
O candidato às eleições presidenciais, André Pestana
Créditos: Estela Silva/Lusa
André Pestana é o segundo nome do boletim de voto para as presidenciais do próximo domingo e um dos candidatos mais jovem nesta corrida a Belém. Em entrevista à TSF, diz que não é político profissional, mas também que não vai ficar calado perante o rumo que o país e o mundo está a tomar. O candidato a Belém queixa-se do pouco tempo mediático que tem tido nesta campanha e lamenta que o tema das alterações climáticas tenha ficado de fora do debate político. Se fosse eleito Presidente da República, afirma que faria uma "magistratura de influência pela positiva" e que estaria sempre "ao lado de quem defende o planeta e os direitos laborais".
André Pestana, está a vir de comboio de Coimbra, desloca-se sempre de comboio para as ações de campanha?
Quase sempre, ou seja, só quando não é mesmo possível. Mesmo também no meu dia-a-dia. Não sei se sabe, mas estou a dar aulas na escola pública e, apesar de ter os meus filhos e a minha família em Coimbra, fui colocado numa escola da Grande Lisboa. Faço todas as semanas Coimbra-Lisboa e Lisboa-Coimbra, mas isso acontece também a muitos trabalhadores e trabalhadoras de Portugal e também é mais ecologicamente sustentável.
E o que é que o levou a avançar como uma candidatura a Belém? Já é reconhecido do público professores, tem um percurso na luta sindical, quer ser reconhecido junto de outros públicos, quer ganhar projeção para outros voos?
Não é isso. Eu tornei público, de uma forma muito clara, acho que até foi a 21 de dezembro de 2024, porque eu fui positivamente desafiado por cerca de 50 dirigentes sindicais de movimentos sociais, de várias áreas para avançar, não só da educação, dos transportes, saúde, ecologia. Esses companheiros e companheiras consideram que eu, de certa forma, represento um novo tipo também de sindicalismo, um novo tipo de cidadania, que é algo que Portugal não está habituado.
Estamos na estação de Santa Apolónia, ao vir para esta entrevista, passei pela segunda circular, onde está um cartaz de André Pestana a defender o fim do que o que considera ser os subsídios milionários aos partidos. Se tivesse que eleger um único ponto do seu programa para Belém, seria esse?
Não. Como deve entender, eu tenho consciência das competências do Presidente da República. O Presidente da República não governa. Agora, o que eu digo claramente, mesmo nos poucos trechos em que tive a oportunidade, é que eu também sou a única candidatura que diz abertamente que não é um Presidente da República. Ou até digo, mesmo o Parlamento, que vai mudar a favor, de forma significativa, para os interesses da maioria ou do planeta.
Se reparar bem, o que eu digo é que tem de ser a mobilização social, grandes lutas sociais, que no passado tem demonstrado que é possível. Por exemplo, vou dar um caso muito concreto em que as pessoas vão ver o papel do Presidente da República. Em Portugal, no dia 15 de setembro de 2012, o governo do PSD, na altura, tentou alterar as regras de TSU (Taxa Social Única), que iam prejudicar muito os trabalhadores.
O Presidente da República, na altura, o professor Cavaco Silva, também reforçou (ou reforçava nos media) que era importante essa mudança, para que Portugal fosse moderno, e que seria insustentável não fazer essa tal mudança TSU. O que é que aconteceu? Vieram para a rua cerca de um milhão de portugueses. Certamente se recordará desse dia. Eu acho até que o mote era "Que se lixe a troika". E eu e outros viemos para a rua. Veja a diferença. Eu, como Presidente da República, nunca estarei ao lado de um Governo que faça medidas antipopulares contra a maioria. Pelo contrário, se for eleito, estarei sempre ao lado das lutas justas, a favor da maioria e do meio ambiente. Porque é isso, no fundo, que nós vamos deixar de legado aos nossos filhos e netos. A questão dos milhões [em subsídios] para os partidos é só um exemplo em que denuncio (e sei que, pelos vistos, não agrado e estou a ser muito atacado por causa disso). Por exemplo, os partidos do sistema - os principais como o PS, PSD e Chega -, mas nomeadamente o Chega, que se diz contra os subsídios, recebe mais de cinco milhões de euros dos nossos impostos todos os anos, além dos milhões que recebe para as campanhas eleitorais e dos milhares e milhares que os deputados e os assessores recebem e as ajudas de custo milionárias. E o Chega, de facto, não gostou que alguém dissesse que eles tinham grandes telhados de vidro.
Nesta campanha já defendeu, nos últimos dias, "nem mais um euro para NATO". Considera que essa é a melhor escolha numa altura em que os países estão a armar-se e também estamos perante uma crescente instabilidade geopolítica a nível internacional?
