Porque é que não se discute a política externa portuguesa?

A política orçamental de qualquer governo português, liderado por qualquer partido, é dissecada por inumeráveis analistas e comentadores. O mesmo com saúde, educação e tantas outras políticas públicas. A exceção é a política externa. A comunicação social portuguesa conta com cerca de 10-20 comentadores regulares de temas internacionais, a maioria de perfil generalista que analisa os temas globais que entram na roda da imprensa diária. Mas dificilmente usam o bisturi para dissecar as ações internacionais do próprio país.

A "Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030" de Costa Silva contem uma ampla descrição do papel de Portugal no mundo que não foi publicamente examinada (p.26-34). As nomeações de novos embaixadores portugueses para postos de interesse estratégico fogem ao radar da imprensa e da sociedade. Os resultados que brotam das visitas ao estrangeiro do Ministro dos Negócios Estrangeiros não são averiguados. E porque não houve nenhum comentário público ao encontro esta semana entre Santos Silva e o seu homólogo esloveno Anže Logar para preparar a presidência da UE?

Este não é o padrão na Europa. Também não é no Brasil, onde os cerca de 80 analistas internacionais que frequentam os media e os think-tanks ocupam-se mais com a política externa brasileira do que com a política externa de outros países. É um debate assíduo.

Porque é que não existe um semelhante escrutínio em Portugal?

A reposta mais intuitiva é afirmar que a nossa política externa não é suficientemente aliciente para a maior parte da população. As relações internacionais poderão ser vistas como um conjunto de ações de foro protocolar e com um impacto apenas perfunctório no dia a dia de cada um.

É uma explicação incompleta. Quiçá injusta.

Outra possível motivação substancia-se nas fronteiras enevoadas entre formuladores, executores e analistas de política externa. As divisões deontológicas não são explícitas. Todos fazemos parte do mesmo establishment de especialistas em relações internacionais, onde se geram dinâmicas de coparticipação que inibem a emancipação da crítica. O convívio regular entre os funcionários do MNE ou de São Bento e os analistas internacionais - consolidado pela participação comum em inúmeras iniciativas e eventos e em trocas constantes de cordialidades - favorece mais os participantes nessa dinâmica do que o debate em si. À classe política e diplomática interessa, logicamente, poder exercer uma certa influência na composição da mensagem. Querer manter uma relação de proximidade com jornalistas e analistas é um instinto natural. Caberia a estes últimos resistir ao aceno para proteger a soberania do escrutínio, mas, para quem vive de acesso a informação, ter um duto direto a um decisor político é um trunfo difícil de descartar. Claro que há regras e normas para gerir estas relações, mas num contexto no qual quase todos se conhecem e os papéis poderão ser alternados a cada legislatura, é difícil operar sem sangue nem emoções para garantir um debate independente. O caminho mais fácil é o não debate. Ou, quando existe, é mais promocional do que provocatório.

Acho que parte da resposta também está associada ao fato da matriz fundadora da política externa portuguesa continuar resiliente a mudanças, ao longo dos últimos 40 anos. Europa, Atlântico, Lusofonia (ou CPLP) e Comunidades continuam a ser os vetores estratégicos, aos quais pontualmente se vai adicionando uma ou outra prioridade, como a internacionalização da economia ou o reforço do multilateralismo. Esta consistência e previsibilidade é, em certo sentido, bem-vinda. A política externa deverá estar mais inclinada a reverberar os interesses do Estado e os valores da população do que a satisfazer as pupilas gustativas de um determinado governo. Mas este conservadorismo desestimula o debate porque o objeto da análise não é dinâmico.

Mas a tradição não tem que mirrar a inovação. Precisamos de avaliar a eficiência da nossa rede de embaixadas e postos consulares, ao mesmo tempo que incorporamos soluções tecnológicas, como Machine Learning e Big Data, para tornar a presença exterior do país mais competente e menos onerosa. Precisamos de discutir a diversidade do nosso corpo diplomático e desenvolver novos estímulos para conseguir atrair mais talentos. Contar com um debate público próspero sobre a estratégia internacional do país é, por isso fundamental. Por debaixo das vigas que definem a nossa política com o mundo existe muito espaço para arejarmos práticas e conceitos.

* Rodrigo Tavares é ex-Chefe da Assessoria Especial de Relações Internacionais do Governo do Estado de São Paulo (atual Secretaria de Relações Internacionais). A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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