Embate entre Soares e Freitas do Amaral contado em livro 40 anos depois: "O retrato de um país a florescer"

Mário Soares venceu as eleições presidenciais de 1986 à segunda volta
Wikimedia Commons (arquivo)
Quando se prespetiva uma segunda volta nas presidenciais deste ano, João Reis Alves conta o que aconteceu na última vez que os portugueses tiveram de voltar às urnas uma segunda vez para eleger o Presidente da República
Este ano celebram-se os 40 anos das presidênciais que deram o primeiro mandato de Mário Soares no Palácio de Belém. Depois de uma primeira volta em que Diogo Freitas do Amaral foi o mais votado contra Soares, Maria de Lurdes Pintassilgo e Salgado Zenha, já que Ângelo Veloso desistiu, a segunda volta foi uma das mais renhidas de sempre e marcou o ano de 1986.
Mário Soares acabou por ser eleito no frente-a-frente com Freitas do Amaral. Foi para lembrar essa eleição, uma das mais discutidas de sempre, que o antigo jornalista João Reis Alves decidiu lançar o livro "A Segunda Volta 1986: As eleições que mudaram o país".
"Foi juntar o útil ao agradável. Foi contar uma história, uma das páginas mais marcantes da política no pós-25 de Abril. Uma de grande mobilização popular, o que começa a ser cada vez mais raro na política. E calhou bem, porque também estamos numa efeméride, os 40 anos, e precisamente em 40 anos onde também vamos ter uma nova segunda volta em perspetiva. Portanto, juntou-se o útil ao agradável, apesar de ter sido tudo um bocadinho por acidente, foi quase uma epifania", explicou o autor, em declarações à TSF.
João Reis Alves destaca o que se pode encontrar neste livro que, 40 anos depois, ainda não seja conhecido de grande parte do público.
"Vamos ter o lado político, que já se conhece mais ou menos, vamos ter a questão da luta eleitoral, que já se conhece mais ou menos, mas acho que a beleza vai estar nos pequenos detalhes. Vai estar naqueles pormenores da época, um Portugal diferente, um Portugal que estava a modernizar-se, um Portugal que estava a passar de uma crise e de tempos delicados naquela primeira década após a revolução, mas que estava a entrar também num período de mudança", conta.
Ainda assim, serão os "pequenos detalhes" que vão sobressair: "A entrada na CEE, agora União Europeia, por exemplo, o aparecimento do primeiro centro comercial do país, o Amoreiras, por exemplo. Ou seja, era um país que se estava a desenvolver, que estava a crescer, que estava a dinamizar-se. E esse retrato de época, de um país a florescer, um país em mudança, um país a crescer e a modernizar-se, acho que é o que vai dar mais charme no livro. A luta eleitoral vai ter sempre a sua piada, especialmente o a recordação dos debates, muito combativos, também com alguns detalhes de bastidores que vão ser muito interessantes, o pequeno pormenor de nas transmissões televisivas se estar a fumar no estúdio, também tem sempre aqueles detalhes interessantes."
Este ano vamos ter também eleições presidenciais, com um recorde de candidatos a Belém. João Reis Alves sublinha que as eleições de 1986 não são comparáveis com as deste ano.
"O país é diferente e, na altura, ainda tínhamos muito fresco a revolução e também a entrada algo demorada na democracia e com o desenvolvimento do país e com várias crises pelo meio. Mas há alguns dados, pelo menos, a reter. No caso, também, que em 1986, havia um candidato que conseguiu ter uma convergência mais à esquerda, apesar de não ter tido sucesso na primeira volta. Foi Salgado Zenha. Por outro lado, também há outras coincidências que podemos ver, ou algumas semelhanças. Também era um governo de direita, não com maioria absoluta que estava no poder. Era o primeiro governo de Cavaco Silva. O que poderá ser interessante de ver é o que acontecerá numa segunda volta, porque olhando pelo menos para os outros candidatos e para as taxas de aprovação e de rejeição, podemos vir a ter uma segunda volta muito disputada e podemos vir a ter, não com aquele dinamismo todo, porque também é preciso perceber que em 1986 tínhamos das maiores figuras do país do pós-revolução presentes naquela eleição", compara.
Na segunda volta de 1986 ficou célebre o episódio em que Álvaro Cunhal aconselhou os eleitores a taparem a cara de Mário Soares para votarem no candidato que não fosse Diogo Freitas do Amaral. João Reis Alves reconhece que uma situação idêntica
pode acontecer em 2026, mas mais cedo.
"Poderemos também ter uma espécie de 'tapem a cara', de Álvaro Cunhal, mas vai ser na primeira volta, porque a forma disso acontecer será se a esquerda se juntar a algum candidato na primeira volta, porque, e é aqui já uma grande diferença para 1986, na segunda volta o eleitorado de esquerda, pelo menos olhando para as legislativas, não é assim tão forte, não é assim tão pesado, tão grande, para ter algum relevo significativo para mudar a eleição. Mas isto, como a segunda volta pode ter pode ser entre tantos candidatos, há tantas hipóteses, está tudo em cima da mesa, mas acho que a primeira volta vai ser ainda mais interessante do que o 1986. E depois da primeira volta, vamos ver o que acontece na segunda", antevê.
O livro "A Segunda Volta 1986: As eleições que mudaram o país", de João Reis Alves, é uma edição da Contraponto. A apresentação está agendada para o próximo dia 15 de janeiro, às 18h30.