Sinceramente, acho que sim. Se reparar bem, a NATO já demonstrou que, neste momento, está a ser comandada por Donald Trump. Eu acho que os portugueses não querem que estejamos a gastar, porque Trump exigiu 5% do PIB para a defesa. Para as pessoas terem uma ideia, é passar de um orçamento do ano passado, de cerca de 4.400 milhões de euros, para cerca de 15 mil milhões de euros. Mais do triplo. Isto é quase o orçamento de saúde em Portugal. Eu sei que é, mais uma vez, uma verdade inconveniente. É impossível Portugal passar para este orçamento de defesa sem cortar ainda mais nos serviços públicos, na escola pública, no Serviço Nacional de Saúde. É impossível cortar ainda mais nos salários, seja pelo aumento dos preços, porque há várias formas de austeridade. Pode não cortar diretamente no salário, mas basta que aumente a inflação, no fundo estamos a perder poder de compra. E nesse sentido, eu digo claramente que a guerra que nós temos que fazer não é contra outros povos, não é a mando de Trump que, como vimos, está agora a raptar pessoas, a dar golpes de Estado em países, e que até ameaça a própria Gronelândia e outros territórios. E nós, a fazermos este financiamento, estamos a ajudar a máquina de armamento dos Estados Unidos. Ou seja, estamos a reforçar quem patrocinou o genocídio em Gaza, estamos a patrocinar este ataque à Venezuela e a patrocinar também, quer queiramos, quer não, por exemplo, os futuros ataques à Gronelândia. E, claramente, a guerra que eu quero fazer não é contra os povos, é contra os baixos salários e as baixas pensões que levam os nossos jovens a emigrar, contra a precariedade, contra a destruição ambiental, contra a degradação dos serviços públicos.
Essa é a guerra que temos que fazer.
Fala de pensões, de reforma, de precariedade. Essas são competências do Governo de melhorar a vida das pessoas. O que é que faria diferente se fosse o próximo inquilino do Palácio de Belém?
Eu acho que é muito simples. Por exemplo, termos um Presidente que perante as arbitrariedades que se pretende impor, digamos assim, para os trabalhadores nesta reforma laboral...
Mas de que forma é que o Presidente da República pode interferir nesse campo?
Ah, nunca ficaria calado. E claramente faria a minha chamada magistratura de influência pela positiva, que era dizer abertamente, dois, três dias antes assim: "Portugueses, temos esta situação." Dizer a verdade, o que está em causa. O aumento, por exemplo, da semana da jornada de trabalho para até 50 horas, imagino o desregular para as famílias para irem buscar os filhos, etc. E dizer: "Nós temos que vir para a rua."E teríamos um Presidente ao lado de quem trabalha e ao lado da maioria. Isso era um Presidente diferente, que nunca tivemos nas últimas décadas.
Nós temos que comparar como o Professor Cavaco Silva, que em 2012 esteve contra a maioria que veio para a rua, e com outros [Presidentes] que têm estado calados. Eu nunca faria isso. Claramente estaria ao lado da maioria, ao lado de quem trabalha, e ao lado também defende o planeta e os direitos laborais.
Defende os direitos dos trabalhadores. Onde é que estava na terça-feira [13 de Janeiro], no dia da manifestação da CGTP-IN contra o pacote laboral?
Eu estava em campanha nesse dia.
Mas preferiu não associar-se a esta iniciativa da CGTP-IN por fazer parte de outro movimento sindical?
Não, porque se reparar bem, eu fui à manifestação de 11 de Dezembro. E a própria greve geral foi convocada inicialmente e até dirigida pela CGTP.
Não há qualquer sectarismo da minha parte. Já tinha outros compromissos, mas toda a gente sabe as minhas posições, tenho estado até em manifestações muito pequeninas. Lembro-me de uma que foi ali em Coimbra, que também publiquei, em que estavam poucas dezenas de pessoas, foram umas advogadas que tomaram iniciativa já a alertar da reforma liberal.
E estive lá e estarei, se for possível. Nesse dia não foi possível, mas posso dizer que, provavelmente fui o único candidato presidencial que fez greve, perdi dinheiro, por estar ao lado dessa luta que é perfeitamente legítima.
Qual é o orçamento da sua campanha? De onde vem o dinheiro?
O orçamento da minha campanha é quase risível quando comparamos com o dos outros candidatos. Ou seja, se a memória não me está a falhar, é cerca de 7 mil euros, 7.200 euros. De onde é que vem? Basicamente são contributos de pessoas que acreditam que é preciso e há esperança no Portugal melhor. Ou seja, que acreditam que, ao contrário do que nos têm dito, é possível trabalhar e vivermos todos em Portugal com dignidade.
Mas para isso é preciso coragem de enfrentar os poderosos interesses instalados e a minha candidatura, de facto, é a única que o está a fazer. E por isso é que tem sofrido as represálias que eu já referi.
Tem feito uma campanha, sobretudo, urbana. Se tivesse mais dinheiro, iria ao interior do país ou quem reside no interior do país está mais desligado da mensagem que o André Pestana quer passar?
