Revogável e irrevogável

A mais grave crise política deste governo não chega a ser tão grave como foi a crise da demissão irrevogável de Paulo Portas no governo da coligação. O epicentro do terramoto político foi nas duas vezes a pasta das Finanças, desta vez por causa de uma decisão de Mário Centeno, em 2013 por causa da escolha de Maria Luís Albuquerque para ministra. São de intensidade bem diferente, mas cada uma delas representa, pelo menos até agora, o momento mais difícil para cada um dos governos. Neste momento, interessa-me olhar para o papel do primeiro-ministro e do Presidente da República, que foi crucial, mas que em cada uma dessas crises revelou comportamentos antagónicos dos titulares destes cargos políticos.

Desta vez ficou bem evidente que António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa contribuíram decisivamente para uma crise que esteve quase a provocar a queda do ministro das Finanças. Há sete anos, Passos Coelho e Cavaco Silva, pelo contrário, contribuíram decisivamente para que Portas recuasse e revogasse uma demissão irrevogável.

O comportamento político de Marcelo, primeiro tomando parte a favor do primeiro-ministro numa história em que o ministro das Finanças tinha do seu lado a razão técnica e jurídica e depois impondo a versão de que não pediu as desculpas que deveria ter pedido, revelou uma infantilidade muito parecida com a que Cavaco viu em Portas na crise do irrevogável.

Em 2013, Cavaco liderou a procura de uma solução para uma crise que podia ter acabado muito mal, em 2020, Marcelo ainda anda aos papéis, tentando perceber o que se passou e, sobretudo, como acabou a tropeçar na sua própria intervenção numa crise em que se comportou como um pirómano, deitando gasolina num fogo que era suposto apagar.

O Presidente, que há menos de dois meses chamou Centeno a Belém para lhe dizer que era crucial que ele se mantivesse no governo, acaba por aceitar a contragosto que o ministro das Finanças se mantenha. Essa é a vitória de Mário Centeno, fica no Terreiro do Paço, mesmo que a prazo, para não agravar uma crise política no país e no Eurogrupo, salvando António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa de serem responsabilizados, cá dentro e lá fora, por terem provocado a saída de um ministro que fez o que tinha de ser feito, contrariando um primeiro-ministro que disse o que não devia ter dito.

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