70 anos de Marcelo e 7 factos que não conhece da vida do Presidente

Marcelo "ao vivo e a cores", como gosta de se fazer anunciar, viveu sempre debaixo dos holofotes. Setenta anos de vida não podiam deixar de ter incontáveis histórias, do pequeno amor à grande traição.

Todos o conhecem - a sua popularidade não admite discussão - e quase todos sabem muito sobre o Presidente. Que é hipocondríaco assumido, afetuoso, teimoso, frenético, um constitucionalista por excelência, divertido.

Um círculo mais restrito fala de uma inteligência arguta e de um enorme poder de manipulação. Quase todos concordam que é brilhante.

Marcelo Rebelo de Sousa tem características únicas, que o tornam um desafio para qualquer biógrafo, e uma vida tão cheia que, tentar escrevê-la, resultará sempre num tratado.

Sobre um Presidente que não tem medo da exposição, que é filmado a comer, dá entrevistas enquanto vai a banhos e faz diretos para as televisões em quase todas as circunstâncias, é preciso mergulhar no passado para encontrar algumas histórias menos conhecidas.

Mas que não deixam de valer a pena.

Marcelo em tempo de Marcello

Apesar do nome que partilham, e do que muitos ainda acreditam, Marcello Caetano não foi o padrinho de batismo de Marcelo Rebelo de Sousa. O equívoco era frequente e, segundo contou o Padre João Seabra na biografia de Marcelo Rebelo de Sousa*, de Vítor Matos, o próprio não fazia grande esforço para desmentir o boato. Pelo menos não enquanto crescia, no ambiente do Antigo Regime.

Marcello Caetano foi padrinho, sim, mas do casamento dos seus pais. Foi inclusivamente o casal Marcello e Teresa Caetano que ofereceu o almoço da boda. O homem que viria a ser o último Presidente do Conselho do Estado Novo, tinha sido professor de Maria das Neves, mãe de Marcelo, no Instituto de Serviço Social em Lisboa, e tornar-se-ía um dos grandes amigos da família Rebelo de Sousa. A sua influência levaria Baltazar Rebelo de Sousa a seguir a vida política, embora lhe tivesse desaconselhado a opção.

O padrinho de batismo de Marcelo foi Camilo de Mendonça, que viria a ser ministro da Economia de Salazar e, mais tarde, o primeiro presidente da RTP.

Em casa, Marcelo - que tem dois irmãos, António e Pedro - era chamado de Celinho, petit nom que Eduardo Barroso, seu amigo de sempre, ainda usa quando se lhe refere.

O fascínio pela televisão

Marcelo Rebelo de Sousa tinha oito anos quando o primeiro aparelho de televisão é instalado em casa dos pais. Privilégio de poucos, uma televisão custava entre 5.900 e 7.800 escudos - o equivalente a um salário anual de um trabalhador da classe média.

Seria também nesse ano de 1956 que a RTP iniciaria as primeiras emissões experimentais e a escolha do primeiro presidente da estação pública recairia sobre Camilo de Mendonça - nada mais, nada menos que o padrinho de Marcelo.

Mais de 40 anos depois dessa data, seria a vez de Marcelo Rebelo de Sousa chegar à televisão. Depois de se estrear no comentário político aos microfones da TSF, com o programa Exame - celebrizado pela atribuição de notas aos protagonistas em análise -, o professor conquista a caixa mágica: primeiro na TVI, depois na RTP, e novamente na TVI.

A relação com a televisão prolongou-se quase até à véspera da campanha para as eleições que lhe abriram as portas do palácio de Belém. Marcelo manteve-se anos a fio no Jornal da Noite de domingo, líder incontestado de audiências e de popularidade.

Marcelo repetiu um ano na 4ª classe

Apesar da extraordinária capacidade intelectual e reconhecida inteligência que o viria a colocar sempre no topo do percurso académico, Marcelo perdeu um ano e repetiu a quarta classe.

