Realisticamente, quantos são os falantes de português no mundo?

Enquanto alguns países contam o número de soldados ou medem palmos de território, Portugal usa a dimensão global da língua portuguesa como andas para disfarçar a sua altura. Mas quantos são, na realidade, os falantes de português? O número tem variado entre os 270 milhões (Presidente do Instituto Camões, 2019) e os 234 milhões e 220 milhões (sites Ethnologue e Babbel, referências na área).

Estas estatísticas referem-se a falantes nativos, ou seja, à língua de primazia adquirida em primeiro lugar, em ambiente familiar.

Quem tem razão? E é importante ter razão?

Para chegarmos a algumas conclusões, vamos por países.

Brasil. A população atual é 210,1 milhões (IBGE). Todos têm português como língua materna? Não. 294 mil índios falam, preferencialmente, pelo menos um dos 274 idiomas indígenas no país como tupi-guarani ou guarani-kaiowá (Censos 2010). Além disso, vivem no Brasil cerca de 750 mil estrangeiros não lusófonos sendo o maior contingente de bolivianos (PF). A estes valores têm que ser adicionados os emigrantes brasileiros. As fontes variam entre 491 mil (IBGE), 1,3 milhões (IOM) e 2,5 milhões (Itamaraty). Fiquemos com uma média simples dos três: 1,4 milhões. Total de falantes nativos de português? 210,4 milhões.

Portugal. Vivem no país 10,3 milhões de pessoas (INE). Mas nem todos são falantes nativos. Há cerca de 292 mil imigrantes legais não lusófonos no país (INE), como romenos, ucranianos, italianos ou chineses. O mirandês é a segunda língua oficial do país, desde 1999, lado a lado com a língua portuguesa, mas não se conhecem portugueses que têm exclusivamente esse idioma transmontano como língua materna. Além disso temos que somar os emigrantes portugueses que atingem os 2,3 milhões. Total de falantes nativos? 12,3 milhões.

Timor Leste. A população timorense é de 1,4 milhões (UNFPA). Mas o número de pessoas que falam português como língua materna é estatisticamente irrelevante, próxima a zero. Em zonas rurais e urbanas e independentemente da classe etária ou social, as línguas usadas quotidianamente são o tetum, bahasa ou inglês. Em reuniões de trabalho com portugueses, muitos membros da administração pública timorense preferem falar inglês. Um dos 200 professores de português a trabalhar no país, disse-me hoje, em anonimato, que nunca teve conhecimento de haver timorenses que usassem o nosso idioma como língua mãe. "E a percentagem dos que o dominam como língua estrangeira é muito baixa, com tendência para piorar."

Na Guiné Equatorial, com uma população de 1,4 milhões (INEGE) a situação é ainda mais contundente. Não há falantes maternos de português. O mais próximo ao idioma é o crioulo fá d'ambô, falado na ilha Ano-Bom.

Restam cinco membros da CPLP. Angola tem uma população de 30,2 milhões de pessoas (INE) e 71,2% fala português em casa (21,5 milhões) (Censos 2014). As outras línguas mais faladas são o umbundu, kikongo, kimbundu. Em Moçambique vivem 28,6 de pessoas (INE) e o português é dominado nativamente por 26,1% da população (7,5 milhões) (Censos 2017).

Em Cabo Verde habitam 551 mil pessoas (INE), tendo a maioria, como língua materna, o crioulo cabo-verdiano, nas suas duas vertentes. O português é apenas a "língua segunda" ou "língua não materna," como assim o designa o Plano da Educação de Cabo Verde (2017-2021), adotado pelo governo. No país também vivem comunidades de senegaleses (na Ilha do Sal) e de nigerianos (ilha da Praia) que falam sobretudo francês e inglês. Ainda que seja difícil de estimar o número de habitantes do arquipélago que tenha o português como língua materna, deverá girar em torno de 5 mil pessoas. Todavia, a diáspora cabo-verdiana para países não lusófonos é significativa, com cerca de 250 mil pessoas nos EUA e 40 mil na Holanda.

