"BE não tem vergonha de dizer que é de esquerda." Pureza promete "luta" e acusa Montenegro de "radicalismo"

José Manuel Pureza
Foto: Paulo Novais/Lusa (arquivo)
O provável sucessor de Mariana Mortágua refere que "não há nenhuma gaveta" em que o Bloco de Esquerda "se sinta mal à esquerda"
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José Manuel Pureza, que deverá ser escolhido este domingo para novo coordenador do Bloco de Esquerda, garante que o partido "não tem vergonha de dizer que é de esquerda". À chegada ao pavilhão do Casal Vistoso, em Lisboa, para a convenção que marca a despedida de Mariana Mortágua, após dois anos como líder do partido, o provável sucessor deixou uma mensagem muito clara para o Governo e para Luís Montenegro.
"Vejo o Partido Social Democrata no Governo, vejo Luís Montenegro a ter, relativamente à saúde ou à habitação, a atitude mais radical que alguma vez aconteceu depois do 25 de Abril a partir do Governo. E, no entanto, dizem que Luís Montenegro é um moderado. Não, eu sou radical contra essa situação de exclusão da habitação, de exclusão da saúde, agressão à dignidade das mulheres, agressão à dignidade dos imigrantes e das pessoas racializadas. Eu sou radicalmente contra isso. Agora, eu sou esta pessoa, tenho o feitio que tenho, com os defeitos e as virtudes que tenho e é com isso que eu vou à luta", afirma, sublinhando que o Bloco "não tem vergonha de dizer que é socialista, é uma força de esquerda que não tem vergonha de dizer que é de esquerda".
"Não há nenhuma gaveta em que nós nos sintamos mal à esquerda", frisa. Pureza refere, por isso, que é necessário "um programa que seja capaz de dar resposta àquilo que hoje está a acontecer no país e no mundo".
O provável sucessor de Mariana Mortágua acrescenta que o Bloco de Esquerda vai abrir as portas do partido para discutir com a sociedade formas de responder aos desafios do mundo atual: "Mudou muita coisa nos últimos tempos, a mudança tem sido vertiginosa, a cada dia as coisas mudam e mudam de uma forma muito assustadora. A esquerda tem de ser capaz de dar resposta às questões da poluição digital, às questões do trabalho, à questão da nova cruzada contra os direitos das mulheres, à defesa do salário. O Bloco vai ter, no próximo futuro, de falar com muita gente, gente independente, gente de outros partidos, gente de movimentos, gente solta para refazermos o nosso programa político."
José Manuel Pureza, que encabeça a moção A à XIV Convenção Nacional do BE, considera também que o partido "tem de mudar para crescer" e defende "todos os diálogos" para que a esquerda volte a ganhar iniciativa e força.
"Já houve tantos vaticínios de desaparecimento, nunca se cumpriram. O Bloco é um partido que tem força. Está numa situação difícil, é evidente, tem de mudar para crescer, é evidente", diz.
O antigo vice-presidente do Parlamento antecipa dois dias de discussão sobre "caminhos e formas de ganhar força", mas sobretudo do partido estar ao "serviço das lutas de quem não tem poder e de quem está a ser agredido pela extrema-direita, pela direita extrema".
"Temos de ter a capacidade de, com inteligência, com humildade, fazer todos os diálogos que forem necessários para que a esquerda reganhe iniciativa e reganhe força no nosso país. O Bloco tem isso no seu ADN e vai procurar cumpri-lo", assegura.
Outro das bases de uma eventual liderança sua, segundo Pureza, é a necessidade do BE "alterar procedimentos e a cultura de organização".
"Temos de ser uma organização com muito maior capacidade de envolvimento, muito maior capacidade de tratar bem a militância, de estimular a militância. Isso é absolutamente fundamental e temos que nos organizar para isso e eu acho que há uma vontade unânime nesse sentido", enfatiza.
A XIV Convenção Nacional do BE arranca este sábado, em Lisboa, com a intervenção de abertura por Mariana Mortágua, que se despede da coordenação, ao fim de dois anos de um mandato marcado pelo declínio eleitoral do partido.
