O PCP está a ser privilegiado?

Numa entrevista à TVI na semana passada o presidente do PSD resolveu silenciar a contestação ao acordo que fez com o partido Chega nos Açores lançando outra controvérsia, a do Congresso do PCP. A dada altura disse o seguinte:

"Meter as pessoas em casa no recolher obrigatório todas as noites a partir das onze, ao fim de semana, da maneira como nós sabemos (e não estou aqui a contestar, se está bem ou se está mal), os restaurantes na situação em que estão, os hotéis na situação em que estão, o país na situação em que está e o governo diz: é para todos, menos para o Partido Comunista Português."

Desde o início da pandemia, em março, quais foram os acontecimentos que, em nome da defesa da saúde pública, motivaram tentativas de proibição?

Tivemos, em primeiro lugar, as celebrações populares do 25 de Abril, que acabaram mesmo por não se fazer.

A seguir foi o 1.º de maio, celebrado nas ruas pela CGTP.

No verão foram semanas de tentativas falhadas de cancelamento da Festa do "Avante".

Em contraste recordo, logo no princípio de junho, que dois espetáculos somaram 2200 pessoas no Campo Pequeno, em dias seguidos, e contaram com a presença do primeiro-ministro e do Presidente da República. Não ouvi críticas relevantes ao facto. Nem de Rui Rio.

Recordo, a 12 e 13 de junho, ter o Santuário de Fátima organizado uma peregrinação que culminou numa missa para quatro mil pessoas. Um grupo de algumas centenas de fiéis acumulou-se nas primeiras filas e não respeitou o distanciamento social, como se pode ver no vídeo disponível na Internet pela agência Ecclesia. Não ouvi críticas relevantes ao facto. Nem de Rui Rio.

Recordo o 13 de setembro em Fátima, logo a seguir à Festa do "Avante!": o excesso de presenças levou ao fecho do acesso ao recinto. A acumulação de pessoas e o perigo para a saúde pública são documentados por dezenas de fotos e vídeos partilhados na internet. Não ouvi críticas relevantes ao facto. Nem de Rui ​​​​​​​Rio.

Recordo ainda o 13 de outubro em Fátima, feito apesar do incidente do mês anterior. O Presidente da República elogiou a promoção da iniciativa, em contraste com as críticas que fizera um mês antes à realização da Festa do "Avante!", apesar da organização da iniciativa do PCP ter passado todos os testes de segurança sanitária e apesar de o Santuário ter falhado a 13 de setembro. Marcelo até foi a Fátima. Não ouvi críticas relevantes ao facto. Nem de Rui Rio.

Lembro o Prémio de Fórmula 1, no Algarve, de 23 a 25 de outubro. Não ouvi nenhum dos arautos da desgraça sobre ajuntamentos a 25 de Abril, a 1.º de maio ou na Festa do "Avante!" ter levantado a voz para impedir a acumulação anunciada de 30 mil pessoas. Pelo contrário, só vi publicados e difundidos elogios. Quando o evento começou e se percebeu como a organização falhara rotundamente, choveram então indignações. Ouvi, nessa altura, críticas relevantes, mas foram todas tardias e com algum tom hipócrita. Rui Rio foi um deles e só falou quando a prova já decorria, no último dia.

No primeiro fim de semana deste último estado de emergência e com recolher obrigatório em vigor, toda a gente viu na TV o desespero de centenas, talvez milhares, de proprietários e de trabalhadores de restaurantes nas suas iniciativas de protesto. Não ouvi críticas relevantes ao ajuntamento. Nem de Rui Rio.

No sábado passado, também com o estado de emergência em vigor, quase um milhar de artistas e empresários do setor estiveram reunidos no Campo Pequeno para exigirem medidas de apoio. Não ouvi críticas relevantes ao facto. Nem de Rui Rio.

Tivemos também este fim de semana o Moto GP que, mesmo sem público, juntou na sua organização e execução certamente muito mais do que as 600 pessoas que o PCP vai reunir. Não ouvi críticas relevantes ao facto. Nem de Rui Rio.

Para os mesmos três dias do congresso do PCP estão previstos mais de 60 espetáculos em todo o país, como dois que se realizam no Campo Pequeno, em Lisboa, e outros dois no Super Bock Arena - Pavilhão Rosa Mota, no Porto. Estão também marcadas inúmeras provas desportivas, embora sem público, mas movimentando milhares de atletas, treinadores e dirigentes. E há uma vintena de exceções previstas ao recolher obrigatório que abrangem muitas milhares de pessoas. Tudo isto ainda poderá dar uma volta, mas ainda não ouvi ninguém relevante criticar o facto, nem ouvi Rui Rio exigir cancelamento algum.

Eu sou militante do PCP e, por isso, muitos dos ouvintes acharão que a minha opinião é subjetiva ou tendenciosa, mas, francamente, analisados os factos, não consigo perceber onde é que Rui Rio, e muitos outros, encontram, afinal, o privilégio do PCP...

O que os factos dizem, claramente, é que todas as iniciativas públicas em que o PCP se envolve, mesmo indiretamente, têm o privilégio exclusivo da tentativa de sabotagem... É como quem diz: "toma lá, que não é democrático!".

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