Para que serve a Universidade?

Ao chegar a meio da vida profissional, muitas pessoas não se lembram do que aprenderam na universidade. Foram anos de inoculação unilateral de conhecimento e de avaliações que testaram a memória avermelhada pelo excesso de uso. Para muitos, a universidade é apenas uma fase compulsória de legitimação social para o trabalho.

Outras universidades tornaram-se, com o tempo, menos medievais, dando ao aluno protagonismo, poder e conhecimento prático. Mas a forma como ensinamos deve continuar a ser repensada. A Covid-19 tem estimulado a evolução apressada do ensino presencial para o ensino remoto, mas as grandes transformações têm que ir além disso. A pandemia não deve ser vista como a causa da mudança no sistema de ensino, mas como uma oportunidade.

Temos que passar de um sistema de ensino baseado apenas na memorização de conhecimentos para um outro que inclua também o aperfeiçoamento de habilidades pessoais. Ao longo da sua vida, a geração do meu filho irá mudar de profissão, de empregador, de vontade e de geografia tantas vezes que não há nenhum conhecimento universitário original que consiga sobreviver a tanta mobilidade.

As salas da universidade devem, por isso, investir incessantemente no desenvolvimento de habilidades como resolução de problemas; agilidade e adaptabilidade; capacidade de iniciativa e empreendedorismo; comunicação oral e escrita eficaz; inteligência emocional e liderança; capacidade de aceder e analisar informação; sentido de responsabilidade; e sensibilidade, curiosidade e imaginação. Estas são as ferramentas que serão usadas ao longo de toda uma vida profissional, independentemente da zoologia de profissões.

Um profissional silencioso, obediente e mecânico, pode ter o perfil certo para um sistema fordista de produção em massa ou para escritórios onde ainda imperem os títulos e os trâmites - mas estas são estruturas em extinção. Por isso, avalio os meus alunos de finanças, habituados aos rigores da matemática, apelando à sua capacidade de fazer análises críticas, de mostrar originalidade e de variar semanalmente os seus grupos de trabalho para garantir exposição constante à diversidade. Os alunos são incentivados a deixarem as suas impressões digitais, não a servir de médiuns do conhecimento gerado por terceiros. Isto gera desconforto. Muitos alunos foram treinados no ensino secundário a não terem opinião própria.

O ensino deve também evitar compartimentalizações, já que a vida profissional será um tratado de livre circulação. O foco excessivo na especialidade deserda uma pessoa da possibilidade de se enriquecer profissionalmente. Às especializações verticais têm de ser somadas habilidades e conhecimentos horizontais. Se um presidente de uma empresa tem que ser bom a analisar fluxos de caixa, também tem que ter desenvoltura em assuntos jurídicos, fluência em vários formatos de comunicação, e destreza em gestão de pessoas. Ou seja, seria beneficiado tanto com uma licenciatura em gestão, quanto em finanças, direito, marketing, comunicação ou psicologia.

A educação deve ser vista como a fachada de um templo grego, com um frontão horizontal apoiado em longas colunas verticais. Conhecer um pouco de muito e conhecer muito de um pouco.

Nesta ótica, o ensino tem que ser customizado para cada aluno. A porta de entrada numa licenciatura pode ser a mesma, mas tem que haver múltiplas portas de saída. Os alunos deveriam poder montar a sua experiência universitária de acordo com as suas vontades. E as universidades deveriam dar a cada aluno a possibilidade de cursar outras disciplinas de outras faculdades, eventualmente até de outras instituições universitárias, e proporcionar-lhes também um altíssimo grau de exposição à sociedade civil, ao poder público e às empresas. A aprendizagem será cada vez mais em tempo real, a partir de qualquer lugar, apoiada em diferentes perspetivas. Facilitado pela tecnologia, o ensino não pode estar dependente de um lugar físico ou de um calendário. Nem todos têm vontade de aprender Cálculo I às 15h.

A fronteira entre a fase universitária e a fase profissional das nossas vidas deverá também sofrer erosão. Deveremos estar preparados para a perpetuação da nossa condição de aluno. As várias reencarnações profissionais exigirão uma constante reciclagem de conhecimento prático e teórico e sentir-se-ão desvalorizados aqueles que não acumularem trabalho com cursos de formação.

A poucas semanas de milhares de adolescentes se candidatarem ao ensino superior, os alunos devem estar naturalmente atentos aos seus apetites vocacionais. Mas devem escolher licenciaturas que não sejam fatalistas, que não os obriguem a uma única profissão para o resto da vida. Quanto mais ampla for a sua formação universitária, mais amplas serão as suas opções futuras. E devem estar prontos para assumir, com humildade, o papel de protagonistas. A universidade é para eles.

*fundador e presidente do Granito Group e professor de Sustainable Finance na NOVA School of Business and Economics (Nova SBE). A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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