Na Guiné-Bissau, para a quase totalidade dos 1,6 milhões de guineenses (INE), o português é assimilado apenas depois de terem aprendido a sua língua étnica e o guineense, correspondendo, nas estatísticas mais animadoras, a 13% da população (Imelson Ntchala Cá, 2019).

Em São Tomé e Príncipe, com 202 mil habitantes (INE), cerca de metade aprendeu português como língua mãe (Maria da Graça Pegado, 2018), ainda que outros quatro idiomas sejam usados no país (santome, angolar lung"Ie e kabuverdianu).

A língua portuguesa é ainda falada residualmente em países como a China (Macau), Índia (Goa), Malásia (Malaca) ou Uruguai (português uruguaio) sendo dominada como língua materna por cerca de 50 mil pessoas. No Japão, a comunidade de dekasseguis, cidadãos japoneses de origem brasileira, é significativa chegando a 200 mil pessoas.

Falta ainda contabilizar a segunda geração de emigrantes, que não vivem em países lusófonos (nesse caso já contabilizados encima). O beirão de 70 anos que vive na Suíça entra nas contas da diáspora portuguesa. Mas e os seus filhos, já cidadãos suíços, que têm português e francês como idiomas nativos? E os descendentes de cabo-verdianos que vivem em Massachusetts ou na Holanda?

É possível estimar a diáspora de ascendência lusófona seja composta por cerca de 6 milhões de pessoas. Assumindo que cerca de 3 milhões sejam primeira geração de portugueses e brasileiros, que a emigração em décadas mais recentes tenha um caráter mais temporário e que apenas cerca de metade dos filhos de pais lusófonos tenha aprendido português em casa, chegamos a cerca de 2 milhões de falantes nativos de português de 2ª geração.

Com tudo isto o valor total aproximado de pessoas que falam português como língua materna é de 254,3 milhões.

Mas será que este número é relevante? A dimensão da língua portuguesa também pode ser alcançada pela quantidade de falantes de português como língua estrangeira, não só como língua materna. Ou como ferramenta apenas oral de transmissão de conhecimento entre gerações não escolarizadas. Além disso, nos

PALOP, o português, apesar de em muitos casos não ser língua materna, tem o importante estatuto de língua franca ou língua segunda. É uma língua órfã que é proprietária de todos, sendo indispensável para a participação na vida política e económica do Estado.

A riqueza da língua portuguesa não está cristalizada apenas no número de falantes espalhados pelo mundo que lê, escreve e fala nativamente a língua originária de Portugal, mas nos intercâmbios constantes da língua portuguesa com outras linhagens culturais. Cada vez que um japonês usa as palavras "pan" (パン) para pão, "koppu" (コップ) para copo ou "kirisuto" (キリスト) para Cristo, celebra-se um desses intercâmbios. Cada vez que um brasileiro discute "samba" enquanto come "moqueca" com "farofa" assinala-se uma permuta com os idiomas kimbundu e kikongo de Angola. Cada vez que um cabo-verdiano usa as mais de mil palavras de origem árabe presentes na língua portuguesa, relembra uma história quase milenar. E as palavras portuguesas que migraram para o idioma inglês? "Zebra" era originalmente um equídeo selvagem alentejano ("zebro"), descrito em forais de D. Dinis.

Muitas outras línguas, igualmente faladas por milhões de pessoas, como o russo ou o bengali, são historicamente menos permeáveis a contactos externos. São idiomas que cresceram dentro de casa. O português sempre foi uma língua de rua, porosa e moldável, que influenciou e foi influenciada. É uma língua de intercâmbios - cada palavra é um arquivo de uma história e um reservatório de diferentes culturas. Se existem cerca de 254,3 milhões de nativos de português, o número de pessoas atingidas por essas permutas alcança milhares de milhões de pessoas. É aqui que reside a fertilidade e o valor da língua portuguesa.

Se a guerra é demasiado importante para ser confiada aos generais (Georges Clemenceau, 1917) e a literatura é demasiado importante para ser confiada aos literatos (Régis Debray, 2019, citado por Nuno Júdice esta semana no FOLIO), também uma língua é demasiado importante para ser confiada apenas aos falantes nativos.

* Fundador e Presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e California-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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