Um artigo de opinião sobre os outros artigos de opinião

Os jornais foram criados há 400 anos, mas apenas na década de 1920 abriram espaço para os artigos de opinião. Os primeiros opinantes ou articulistas foram os jornalistas do próprio jornal que, desgarrados da necessidade editorial de escrever com isenção, puderam abrir as comportas da sua subjetividade e derramá-la numa página específica do jornal. Com o tempo, surgiram os primeiros conflitos de interesse. Qual a diferença entre a página de opinião e a página de editorial do jornal, também opinativa e também escrita por jornalistas ou em nome da direção do jornal?

Chegamos, assim, à versão moderna das colunas de opinião, espaços habitados por pessoas externas às redações. Foi o New York Times, nos anos 70, que inaugurou esta nova fase. Escreveu assim o jornal em 21 de Setembro desse ano para explicar a decisão:

"Por meio da nova página oposta à Página Editorial (Op-Ed) que inauguramos hoje, esperamos que seja dada uma contribuição para estimular novos pensamentos e provocar novas discussões sobre problemas públicos." Assim, os especialistas escreveriam "sobre a maior variedade possível de assuntos e expressando a maior variedade possível de opiniões", partindo da "crença de que as diversas vozes de nossa sociedade devem ter a maior oportunidade possível de serem ouvidas."

A escritora anglo-chinesa Han Suyin e o teórico político Walt Whitman Rostow foram alguns dos que escreveram artigos de opinião nesse dia, com ângulos diferenciados, sobre a Guerra Fria e a Ásia.

Em Portugal, os espaços de opinião na imprensa afastaram-se da sua missão mais social. É verdade que temos, comparativamente a outros países do mesmo porte, um número muito elevado de espaços de opinião nas TVs, jornais, portais e rádio. Para quem acaba de chegar ao país, fica surpreendido com esta torrente opinativa, como se houvesse uma compulsão pelo debate público e pela agitação de opiniões.

Mas muitos dos comentadores não são comentadores. Ou pelo menos não são independentes.

A quase maioria está conectada a partidos políticos. Eu não sou conceitualmente contra a presença de políticos na imprensa, mas acho que tem que haver regras de salubridade e de equanimidade. Um líder partidário não pode dar entrevistas para as televisões durante o congresso do seu partido e, à noite, sentar-se numa bancada da mesma televisão onde comenta, agora como analista político, sobre o congresso daquele partido. Aconteceu este mês. A população deixa de ter acesso ao contraditório, à insubordinação, à isenção.

É como se os partidos galgassem os espaços que a democracia constitucionalmente lhes concede para tomar os recintos que a sociedade civil deveria preencher. As trincheiras do Parlamento não podem prolongar-se para os media. A sobre-partidarização da comunicação social portuguesa é imputável a ela própria. Os políticos são convidados para dar opinião porque têm boa capacidade de articulação, porque já são figuras públicas ou porque aceitam não ser remunerados ou ser mal remunerados. É um atalho sem lombadas para chegar às audiências.

E políticos não conseguem ser independentes. Mesmo que seja alguém reformado ou renegado pelos seus pares, a sua opinião nunca é esterilizada da luta partidária. Os comentários, muitas vezes, estão esvaziados de ousadia e carregados de pequenos recados para as bancadas do hemiciclo ou para as bases do seu partido. A imprensa tornou-se a continuação da política partidária por outros meios. Em Portugal, é pelos media que os políticos ascendem ao poder. Será que Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa, José Sócrates ou António Costa ter-se-iam engrandecido como quadros partidários se não lhes tivessem sido cedidas centenas de horas de prime time?

Depois temos os comentadores profissionais. Os espaços de opinião deixaram de ser uma consequência do mérito profissional e do domínio de uma especialidade para passarem a ser uma profissão. São como celebridades que são celebridades só porque são celebridades. Ou comentadores que são convidados para comentadores porque são comentadores. Ao fazerem disso ofício, significa que os encontraremos cumulativamente em todos os lados, mesmo em órgãos de comunicação rivais, a comentar sobre quase tudo.

É o que resulta da sobrevalorização do comentador relativamente ao comentário. Valorizamos mais uma opinião frívola de um comentador celebridade, do que uma opinião potente de um comentador desconhecido. E esta deturpação inspira todo o tipo de desvios. Aceitamos que determinados espaços de opinião sejam tratados quase como propriedade privada dos comentadores, cedidos em testamento jornalístico aos seus herdeiros. Há muitos comentadores muito velhos, sendo velhos, e muitos comentadores muito velhos, sendo novos. Eu consigo contar pelo menos uma dezena de colunistas que são filhos, sobrinhos ou netos de antigos colunistas.

Este é um contexto imunizado contra a mudança. Os nossos opinion-makers deixaram de refletir a diversidade de género, identitária, e etária da sociedade portuguesa. Não têm estetoscópios que auscultem o batimento dos novos movimentos culturais nas periferias das nossas sociedades, as carências das populações rurais ou as frustrações dos estrangeiros qualificados que ainda não conseguiram sair do aeroporto, apesar de viverem aqui há vários anos. O que sabe um comentador branco sobre o que verdadeiramente significa ser negro em Portugal?

Este mês foi lançada uma iniciativa que merece a nossa atenção. Um grupo de 100 portugueses, com menos de 35 anos e com uma carreira de sucessos, colocou-se à disposição para assumir maior protagonismo na comunicação social em Portugal e serem consultados como especialistas e não como jovens. Eu sou um dos "Embaixadores" desta iniciativa , que me deu a conhecer um punhado muito diverso de jovens que mistura irreverência com experiência.

Infelizmente, se contarmos apenas com as forças da Natureza, a renovação das elites nacionais será excessivamente lenta, levará à desesperança ou continuará a reproduzir os pecados de origem. Somos um país muito velho. A comunicação social não se pode abster de desempenhar um papel central na oxigenação da sociedade e do poder.

* Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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