O que falhou no controle da pandemia

A colocação de Portugal na lista vermelha de viagens pela Alemanha (impedindo na prática a deslocação de alemães para Portugal visto que ficam sujeitos a quarentena no regresso) irá ter, seguramente, um impacto negativo no turismo, agravado se, como é provável, outros países seguirem a posição alemã. Isto confirma que é um equívoco apresentar o controlo da pandemia e a proteção da economia como uma escolha entre duas alternativas. Na verdade, a melhor forma de proteger e promover a economia é controlar a pandemia. O descontrole da pandemia entre nós no primeiro trimestre do ano traduziu-se na maior queda do PIB da União Europeia. E o novo descontrole a que estamos a assistir, embora com efeitos menos dramáticos ao nível da mortalidade, irá atrasar a recuperação do nosso turismo e de toda a economia.

O que é surpreendente, e uma desilusão, é que este descontrole, com o processo de vacinação bastante avançado, parece ser quase único na União Europeia. A que se deve esta diferença? Há quatro formas de controlar a pandemia: primeiro, controlando a entrada do vírus e das suas variantes no território; segundo, através do distanciamento social (que vai desde os modelos mais leves, assentes na comunicação pública de regras de distanciamento social e higiene, ao confinamento); terceiro, rastreando e testando; quarto, com a vacinação. À medida que a vacinação protegeu os grupos mais vulneráveis podemos iniciar uma abertura gradual da economia e abandonar o recurso ao confinamento. Mas era fundamental, para que não existisse um novo descontrole nas faixas etárias ainda não vacinadas, que os outros instrumentos de controle da pandemia funcionassem bem. É isso que parece estar a acontecer nos outros países europeus, mas não entre nós. O governo nunca conseguiu ser eficaz no uso desses outros instrumentos, acabando sempre por ter de recorrer a formas de confinamento.

Não foi eficaz no controle da entrada no território. Ainda recentemente pude constatar a diferença com outros países europeus. Tal como em Portugal, é comum a exigência de apresentar um teste negativo, certificado de imunidade ou vacinação. Mas enquanto nesses países se é sujeito a um efetivo controle na fronteira, cá ninguém me pediu para apresentar o teste ou certificado. E como notou a Chanceler Merkel, enquanto os outros Estados europeus colocavam entraves à entrada de pessoas vindas do Reino Unido, onde a variante Delta (ou Indiana) primeiro se disseminou, Portugal promoveu ativamente a sua vinda para o nosso território. A procura do ganho imediato está hoje a ter um preço bem elevado para todos nós.

Também não somos eficazes na comunicação pública das recomendações de distanciamento. A ciência do comportamento ensina-nos que as recomendações assentes em incentivos positivos são até mais eficazes do que restrições suportadas em sanções. No entanto, essa eficácia está muito dependente da credibilidade da comunicação pública e da liderança pelo exemplo. Como já notei na semana passada, as contradições entre responsáveis públicos e a comunicação reativa, em vez de preventiva, adotada fizeram com que o governo perdesse a confiança dos cidadãos e deixasse de os conseguir guiar. Quando o Primeiro Ministro desvaloriza algo para que os outros governos europeus alertam, perde a credibilidade para dias mais tarde vir exigir aos seus cidadãos europeus o mesmo que esses outros governos tinham solicitado. Quando um Presidente da Assembleia da República demonstra ignorar todos os constrangimentos a que os outros cidadãos estão sujeitos, é natural que estes deixem de aderir ao que lhes é pedido.

Por fim, enquanto muitos dos outros Estados europeus desenvolveram políticas alargadas de rastreamento e testagem, que lhes permitiram substituir medidas mais duras de confinamento, por cá apenas se prometeu isso. Como também exemplifiquei a semana passada, há Estados europeus em que se tem controlado a pandemia exigindo testes para quase todas as atividades que impliquem socialização, mas, em troca, existem muitos testes gratuitos e mais fáceis de fazer.

Por cá, após mais de um ano, o governo continua a ter apenas um instrumento de controle da pandemia: o confinamento. Estamos todos a pagar por isso.

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