Foi uma retenção administrativa, é certo, e aconteceu exatamente quando o seu pai era secretário de Estado da Educação - ou, talvez, por isso mesmo. À época, a lei previa que apenas quem completasse 10 anos até outubro poderia realizar o exame de admissão ao liceu. Nascido em dezembro, Marcelo ficava automaticamente excluído do lote de candidatos à prova. O pai só mudaria a lei no ano seguinte, quando a decisão já não teria efeito no percurso escolar de Marcelo.

No ano seguinte, depois de repetir a quarta classe e em vésperas do exame que lhe iria abrir a porta do liceu, Marcelo - que é canhoto -, parte o pulso esquerdo a jogar futebol. Obriga-se a treinar a escrita com a direita, e faz crescer o mito, recontado inúmeras vezes, de que é capaz de escrever dois textos diferentes, em simultâneo, com as duas mãos.

O Presidente que quase dispensa o sono

A fama de dormir pouco que cultiva desde sempre pode muito bem ter nascido na sua fase do semanário Expresso, já que era a si que cabiam as longas negociações madrugada fora com a censura. Mesmo depois dessas maratonas, apresentava-se de manhã, na faculdade de Direito, para dar aulas.

Com apenas 23 anos, Marcelo acompanha o nascimento do semanário Expresso depois de Francisco Pinto Balsemão lançar as sementes de um projeto editorial irreverente e ousado. O jovem jurista torna-se administrador delegado e começa a assinar páginas de opinião (Marcelo varia a assinatura entre pseudónimos na assinatura ou "MRS", admitindo que o seu nome era demasiado conotado com o regime).

A braços com a censura, diverte-se com truques e estratégias para tentar fazer passar o máximo de textos possíveis.

O Expresso sairia para as bancas pela primeira vez em janeiro de 1973, e pouco tempo depois, Mário Bento Soares torna-se presidente do Exame Prévio, nome pouco original que se dava à máquina censória. Na biografia escrita por Vítor Matos, pode ler-se que Marcelo não perde uma oportunidade para o tentar exasperar, tratando-o sempre que possível por Dr. Mário Soares.

O sucesso do projeto editorial do Expresso condena a amizade que lhe tem Marcello Caetano, que nunca lhe perdoará o caminho escolhido.

Presidente sem primeira-dama. Nada que perturbe Marcelo

O Presidente da República casou em julho de 1972 com Ana Cristina Motta Veiga, filha de António Jorge Motta Veiga, ex-ministro da Presidência de Salazar. Na época, a boda foi tida como um cruzamento de duas dinastias do Estado Novo - a marcelista e a salazarista, mas não duraria muito. O casal teve dois filhos, Nuno e Sofia.

Nesse mesmo ano de 1972, Marcelo conhecia a mulher ao lado de quem está há mais de três décadas. Rita Amaral Cabral, aluna da faculdade de Direito quando Marcelo já era assistente, mereceu 11 valores na cadeira de Direito Internacional Público. A aluna reclamou da nota, mas Marcelo levou a sua avante. A academia providenciaria novo encontro, na cadeira de Economia, onde Marcelo conduzia provas orais com indicações precisas do catedrático da disciplina para não atribuir qualquer nota superior a 15. O jovem assistente acabou por dar 17 valores a Rita Amaral Cabral, e admite que isso lhe valeu uma reprimenda.

Reencontram-se mais tarde, em 1981, na faculdade de Direito e iniciam a relação que dura até hoje.

A vida discreta em comum, e o lado extremamente reservado de Rita Cabral Amaral - que em 1988 escreveu o livro "O direito à intimidade da vida privada" - leva Marcelo a exercer uma presidência sem primeira-dama. Mas longe da atenção pública, na sua vida de bastidores, Marcelo nunca está sozinho.

