O mundo começa a gostar dos portugueses. Falta os portugueses começarem a sentir o mesmo

Nas últimas décadas, a eleição de vários escandinavos para os cargos de Secretário-Geral da ONU, Secretário-Geral da NATO ou Presidente da Assembleia Geral da ONU pode ser atribuída ao acaso, ao lobby ou ao contexto político. Mas também pode ter sido facilitada pelo simples fato de serem escandinavos. Da mesma forma, a eleição de Durão Barroso, António Guterres, Mário Centeno ou António Vitorino para altos cargos internacionais pode ser atribuída a múltiplos fatores aleatórios, mas também pode ter sido facilitada pelo simples fato de serem portugueses.

Será?

Nós, portugueses, lidamos bem com o chicote. Estamos afeitos aos instintos de autorreprovação, a sentir inquietudes com o brilharete do amigo de infância e a ser olhados como o epílogo geográfico da Europa. Quando eu tinha 17 anos e Portugal recebeu uma cimeira da OSCE em Lisboa, a minha mãe disse-me para eu moderar o empolgamento porque seria de esperar "que os portugueses estragassem a organização do evento." A minha geração foi apadrinhada pela inevitabilidade do revés. Ainda hoje os portugueses são os europeus que têm menos confiança nas pessoas, principalmente nos seus conterrâneos (dados POP, 2019).

Gera por isso surpresa que agora comecem a nos valorizar. Quase tanto quanto enaltecem os escandinavos como líderes globais.

A Suécia é um dos maiores fabricantes de armamento no mundo per capita, a Noruega é o maior produtor de petróleo na Europa e a Dinamarca tem índices expressivos de crimes de ódio, mas isso não impede a Escandinávia de ser vista pela comunidade internacional como um oásis das políticas de preservação ambiental e uma chocadeira da paz no mundo. Gostar da Escandinávia tornou-se uma platitude.

Portugal também está cheio de telhados de vidro, mas algumas das nossas características, tal como as escandinavas, começam a ser reconhecidas como ativos em negociações internacionais. Somos oriundos de um país com a geografia certa: não muito pequeno e insularizado dos problemas do mundo, mas não grande demais para sermos obrigados a ter sempre uma opinião. Estamos entre Tuvalu e a Austrália. Somos um interruptor social, tão reservados quanto expansivos, entendemos a melancolia dos povos do frio e a recreação dos povos do calor. Tanto somos uma casa vazia de xisto na Beira quanto um pátio aberto que festeja o Santo António. De modo geral os portugueses, pelo menos fora do ambiente doméstico, também são dados à paz e à ordem. Não gostamos de dissenso público, que se fale alto. Uma mesa de trabalho em Bruxelas é como uma mesa de refeição domingueira, preferimos um falso consenso familiar a um genuíno conflito entre irmãos.

Os portugueses, na verdade, gostam de serem gostados, nem que para isso tenham que aceitar um certo rebaixamento, uma quase subordinação. É-nos fácil, por isso, fazer concessões às vontades de quem achamos que é mais alto. Somos maleáveis. É esta falta de confiança que nos torna tão inclusivos e hospitaleiros. Não convidamos para casa temendo que nos descubram as intimidades, mas hipotecamos a alma para recebermos bem todos os turistas. O contacto na rua permite uma proximidade defensiva.

A receber estrangeiros há dezenas de anos e a emigrar há centenas, os portugueses estão cada vez mais habituados à diferença. Valentim de Barros, o bailarino encarcerado no Hospital Miguel Bombarda por ser homossexual, seria um homem mais respeitado na atualidade. Os portugueses chegam hoje a organizações internacionais familiarizados com a diversidade.

Também somos bons a improvisar. Mas nesta categoria não estamos sozinhos. Os brasileiros têm a "gambiarra", os indianos a "jugaad" e os italianos o "tapullo" - tudo parecido com a nossa capacidade de desenrascar soluções perante problemas repentinos. Ainda assim, paradoxalmente, os portugueses também são formalistas e legalistas. Qualquer carta que recebemos da administração pública carrega referências a decretos de lei que ninguém tem paciência de ir consultar. Tudo o que fazemos tem que estar previsto na legislação. Posso ir cortar o cabelo? Sim, de acordo com o artigo 26º da Constituição, a todos os cidadãos "são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania."

Em cargos internacionais esta mistura de informalidade com legalidade vale ouro. Tal como saber falar línguas. E os portugueses são multilingues. Todos falamos espanhol, mesmo que não tenhamos pegado num livro de gramática castelhana. E a geração portuguesa que nasceu democrática, fala bem inglês. Aliás, se comparados com espanhóis ou franceses somos descendentes diretos de Shakespeare.

Falta agora injetarmos alguma ciência a esta portugalidade.

Surpreendentemente, a identidade portuguesa é pouco estudada. Dissecamos incansavelmente a nossa História, escrevemos inúmeros romances sobre a vida portuguesa, e participamos em diversas estatísticas europeias de comportamento, mas ainda é insuficiente o trabalho académico, sociológico e antropológico, sobre o ser português. Na Suécia, abundam estudos sobre aquilo que é conhecido como a "jantelagen" o código de conduta cultural onde se dá mais peso ao bem-estar coletivo do que à ambição individual.

Além disso, para sermos vistos como matéria-prima para organizações internacionais e estar aptos a ser mediadores internacionais de conflitos, precisamos de nos dedicar aos estudos da Paz e dos Conflitos. A Escandinávia é, há 30 anos, um dos melhores locais no planeta para estudar resolução de conflitos armados. São centenas de professores e investigadores, com mestrados e doutoramentos especializados. O conhecimento está materializado em infindáveis publicações e registos memorialistas. Em Lisboa foi inaugurada, o ano passado, uma muito bem-vinda Cátedra UNESCO dedicada aos estudos da paz. Mas ainda estamos longe da dimensão sueca ou norueguesa.

Para Portugal ser Portugal precisa de ser um pouco menos dele próprio.

*Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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