O meu filho herdará um país pior que o meu

As notícias do coronavírus na China são recebidas com mais alarmismo do que qualquer alerta sobre os efeitos das alterações climáticas. Enquanto o vírus mata milhares, o aumento de 1,5º C da temperatura média da Terra, causada pela crise climática, pode matar dezenas de milhões de pessoas. Mas a sociedade continua apática diante do problema. Um zumbido, isolado, pode ser aterrorizador, mas um zumbido, se acompanhado por muitos outros, pode tornar-se uma banalidade. E o debate internacional sobre o meio ambiente tornou-se uma banalidade, na qual participam estadistas, cientistas e adolescentes, sincronizados com a necessidade de se fazer alguma coisa, mas sem que se faça, realmente, nada de verdadeiramente decisivo. São poucos aqueles em todo o mundo, com exceção da comunidade científica e dos seguidores da Greta, que têm sentido de calamidade e de urgência. Em Portugal não é diferente. O cano da pistola está a morder a testa, mas os portugueses ainda não fitam as alterações climáticas como uma ameaça à sua existência.

Será que a minha geração, na casa dos 40, pode mesmo sucumbir devido às alterações climáticas?

Estudos científicos indicam que temos 12 anos e 9 meses para evitar que a temperatura média do planeta suba 1,5º, quando comparada com a temperatura global na era pré-industrial. De 1880 à 2012, a temperatura média já aumentou 0,85°. Se atingirmos a marca de 1,5º isso levará a mudanças irreversíveis nos principais ecossistemas e no sistema climático planetário.

Para conhecer melhor os riscos, entrevistei Kim Holmén, Diretor do Norwegian Polar Institute, localizado no arquipélago de Svalbard, no extremo norte da Noruega e um dos locais mais remotos do planeta habitados por seres humanos. É também uma das pessoas a quem alguns chefes de governo recorrem informalmente para obter informações detalhadas sobre as alterações climáticas.

Ao trocarmos e-mails sobre Portugal, partilhou vários estudos sobre os efeitos das alterações climáticas no nosso país no período 2071-2100. Em jeito de sentença, os estudos indicam sumariamente:

Junto à fronteira com Espanha, o número de ondas de calor crescerá 7 vezes e a duração de cada uma crescerá, em média, de 5 para 22 dias. Teremos pelo menos 3 ondas de calor por ano que cobrirão todo o país. Segundo Kim Holmén, o aumento da temperatura da água na região de Svalbard, causado pela mudança de padrão das correntes de ar, levará ao aumento da precipitação na região da Escandinávia e à seca em Portugal.

A precipitação vai cair 15% na região Norte e mais de 30% na região Sul, afetando a agricultura, floresta, gestão de águas e produção de energia. Teremos chuva, sobretudo, em eventos extremos concentrados no tempo, como os que vimos este ano em São Paulo ou Belo Horizonte, quando se bateram recordes históricos de precipitação diária.

A subida do nível das águas do mar engolirá regiões como Figueira da Foz, Aveiro, os estuários do Tejo e do Sado e a Ria Formosa.

O meu filho herdará um Portugal muito diferente do meu, com temperaturas desérticas no interior a empurrarem a população para a costa e com o aumento do nível das águas do Oceano Atlântico a empurrar as pessoas para o interior. Viveremos encurralados num país com clima magrebino, tentando escapar de fenómenos naturais imprevisíveis como os nossos antepassados caçadores-coletores fugiam das estrelas cadentes ou dos relâmpagos.

O governo tem planos ambiciosos para atingir a neutralidade carbónica da economia portuguesa até 2050. Mas mesmo que sejamos um exemplo mundial, acabaremos inevitavelmente por ser vítimas do desempenho negativo de vários outros países. Por isso, além de um plano de prevenção precisamos também de um plano coletivo de sobrevivência à crise climática. Começando já, as infraestruturas que construiremos, a educação que proveremos e os investimentos que faremos têm que estar moldados pela alta probabilidade de, em 50 anos, sermos materialmente um país muito diferente daquele que somos hoje.

* Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de