Quem vai pagar a crise?

O Fundo de Resolução da banca vai dar este ano, mais uma vez, cerca de mil milhões de euros ao Novo Banco?

As empresas portuguesas que mais faturam e mais lucros obtêm, e que fazem parte do PSI 20, o índice de topo da bolsa nacional, podem manter as suas sedes fiscais em países estrangeiros para não pagar impostos em Portugal?

A Brisa e as outras concessionárias das autoestradas portuguesas vão mesmo receber milhões de euros de indemnização pela falta de circulação de automóveis?

Alguém vai construir um aeroporto no Montijo?

Uma empresa que coloque uma parte dos trabalhadores no novo lay-off simplificado pode, livremente, despedir os restantes trabalhadores?

Os trabalhadores sem contrato, os milhões que vivem do recibo verde, vão mesmo ficar desprotegidos e sem medidas concretas e fáceis de requisitar, que os ajudem a sobreviver nos tempos mais próximos?

Os médicos do Serviço Nacional de Saúde, que com os enfermeiros e o pessoal auxiliar dos hospitais, são os nossos heróis nesta guerra ao novo coronavírus, vão poder continuar a trabalhar para o Privado e a angariar clientes do Público?

Vamos continuar a não produzir, dentro do país, bens estrategicamente essenciais na agricultura, na saúde ou na indústria, continuando dependentes de importações que podem ser mais baratas mas que, em tempos de crise, nos deixam, de um dia para o outro, paralisados, à míngua?

Com o preço do petróleo baixíssimo vamos continuar a aceitar que o o consumidor continue a pagar pelos combustíveis valores elevados, que não acompanham essa descida?

Vamos aceitar a exigência de Donald Trump e destinar, como estava previsto, 2% do orçamento do Estado para a Defesa, o que quer dizer dispor de mais dinheiro para servir os interesses internacionais da NATO?

E, a propósito, vamos, atrás de Trump, invadir a Venezuela, como o Presidente dos Estados Unidos da América parece estar a preparar-se para fazer?

Vamos continuar a aumentar a nossa dívida de Estado para níveis brutais, provavelmente chegando acima dos 200 por cento do PIB nacional, por causa da desvalorização da economia portuguesa, a que se somará a aceitação de nova dívida, seja em forma de coronabonds, seja através de qualquer outro tipo de empréstimo com juros dependentes das flutuações dos mercados? E isso não desemboca na falência do país e em mais miséria para todos?

E quando voltarem a aumentar os impostos, vão buscar dinheiro a quem? A quem trabalha ou investe no setor produtivo ou a quem vive da especulação financeira?

A Comissão da União Europeia, quando tomou posição pela primeira vez sobre o coronavírus, já Portugal estava, desde a véspera, sob Estado de Emergência e já a Itália tinha, 13 dias antes, contado 366 mortos e decretada quarentena em 14 províncias. Vamos continuar a entregar o nosso futuro a esta incrível incapacidade de ler a realidade?

A classe política, os banqueiros e os líderes patronais não param de nos avisar: quando voltarmos à atividade, depois da paragem forçada pelo Covid-19, vamos entrar em recessão e, por isso, todos temos de fazer sacrifícios.

"Isto é como se fosse uma guerra", não param de dizer, tentando preparar todos para aceitar pacificamente mais perda de rendimentos, mais desemprego e, para quem o tiver, piores condições de trabalho.

Eu até estou disponível para aceitar a argumentação, de sabor moralista, do sacrifício dos dias de hoje e, também, aquele que aí vem mas, primeiro, antes de me sacrificar tanto, gostava de ouvir as respostas a, vá lá, pelo menos, metade daquelas perguntas para ver se podia ficar descansado com o que vão fazer com tanto sacrifício.

Li este fim de semana a seguinte reflexão sobre o futuro:

"Será necessário pôr em cima da mesa reformas radicais - invertendo a orientação política prevalecente nas últimas quatro décadas. Os Estados terão de ter um papel mais ativo na economia. Devem encarar os serviços públicos como investimentos e não como um peso, e procurar formas de tornar os mercados de trabalho menos inseguros. A redistribuição estará novamente na ordem do dia; os privilégios dos mais velhos e dos mais ricos serão postos em causa. Políticas consideradas excêntricas, como um rendimento garantido e impostos sobre a riqueza, terão de fazer parte do menu".

Esta reivindicação não é feita por um perigoso comunista ou por um tresloucado radical de esquerda. Esta reivindicação está escrita num editorial do Financial Times, o jornal inglês que desde 1888 alimenta a alma do capitalismo ocidental.

Se até o Financial Times quer acabar com os excessos do liberalismo económico, porque é que as respostas às perguntas que fiz, pelo que leio e oiço, escrito e dito pelas elites portuguesas e europeias que nos governam e nos doutrinam, parecem ser exatamente as mesmas do costume?

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