EUA tiveram um Presidente que recolocou a América no caminho do crescimento económico, depois da maior depressão em 70 anos. Que acreditava na ciência e no conhecimento - e como isso, aos nossos olhos de hoje, aqui fechados coletivamente a meio de uma pandemia que nos assusta e ainda nos deixa em choque, é importante: haver um líder que acredite no conhecimento e na ciência.

Um líder, como Obama foi, que tivesse a visão suficiente de seguir conselhos como os de Bill Gates, que em 2015 apontou claramente que uma pandemia era não só possível como provável e que havia que começar a preparar isso.

Um líder, como Obama foi, capaz de estar à altura de travar com eficácia a epidemia do Ébola, em 2014, e aprender com isso - deixou como legado uma equipa especial de prevenção de pandemias, acoplada ao Conselho de Segurança Nacional - que Donald Trump se apressou a destruir.

Trump gosta de dizer que dá como prioridade máxima a segurança dos americanos. Ora, por estes dias, fica tão claro que se há um tema que é claramente de Segurança Nacional é estar preparado para responder a um surto pandémico.

Obama criou uma equipa e percebeu que isso era tema para o Conselho de Segurança Nacional. Trump, além de a ter destruído, ignorou avisos dos seus próprios conselheiros, que desde janeiro lhe apresentaram dados sobre o que está agora a acontecer, e demorou oito semanas a reagir. Oito semanas. Sim, é verdade que nos primeiros dias houve uma ligeira subida na aprovação de Trump, sobretudo depois da aprovação do plano de recuperação económica.

Mas estamos a falar de uma aprovação de 49% (que agora já baixou para os habituais 42/44%).

Nada, mas mesmo nada a ver com os 93% de George W. Bush pós 11 de Setembro, ou até os quase 70% de Obama no início do primeiro mandato. Nada a ver. Ao contrário do que muitos insistem em querer ver (mas nunca existiu), Trump não tem um apoio claro "dos americanos".

Tem apenas uma base fiel, que é minoritária - e pode vir a ter fortes mudanças de composição nos próximos meses, pela força destruidora (social e de vidas, mesmo) desta pandemia.

Os americanos costumavam unir-se em peso em torno do seu Presidente quando sentiam uma ameaça real. Mas isso era quando tinham mesmo um líder que os protegia.

Como isto não é bem um Presidente dos EUA, já só podem contar com alguém que está apenas a tentar encontrar pretextos para se safar.

Sem a "economia estar boa", o que é que inventarão agora para desculpabilizar o indesculpável?

*Germano Almeida é autor de quatro livros sobre presidências americanas

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