Qatar, futebol e direitos humanos

Paris é a mais recente cidade a juntar-se a um movimento que nasceu na Bélgica e chegou a França no final de setembro. Por razões éticas e ecológicas, diversos municípios recusam criar zonas públicas de transmissão dos jogos do Mundial, que arranca a partir de 20 de novembro no Qatar. As condições desumanas a que foram sujeitos milhares de trabalhadores são a principal razão apontada, a par de fatores ambientais relacionados com os sistemas absurdos de climatização criados para os estádios.

A um mês e meio do arranque da prova, a FIFA continua sujeita a fortes pressões de organizações internacionais, que tentaram no plano judicial conquistar indemnizações para as famílias de imigrantes mortos ou feridos com gravidade durante a construção de estádios, estradas e redes de transportes. Oficialmente, o saldo apontado foi de três vítimas mortais no ano passado, mas dados da Organização Internacional do Trabalho estimam cerca de 50 mortes por ano, admitindo que no total das obras possam ter perdido a vida quase 6500 pessoas, na sua maioria imigrantes do Paquistão, Nepal, Índia e Bangladesh.

Organizações como a Amnistia Internacional promoveram nos últimos anos petições, processos judiciais e outras ações exigindo à FIFA que fizesse mais pelos direitos humanos no Qatar. As diligências foram estendidas aos principais patrocinadores da prova. Alguns manifestaram apoio a compensações financeiras, outros mantiveram-se em silêncio. É inevitável ler nestes apoios alguma preocupação de marketing. Um anunciante quer estar num Mundial de futebol pela festa e valores como a competição justa, não propriamente para ver a sua marca associada a abusos laborais e falta de equidade.

No debate gerado em França sobre o boicote a transmissões de jogos em espaços públicos há quem critique as posições e considere haver um "rebate de consciência de última hora" por parte das autoridades. Até porque alguns autarcas assumem haver razões menos altruístas para o boicote, já que a prova se realiza no outono/inverno e uma transmissão exigiria condições mínimas de aquecimento, numa altura em que a Europa se vê obrigada a reduzir o consumo energético. Igual crítica poderia fazer-se aos inquiridos pela Amnistia Internacional que tencionam assistir a jogos: 72% defendem indemnizações para os migrantes que sofreram abusos, ainda que isso não os iniba de usufruírem dos jogos ao vivo nos luxuosos estádios.

É sempre difícil encontrar um lado certo para lidar com um evento que carrega uma história pesada atrás de si. Terão boicotes deste género algum poder, numa prova totalmente mediatizada e que chega a todos os cantos do mundo? Ou já que o desporto estará em campo mais vale usá-lo para ampliar o debate? Sejam quais forem as escolhas, será essencial que nenhuma das entidades ligadas ao evento se demita da responsabilidade de assumir o tanto que continua por fazer pelos direitos humanos no Qatar, seja no plano laboral ou nas limitações impostas às mulheres.

Apesar de todos os seus vícios, o futebol tem uma força única e é uma linguagem universal. Essa força pode e deve ser aplicada em causas úteis, sem nunca dissociar desporto de direitos humanos e ética. O rasto dos últimos anos não pode ser apagado. Mas impedir o esquecimento e insistir na mudança continuam a ser imperativos.

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