Sobre a Covid-19 e o fim da privacidade

Dizem os constitucionalistas que as magnas cartas de cada país são um orifício através do qual é possível espiar a cultura de uma nação. Falemos então de privacidade. A Constituição brasileira afirma que "a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas" são invioláveis. A de Singapura negligencia o tema. A de Portugal sublinha a importância da "privacidade familiar." Na maioria dos países ocidentais, a privacidade foi elevada a um direito fundamental, consignado na Declaração Universal dos Direitos Humanos. O eu, murou-se contra todo o tipo de ameaças externas ao individualismo.

Mas nem sempre foi o caso. Caçadores-coletores, galaicos, lusitanos, célticos, romanos, suevos, vândalos, visigodos, árabes magrebinos e portugueses - todos aqueles que viveram no nosso território ao longo dos últimos 12 mil anos - eram comunitários. As villae, insulae e domus dos romanos não tinham preocupações em preservar a intimidade dos ocupantes. A vida íntima era dividida com outros membros da família ou da comunidade. As camas eram partilhadas entre avós, pais e filhos. Os atrium das casas romanas ou o qa'a das casas árabes são espaços de abertura e de convívio.

A privacidade foi inventada pelas religiões, como diz David Vincent, o autor de um livro dedicado ao tema. Era originalmente equivalente à reclusão e ao silêncio necessários para permitir o contacto individual com o Divino. Foi mais tarde incentivada pela tecnologia. A invenção da imprensa de Gutenberg, por exemplo, permitiu que a leitura pudesse ser privada e individualizada. Mas foi com o Iluminismo que a privacidade ganhou um outro estatuto no novo relicário da liberdade individual, dos Direitos Humanos, da fé na razão científica e no secularismo. Até o século XVIII o termo "individualismo" tinha uma conotação pejorativa, mas com o Liberalismo e o Romantismo o "eu" tornou-se alvo de idolatria.

A urbanização das sociedades e a internet foram a última estocada. A casa dos meus avós, numa aldeia do interior, era uma continuação da missa de domingo, sem padre e com vinho menos cristão. A minha casa é uma missa de domingo em tempos de Covid-19. Está fechada. Nem sei quem são os meus vizinhos.

Mas a crise da Covid-19, que eu descrevi no artigo passado como uma transformação que nos conduzirá à domesticação e localização de todas as nossas atividades, levará à reconfiguração da privacidade. Haverá menos condições propícias ao segredo, ao anonimato e à solidão.

Começa por ser uma impossibilidade logística. As famílias viverão de forma mais intensa em torno delas próprias. Haverá menos cantos desocupados dentro de cada habitação para explorarmos a nossa individualidade. Depois será coberta com terra a trincheira entre o horário de trabalho e o horário de família. Haverá uma profissionalização da nossa vida pessoal ou uma personalização do trabalho. Cada sala de jantar é um escritório em potência. Acabará a dualidade, deixaremos de sofrer de uma perturbação de personalidade múltipla. Passaremos a ser a mesma pessoa 24 horas por dia. A sacralização do chefe - substanciada no seu caráter robótico, distante e hierárquico - deverá ser substituída pela horizontalidade das relações laborais e pela humanização dos líderes. A forma como educamos os nossos filhos e amamos as nossas esposas será observada pelos nossos colegas e impactará a forma como somos vistos profissionalmente.

Esta nova realidade caseira e comunitária gera conforto. O excesso de individualização, levou, ao longo dos anos, a uma sobrecarga da identidade pessoal. A nossa autoestima, confiança e felicidade passaram a estar dependentes da nossa singularidade. E a preservação constante deste individualismo, seja do ponto de vista emocional ou decorativo, dá trabalho. Ninguém veste fato e gravata para ficar em casa. Andar de ténis é mais confortável do que caminhar com saltos altos. Sair de casa todos os dias para ir trabalhar é um exercício de despersonalização e de sobre-individualização. Vestimo-nos e comunicamos de forma diferente para poder preservar uma imagem pública, muitas vezes criada a partir da absorção de uma série de códigos externos. Cansa.

A privacidade também não poderá existir num contexto onde a nossa vida pública e pessoal será hipervigiada. Na China, o sistema de crédito social monitora e avalia as decisões sociais de cada cidadão para poder atribuir punições ou recompensas pelo comportamento. Uma baixa pontuação leva, por exemplo, a um acesso limitado a crédito bancário, enquanto o oposto dá prioridade em vagas de emprego e escolares. Para compor esta gigantesca base de dados o governo chinês apoia-se em informações públicas e privadas, além de um sistema de reconhecimento facial alimentado por inteligência artificial. É a este sistema agressivo de vigilância que a China atribui o seu sucesso na mitigação da Covid-19.

Com o tempo, seja em nome da segurança coletiva (países asiáticos) ou da segurança individual (países ocidentais) cada vez mais o cidadão abdicará da sua liberdade individual. Esta é uma propensão recorrente ao longo da história. Nos EUA, através do Sedition Act de 1798, o presidente John Adams matou a Primeira Emenda à Constituição (que consagra várias liberdade individuais) em nome de uma quase guerra com a França. A cada surto de um novo vírus cederemos cada mais espaço à hipervigilância.

* Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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