Novos mínimos na política americana

Finalmente chegou o processo de destituição de Trump de que se falava desde que se soube da possível interferência russa nas eleições presidenciais americanas. Mas os democratas não avançaram agora por terem finalmente uma estratégia ofensiva, estão pelo contrário numa posição essencialmente defensiva. Pretendem conter um ataque a Joe Biden, desferido em termos que só Trump e quem com ele ou por ele desenha as suas táticas de luta política poderia imaginar.

Na base do processo está um pedido ao Presidente ucraniano para que investigue o filho de Joe Biden por corrupção. Assim que o pedido se tornou público, Trump fez questão de voltar a pôr o pé no acelerador e dizer que há milhões de dólares movimentados de forma suspeita a partir da Ucrânia (e da China) em favor dos Biden. Sabendo que estamos a falar de alguém que alimentou durante anos a ideia de que Obama não nasceu nos EUA e fez de "prendam-na" um slogan contra Hillary não é difícil imaginar que tipo de campanha se prepara agora.

No momento em que o processo de destituição se iniciou não havia sinais consistentes de que tivesse apoio da opinião pública. Também não havia nenhuma evidência da possibilidade de ser apoiado por dois terços dos senadores. Não se pode esperar que ganhe nem o coração dos eleitores nem a razão dos legisladores. Mas é um processo necessário aos democratas. Protege Biden de acusações que poderiam ser conhecidas apenas mais tarde, baixando o seu efeito ao denunciá-las como ilegítimas e infundadas numa fase inicial de gestação. Expõe Trump como um político que não se contem em limites institucionais nem é contido pelo seu partido. Condiciona a possibilidade de que possa utilizar o mesmo tipo de meios noutros ataques. Junta mais um elemento ao retrato que os democratas pretendem que os americanos tenham de que ele não é a pessoa adequada para o lugar. É um episódio na corrida da política americana para o fundo.

Mas não se pode deixar de sublinhar que este processo também mostra quão admiráveis são as instituições americanas. Todo este debate só é possível porque todas as chamadas do Presidente da República são ouvidas por um conjunto de pessoas que não são de confiança pessoal ou partidária, gravadas e transcritas e sobre elas há uma decisão que pode ser discutida sobre critérios de classificação e armazenamento. Nada disto seria público se não houvesse um denunciante que arrisca a sua profissão e a sua reputação por um ato que considera institucionalmente necessário e pela sua lealdade ao país e não à pessoa do Presidente. Só há processo na Câmara dos Representantes porque o poder executivo não tem condições institucionais nem políticas, mesmo com Trump à frente, para sonegar transcrições e denúncias nem para bloquear um escrutínio minucioso dos seus gestos. Nos seus mínimos, a democracia americana continua a ser uma construção institucional fantástica.

Imaginem o que seria ter alguém como Trump à frente de um país sem tão sofisticadas instituições. Poucas democracias sobreviveriam. A dos EUA talvez seja mesmo a única em que isso é possível.

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