Uma desgraça americana

"Sabe, em abril o vírus morre por causa do calor", Donald Trump, 10 fevereiro, à Fox Business

"O coronavírus está completamente sob controlo nos Estados Unidos", Donald Trump, tweet a 24 fevereiro

"O coronavírus é uma gripe. É como se fosse uma gripe. Isto é igual à gripe.", Donald Trump, conferência de Imprensa a 24 fevereiro

O novo coronavírus "COVID-19" é uma pandemia com origem numa cidade (Wuhan) da província chinesa de Hubei.

Não é só o maior desafio da Saúde Pública dos nossos tempos. É também o momento de maior dificuldade na gestão do bem comum e no processo de decisão política em todo o mundo.

Este não é, por isso, um "problema americano". E, como é óbvio, a responsabilidade da gigantesca ameaça com a qual todos estamos confrontados não é do atual Presidente dos EUA.

É compreensível que os líderes políticos tendam a desvalorizar ou mesmo ignorar os "worst case scenario" que os técnicos lhes apresentam.

Na verdade, se fossem sempre seguir à risca os avisos mais sérios, a governabilidade tornava-se caótica.

Mas a evolução trágica que a situação tem conhecido nos últimos dias (perto de 5000 casos confirmados nos EUA, mas muitos mais suspeitos tendo em conta o baixo número de testes efetuados até agora; todos os estados já afetados, com especial incidência em Nova Iorque e Califórnia; previsão de que milhões de americanos venham a ser infetados nos próximos meses) tem como agravante que na Casa Branca esteja alguém que desinvestiu na capacidade de prevenção e resposta a ameaças como esta e que negou até à última as evidências que recebia.

De acordo com o "fact check" da CNN, Donald Trump mentiu até ontem (16 de março) 28 vezes sobre a gestão da COVID-19. Mas, como é hábito, a sua auto-avaliação é fantástica: "Acho que mereço um 10 numa escala até 10".

A Casa Branca recebeu os primeiros avisos muito antes dos primeiros casos conhecidos em Wuhan, em janeiro passado.

A 13 de janeiro de 2017, sete dias antes de tomar posse como Presidente dos EUA, Donald Trump recebeu um "briefing" que alertava para a possibilidade de ocorrer "a pior pandemia desde 1918", capaz de "paralisar cidades como Londres ou Seul e obrigar à imposição de "travel bans".

De acordo com o politico.com, que libertou um memo dos pontos fortes apontados nesse "briefing" (quem quiser pode consultar AQUI ) "os responsáveis na área da Saúde foram avisados que isto poderia afetar fortemente estados como a Califórnia ou o Texas".

O que fez Trump nos meses seguintes?

Permitiu que o seu então Conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, extinguisse a equipa especial de prevenção de pandemias, criada por Barack Obama.

E agora? Agora os EUA têm 100 mil ventiladores para assistirem milhões (sim, milhões) de norte-americanos que poderão chegar a estado crítico por infeção de COVID-19 nos próximos meses.

Trump insiste agora em dizer, depois de semanas a negar, que "nunca se poderia imaginar que pudéssemos chegar a esta situação, ninguém imagina um cenário como este do coronavírus".

Mas Susan Rice, embaixadora dos EUA nas Nações Unidas e Conselheira de Segurança Nacional nos dois mandatos presidenciais de Barack Obama, foi muito clara, em artigo de opinião publicado na sexta-feira passada no New York Times: "Em vez de evitar os avisos, preparar um plano e preservar estruturas e orçamentos para a saúde e para prevenção de ameaças como esta, o Presidente ignorou o risco de que uma pandemia como o coronavírus podia estar a chegar".

Rice especificou o "briefing" acima citado de 2017 e criticou duramente a extinção que Trump permitiu da secção de prevenção de pandemias, acoplado ao Conselho de Segurança Nacional, que Barack Obama tinha criado.

É esta a desgraça americana: ter escolhido alguém que não é bem um Presidente neste momento tão grave da História.

Saúde para todos volta a ganhar força

A oito meses e meio das eleições presidenciais nos EUA, mudou tudo.

A principal narrativa de Donald Trump para a reeleição ("gerei a melhor economia de sempre") já não era verdadeira antes desta megacrise. Mas com o novo coronavírus foi, literalmente, ao ar.

Ninguém de bom senso poderá, neste momento, antecipar como estaremos em novembro - mas uma paragem global de vários setores fundamentais em inúmeros países só pode levar a um choque brutal de consequências imprevisíveis.

Vêm aí enormes intervenções federais - muito provavelmente de dimensão superior e mais complexa concretização das que foram feitas pós crise 2008/2009.

Como é que Donald Trump vai lidar com isto?

Será que os próximos tempos vão ajudar ideias mais ligadas aos democratas, de que é importante manter fortes programas federais e não andar, propriamente, a fechar agências governamentais e desorçamentar instituições governamentais.

A Saúde é uma espécie de "mantra" na discussão política nos EUA.

O argumento de que ela não deve ser "universal", mas "opcional", e que o estado federal não tem a obrigação de a garantir a todos os cidadãos tem dominado as sucessivas batalhas.

Até Barack Obama, que fez do acesso à Saúde importante bandeira na campanha de 2008, acabou por desenvolver um plano, a que deu o seu nome, que não cobre de forma universal pela via governamental - permite que os americanos tenham seguro de saúde pela via laboral ou, caso não a tenham, por seguros privados com apoios federais.

Em vez de impor "cobertura universal", a chave para a aprovação do ObamaCare, já lá vai uma década, passou pela "opção individual" - ainda que, no mapa de cidadão americanos protegidos por algum tipo de seguro de saúde, tenha constituído o maior avanço desde a Grande Sociedade de Johnson, nos anos 60, no que toca a apoios públicos aos cidadãos americanos na área da Saúde.

Nesta campanha das primárias democratas 2020, a distinção é clara: Joe Biden defende um alargamento do ObamaCare nos moldes acima referidos, Bernie Sanders exige saúde para todos financiada por um imposto sobre as grandes fortunas.

O que parece claro é que os EUA irão sair desta brutal ameaça ao seu modo de se organizarem em sociedade como uma noção muito mais nítida de que precisam mesmo de um sistema de saúde mais robusto a nível federal - independentemente de alguns estados já o terem no plano local.

Falta de dimensão para encarar uma crise destas

Para lá de tudo isto, sobra a chocante falta de dimensão que o atual inquilino da Casa Branca revela.

Para encontrar um "bode expiatório" dentro da sua narrativa ultranacionalista e de demonização do que é "não americano", chama agora à COVID-19 o "vírus estrangeiro" - como se os vírus tivessem passaporte ou necessitassem de vistos de entrada.

A confirmação do governo alemão de que a Trump tentou mesmo um "exclusivo americano" para uma vacina que está a ser tentada na Alemanha (entretanto uma outra equipa de investigadores no Kaiser Permanente Washington Research Institute de Seattle testaram ontem numa voluntária a primeira vacina em humanos, mas com período de testes previsto para durante mais de um ano) dá conta o tipo de egoísmo e da falta de visão do atual Presidente dos EUA, num momento em que precisávamos de um líder com visão global no país mais poderoso e influente do mundo.

Como bem lembrou ontem o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, "o vírus não tem nacionalidade, a sua vacina também não a terá".

Donald Trump é uma desgraça.

* Autor de "Isto Não é Bem um Presidente dos EUA - Diário dos Anos da Perturbação Americana"

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