Um silêncio ensurdecedor

Mais de uma semana depois da decisão do Juiz Ivo Rosa no âmbito daquele que é talvez o processo judicial mais importante da nossa democracia, e que expõe os problemas dessa democracia, há um silêncio que se estranha, mas que, infelizmente, nalguns se entranha. O primeiro-ministro não tem nada a dizer. Invoca que se deve deixar à justiça o que é da justiça. Eu não quero que António Costa decida se José Sócrates é ou não culpado. É verdade que a única coisa em que o Ministério Público e o Juiz Ivo Rosa parecem concordar é que José Sócrates é corrupto e vendeu (mercadejou na expressão do Juiz Ivo Rosa) o seu poder e influência enquanto primeiro-ministro. Divergem "apenas" (e este apenas é de enorme importância) sobre quem o corrompeu ou, por outras palavras, sobre a quem vendeu o seu poder e influência. Mas a avaliação judicial da conduta que os factos revelam está longe de estar concluída. Há, no entanto, um juízo ético que já podia e devia ter sido feito com base nos factos conhecidos. Era obrigação do primeiro-ministro tê-lo feito.

Isso exige muito mais ética na política, uma muito mais clara separação entre o partido do governo e o Estado, e o reforço da independência e eficácia da justiça e da comunicação social. É sobre as práticas que então impediram a estes contrapoderes o escrutínio efetivo de um primeiro-ministro que eu gostaria de ouvir o atual Primeiro-ministro e o Partido Socialista. Até agora a reação socialista é tardia na ética, silenciosa sobre a política e contraditória sobre a justiça. Só agora, quando Sócrates já não é um animal feroz, se ouvem os primeiros juízos éticos sobre comportamentos que já eram conhecidos. Não há um reconhecimento de que essa avaliação ética falhou e de que é fundamental introduzi-la na política. Quanto à reforma da cultura política ou da relação desta com a justiça os sinais são ainda piores. Muitos socialistas que insistem, e bem, na necessidade de esperar pela decisão final da justiça sobre a culpabilidade criminal de Sócrates, não têm dúvidas em falar de um processo politicamente conduzido e em lançar suspeitas criminais sobre o comportamento do Ministério Público. Parece que "há justiça o que é da justiça" apenas se aplica quando tal for conveniente à política.

Perante tudo isto, os elogios que ouço à inteligência política do silêncio do primeiro-ministro são uma ofensa à nossa inteligência democrática. Aceitar esse silêncio é aceitar a cultura política em que prosperou José Sócrates.

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