Uma falha de comunicação de 850 milhões

Quando o mais recente episódio da interminável (e cara) novela do Novo Banco já dava pano para mangas, Mário Centeno veio acrescentar motivos adicionais de incredulidade, confirmando a confusão política e a total contradição com o discurso do primeiro-ministro. Não se pode invocar uma simples "falha de comunicação" sobre a transferência de 850 milhões de euros. O ponto é outro: como é possível que por duas vezes António Costa se tenha escudado, perante o Parlamento, na auditoria ainda em curso, assegurando que não haveria transferência de verbas do Estado antes de ser finalizada, sem que o ministro das Finanças o tenha alertado de que, afinal, tal não seria possível?

Não estamos a falar de um pormenor ou de um problema inesperado sobre o qual Centeno não teve oportunidade de conversar com o líder do Executivo. Trata-se de um dos dossiês mais sensíveis do Governo, sujeito a permanente escrutínio por parte dos partidos à Esquerda. Ao defender-se com o argumento de que o Estado não poderia deixar de cumprir o que estava contratualizado, Mário Centeno volta, uma segunda vez, a fragilizar António Costa, acabando por evidenciar que este assumiu perante os deputados um compromisso que não poderia ter assumido.

Adicionalmente, fica por esclarecer o papel da auditoria e o efeito que poderá ter na relação com o banco. O Estado pode afinal tomar outras decisões que não as de se limitar a assinar o cheque? A 1 de março de 2019, foi o próprio Ministério das Finanças a anunciar a importância deste escrutínio, passando a mensagem de que as várias auditorias que já eram feitas para validar os pedidos do Novo Banco ao Fundo de Resolução não eram suficientes. Um ano e pouco depois, continuamos sem perceber as consequências que daí poderão vir a ser retiradas.

Todos assistimos, ao longo dos quatro anos de governação da geringonça, à consolidação do papel do ministro das Finanças como estrela maior do Executivo. O segundo Governo iniciou-se com a promessa de um excedente inédito, e ainda que a dúvida quanto ao futuro de Centeno já pairasse, continuava a ser seu o mérito de um cenário que se perspetivava tranquilo. A pandemia trouxe uma inesperada viragem e uma profunda incerteza em relação à capacidade de recuperação do país.

É certo que muitas das respostas dependem da Europa, de onde se espera uma solução de força. Mas é precisamente em contextos de crise que mais se exigem propostas inovadoras. Faz-nos falta um Ronaldo das Finanças que num momento inspirado marque um golo decisivo, mas pelo contrário vemos um ministro cada vez mais desalinhado com António Costa, sem uma presença marcante quando o país mais precisa dele e sobretudo sem mostrar vontade de continuar ao leme. Questionado sobre a possível continuidade no Eurogrupo e sobre o futuro do Banco de Portugal, insiste no duplo silêncio.

Numa fase em que a confiança é uma das palavras mais repetidas pelo primeiro-ministro, e em que o efeito psicológico é efetivamente essencial na retoma da atividade económica, a dissonância entre Costa e Centeno dá poucos motivos para tranquilidade. Mas uma eventual mudança no titular das Finanças não será necessariamente uma má notícia. Sobretudo porque governar em contexto de crescimento ou em ambiente de crise não é a mesma coisa.

Precisaremos de mais Segurança Social e Economia, valorizando medidas sociais e de incentivo à atividade das empresas, em detrimento das contas certas. A música, agora, tem de ser outra

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