O país precisa que a oposição democrática se recomponha

A maioria absoluta é "diferente das outras", considera Daniel Oliveira, referindo que ela acontece depois de seis anos de "poder em minoria" do partido que a conquista "com uma oposição muito fragilizada e um Parlamento muito fragmentado".

"Não temos como adivinhar o que vai acontecer, mas temos os dados para saber as condições que existem para o exercício do poder e da oposição e os riscos que elas trazem", diz.

No seu espaço habitual de Opinião na TSF, Daniel Oliveira argumenta que, ao contrário do que aconteceu nos primeiros anos da geringonça, "o PS tem o seu flanco esquerdo fragilizado".

"Se muitas das razões para a popularidade do governo tiveram a ver com medidas que resultaram da pressão do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista, dos manuais escolares à redução do preço do passe social, do aumento do salário mínimo e das pensões à descida drástica das propinas, é de esperar que a ausência dessa pressão tenha o efeito inverso. Não é por amor ao PS que a maioria absoluta deixou José Luís Arnaut ou António Saraiva satisfeito."

O jornalista afirma que nos próximos meses serão importantes para verificar "os efeitos do fim desta pressão". "Os que deram a maioria absoluta ao PS para salvaguardar as conquistas da geringonça, entre 2015 e 2019, perceberão que é a correlação de forças entre os partidos e não a boa vontade do primeiro-ministro que determina as políticas", sublinha, explicando que "não é por acaso que segundo a contabilização das votações o PS se afastou dos seus aliados de esquerda e passou a votar muito mais vezes ao lado do PSD a partir de 2019".

"É provável que o PS continue com a atual correlação de forças a sua caminhada para o centro. A fragilidade do Bloco e do PCP não se vai sentir apenas no número de deputados eleitos. Os dois partidos vão demorar bastante a reagir e os sinais que dali vêm não são animadores", afirma.

De acordo com Daniel Oliveira, na conclusão da reunião do Comité Central, "o PCP dedicou-se a dar bicadas ao Bloco e ao Livre, em vez de abrir uma reflexão política sobre uma perda consistente e acentuada de votos". "Desde 2015 que obriga o partido a reorientar a sua estratégia para o futuro." Já o Bloco de Esquerda "parece acreditar que pode deixar toda a reflexão e reorganização do partido para 2023 como se as dinâmicas políticas ficassem congeladas até lá e estivessem em condições para descansar durante uns tempos". "Deste lado da política parece-me que a disposição não é para reagir, é para ir reagindo", acrescenta.

"Do lado direito, o PSD vai andar nos próximos meses à procura de um líder provisório. Nascido para ter poder, o PSD pode estar em coma induzido ao fim de seis anos longe do governo e sabendo que o esperam mais cinco, o que será um recorde de tempo na oposição de um partido do centrão. O vazio deixado pelo PSD tenderá a usar as poucas forças que lhe restam para reagir aos novos concorrentes à sua direita pode ser ocupado pelo PS. Este será mais um convite para os socialistas rumarem ao centro", refere.

Na oposição, "sobram, com um mínimo de representação", a Iniciativa Liberal e o Chega, lembra o jornalista. O seu reforço "desequilibrará toda a política nacional para a direita". "E não tenham qualquer dúvida que o partido de André Ventura será, de entre os dois, o centro do confronto."

"A imprensa adora-o. Porque com tudo o que é chocante e polarizadora ele dá audiências. Nos quatro dias depois das eleições, a CNN já tinha entrevistado três deputados diferentes do partido. Num mês, terá passado por todo o seu grupo parlamentar. É habitual dizermos que a comunicação social é fundamental para a democracia. Ela é, na realidade, condição para a democracia. Mas ser condição para que a democracia exista e ajudar a fortalecê-la não é a mesma coisa", considera Daniel Oliveira.

Segundo o comentador, "a extrema-direita portuguesa foi criada nos estúdios de televisão, alimentada nos ciclos noticiosos de 24 horas, e continuará a sê-lo mesmo quando começar a pôr em perigo a liberdade de imprensa, como fez em todos os lugares onde conseguiu algum poder". "Porque grande parte dos órgãos de comunicação social já pouco trata de jornalismo, produz conteúdos que possam ser vendidos e se os atentados à democracia são o que tem mais saída, promove esse produto para vencer a guerra de audiências. O jornalismo é fundamental para a democracia, as audiências são fundamentais para os acionistas. E nem sempre a democracia e os acionistas têm interesses coincidentes."

Daniel Oliveira frisa que o Chega será "a tragédia que dá audiência e terá, como tem tido, atenção desmesurada".

"Com o flanco esquerdo a lamber feridas, o PSD a apanhar bonés e o Chega a concentrar todo o espetáculo mediático é quase inevitável que António Costa veja no confronto com a extrema-direita e, em parte, com a Iniciativa Liberal, a melhor forma de polarizar o confronto político. Só tem vantagens: fica a parecer mais de esquerda, desvaloriza o PSD e, como aconteceu em França com Emmanuel Macron, transforma-se na única alternativa a um governo dependente da extrema-direita", entende o jornalista.

"É por tudo isto que só por deslumbramento ou tontice alguma pessoa de esquerda pode ficar satisfeita com esta maioria absoluta. E é por isto que PSD, Bloco e PCP têm o dever democrático de ultrapassarem rapidamente os seus desgostos eleitorais e voltarem ao ativo. Esta maioria absoluta vai precisar de uma oposição democrática à direita e de uma oposição social à esquerda. Vai precisar, como todos os governos precisam, de oposição", finaliza.

* Texto redigido por Carolina Quaresma

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de