Bem pelo contrário. Houve uma iniciativa em Coimbra, numa feira de produtos regionais, em que vieram pessoas da zona de Coimbra, mas também de zonas mais do interior, com seus produtos regionais. Eu acho que foi o único candidato que apontou uma coisa que diz muito, sobretudo às pessoas do interior, ou mais afastadas dos grandes centros urbanos, que é o problema dos incêndios. Se reparar bem, só se fala dos incêndios quando eles acontecem e depois toda a gente se esquece.
Eu não. Fui o único também que disse que temos que acabar com o poderoso negócio dos incêndios que, por exemplo, alugam os tais helicópteros e aviões, não sei se sabe, são dezenas de milhares de euros por hora. E, obviamente, isso depois fomenta o quê? Que interessa a alguém que surjam incêndios porque, obviamente, isto é uma pescadinha de rabo na boca.
Eu sou o único candidato que diz que é no inverno também, que se tem de preparar o futuro. Eu disse claramente que tem que ser o exército - por exemplo, com as suas aeronaves, com os seus helicópteros, nem que se gaste algum dinheiro que será uma ínfima parte do que se está a dar em milhões e milhões a essas empresas privadas para combater os nossos incêndios -, a proteger as populações no Verão, e também preparar a limpeza das matas, as espécies invasoras que são facilmente combustíveis, como a mimosa. Esta espécie invasora tem que ser cortada, tem que se abrir as linhas de fogo para fazer barreiras, isso tem que ser feito atempadamente.
Não é depois lembrarmos outra vez, no verão, tragédia atrás de tragédia. Acho que a população portuguesa está farta disso, e é triste que eu tenha sido o único candidato com coragem de falar dos incêndios, um problema tão grave, mas tão esquecido. Eu não o esqueci e coloquei esta questão no inverno .
Há algum tema que, se o André Pestana tivesse mais espaço mediático, gostaria de debater com os portugueses até domingo? Algum tema que os outros candidatos não tenham falado?
Certamente que sim, certamente que sim. A questão das alterações climáticas. Acho que é gravíssimo, acho que todos os portugueses que têm filhos, netos, sobrinhos, preocupam-se com o planeta que vamos deixar. Eu sou biólogo, além de professor, sou doutorado na área das alterações climáticas e, por isso, era um tema que eu queria trazer à campanha, mas, de facto, com o pouco tempo que tive, eu tenho que centrar-me em duas, três ideias-chave, porque, de facto, não é possível. Também há muitas injustiças, a nível de direitos laborais, por exemplo, a Caixa Geral de Apresentações.
Há milhares de trabalhadores que estão ao lado de outros milhares de trabalhadores, por exemplo, da função pública, e uns têm direito, e bem, a descontar para a Caixa Geral de Apresentações e outros milhares que trabalham ao lado, com as mesmas funções, já não descontam com grandes prejuízos no presente e no futuro. Ou seja, eu queria falar disso tudo, mas, de facto, não tive essa possibilidade e, mais uma vez, é uma pena, porque quem perde não é meramente a candidatura de André Pestana, acho que quem perde é a democracia. São as pessoas que ficam privadas, digamos assim, de saber que há, de facto, uma candidatura diferente, uma candidatura que quer, no fundo, dizer que 'é hora de abrir a pestana'.
De acordo com as sondagens, não passa à segunda volta. Como é que vai ser a vida do sindicalista que, apesar de dizer que não é político profissional, esteve ligado ao Partido Comunista Português, ao Bloco de Esquerda, e fundou o MAS, o Movimento Alternativo Socialista. Como é que vai ser a vida de André Pestana a partir de domingo?
Bem, se eu não for à segunda volta, costumo dizer na brincadeira que a minha sobrinha acredita que eu vou à segunda volta, mas, obviamente, perante os cenários, e a própria censura e a pouca cobertura mediática, há milhões de portugueses que nem sabem que a minha candidatura existe...
Mas o seu objetivo é o quê? Criar um partido? O que é que vai fazer a seguir a domingo?
Bem, eu vou voltar a trabalhar na escola pública. E há uma coisa que garanto: independentemente dos resultados, eu tenho dois filhos e não quero, nem aceitarei passivamente o rumo que o mundo e o país está a tomar. Eu vou tentar sempre estar, aliás, participo em manifestações desde os 16 anos. Sinto esta necessidade de participar ao lado de quem mais sofre, de quem vive os problemas reais das populações e, obviamente, tentar melhorar.
Como é que vai passar o próximo domingo? Como vai ser a noite eleitoral?
Vou passar naturalmente em Coimbra. Eu sou de Coimbra, vou votar em Coimbra, vou juntar os apoiantes e vamos encarar. Como a última sondagem, como digo na brincadeira, me colocou em último, eu digo que tudo o que vier já vai ser uma vitória.