Marcelo no governo

Na política, Marcelo foi quase tudo, exceto primeiro-ministro. Deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República, líder do PSD, poucos recordarão que também fez parte de um governo: o da Aliança Democrática, entre 1981 e 1983.

Mal o governo de Pinto Balsemão toma posse, Marcelo torna-se uma dor de cabeça à frente de um jornal que era... de Pinto Balsemão. Vai criando anticorpos no aparelho do partido, torna-se uma voz incómoda e faz mais mossa do que a própria oposição. Em vésperas de um importante Conselho Nacional do PSD, publica uma carta aberta onde conclui que Pinto Balsemão "é a prova de que um bom jornalista não é forçosamente um bom político".

Uma semana depois, o primeiro-ministro convida-o para secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros. Poucos saberão que é dele uma inovação que dura até aos dias de hoje: a criação dos Conselhos de Secretários de Estado, onde se antecipam os trabalhos em torno dos diplomas que sobem aos Conselhos de Ministros, com enormes ganhos de eficiência.

Na remodelação do governo de junho de 1982, Marcelo pede para sair a pretexto de fazer o doutoramento. Mas, como em quase tudo na vida de Rebelo de Sousa, a história dá uma reviravolta e, quando vai a São Bento formalizar a saída, entra demissionário e sai ministro. Dos Assuntos Parlamentares.

A sopa fria que ninguém comeu

É um dos mais célebres episódios de intriga político-jornalística que é conhecida. Foi revelada ao país por Paulo Portas, num programa do Herman José (o Parabéns, emitido pela RTP a 4 de dezembro de 1994) e celebrizou-se como "o caso da vichyssoise".

Em 1991, Portas era diretor do semanário O Independente, Mário Soares o Presidente da República, Cavaco Silva primeiro-ministro. Soares tinha convocado uma reunião com constitucionalistas - entre eles, Marcelo Rebelo de Sousa - para saber se o Governo de Cavaco chegava às eleições em plenitude de funções - já que se estreava nesse ano a novidade de, pela primeira vez desde o 25 de Abril, um executivo terminar um mandato sem estar demissionário ou em gestão.

Sobre o episódio em si, as versões variam dependendo de quem narra a história, mas, no essencial, Portas queria saber o que se tinha discutido nessa reunião em Belém. Na versão do então jornalista, Marcelo colaborou com a sua curiosidade, relatando quem dissera o quê, em que momento, e como, chegando até ao pormenor da ementa: uma vichyssoise (sopa fria).

Só que, ainda segundo a versão Portas, horas depois, o jornalista deu de caras com um dos constitucionalistas presentes na reunião e pergunta-lhe pela sopa fria. E descobriu que o que ouvira de Marcelo era mentira. Menu incluído.

Do episódio, que levou a uma zanga de anos entre ambos, Portas concluíu sobre Marcelo no programa televisivo: "Deus deu-lhe a inteligência e o Diabo deu-lhe a maldade."

A versão de Marcelo lembra a história numa outra perspetiva. "Nunca revelei o conteúdo político do jantar. Ele pediu: "Ao menos a ementa." Então, confesso que bastante enfastiado, terei falado a vichyssoise", revelou a Vítor Matos.

O Independente de Paulo Portas viria a fazer manchete da reunião, com a lista completa do menu de assuntos, mas sem qualquer referência à sopa fria.

* O jornalista Vítor Matos reuniu mais de 70 horas de entrevistas só com Marcelo, e outras tantas com 80 entrevistados - amigos e testemunhas dos acontecimentos narrados. A biografia "Marcelo Rebelo de Sousa", que serviu de base a este trabalho, foi lançada em 2012, não cobre a sua fase de candidato à presidência nem a sua vivência em Belém, mas não tem rival no mercado. Para quem quer mergulhar no mundo de Marcelo, recomenda-se uma leitura integral - mas terá de sobreviver às 650 páginas - excluindo notas e bibliografia.

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