João Cotrim de Figueiredo: "Voto útil é caminho andado para a mediocridade"
Autores: Francisco Nascimento (TSF) e Carla Soares (JN)
Apesar do número alargado de candidatos às eleições presidenciais, João Cotrim de Figueiredo define um novo adversário: o voto útil. Em entrevista à TSF e ao Jornal de Notícias, o candidato ao lugar de Marcelo Rebelo de Sousa desafia os eleitores a votarem na primeira escolha, em detrimento dos candidatos melhor posicionados nas sondagens (como é o caso de Luís Marques Mendes), e vai mais longe ao considerar que o voto útil "favorece a mediocridade" e "evita a renovação da classe política".
Já disse que foi pressionado por apoiantes da candidatura de Luís Marques Mendes para desistir da corrida presidencial. É nesta entrevista que vai revelar esses nomes?
Não.
Foram figuras de primeira linha?
Foram destacados apoiantes de Marques Mendes e parti do princípio de que estariam mandatados ou pelo menos teriam informado que iam fazer essas démarches.
Informaram Luís Marques Mendes?
Luís Marques Mendes já assegurou que não tinha mandatado absolutamente ninguém, portanto, foi um excesso de voluntarismo desses apoiantes.
Mas, portanto, foram figuras de primeira linha da candidatura de Marques Mendes?
Apoiantes de Marques Mendes. Não conheço a estrutura da candidatura, não sei se estão mais ou menos perto, portanto, tudo indica que não.
Mas esses apoiantes ofereceram algum cargo em troca ou foram apenas tentativas de intimidação e de pressão?
Essa parte penso que já conhecem o suficiente para saber que não valia a pena estar a fazer troca por troca. Era uma tentativa de ... fazer uma coisa que eu acho que é uma boa oportunidade aqui nesta entrevista de tentar também fazer um pouco de pedagogia que é a concentração dos votos, o chamado voto útil, em candidatos de supostamente determinada área.
Já disse há pouco que não me parece que o passado partidário ou profissional deva ser o principal critério numa eleição presidencial e agora digo aqui mais: Portugal está há demasiado tempo refém e a sofrer as consequências de em demasiadas eleições, de vários níveis, desde as legislativas, às autárquicas, às europeias, em todo o lado, optar pelo voto útil que, se formos a ver bem, é sempre uma segunda escolha. Sempre uma segunda escolha.
Quando tomamos decisões sobre o futuro do país baseado em segunda escolha estamos à espera que saia o ótimo ou que saia o medíocre? Na maior parte dos casos vai sair o medíocre e depois não nos podemos queixar. Portanto, numa eleição como esta, mais personalizada, com duas voltas ainda por cima, é absolutamente essencial que as pessoas façam a primeira escolha para escolher quem vai à segunda volta - Primeira escolha para a segunda volta. Acho que é absolutamente crucial.
Portanto, apelos a voto útil são, vou dizer, estratégias antigas, conhecidas, sobretudo das forças políticas maiores, porque acham que concentram em si os votos e isto não só favorece a mediocridade na vida pública como evita a renovação da classe política. Portanto, devemos às pessoas incentivos para escolherem e votarem nas suas primeiras escolhas. Depois, havendo especialmente duas voltas ou outros mecanismos de compensação, logo se vê.
Mas, para já, primeira escolha. Escolham aquilo que efetivamente querem para o país. Deem esse sinal. É importantíssimo. O voto útil não devia ter um papel nesta eleição.
Mas ainda sobre esta polémica com Luís Marques Mendes, tendo em conta que não concretiza, não diz quem são esses nomes, não considera que atirar esta polémica para cima da mesa não abre a porta, de alguma forma, a uma polémica desnecessária?
Eu já a tentei enterrar várias vezes.
O apoio do PSD a Marques Mendes foi assegurado quase por unanimidade no Conselho Nacional do partido, houve apenas um voto contra. Baseia-se em quê para dizer que metade do PSD está consigo?
Houve uma das sondagens sobre as presenciais que inquiriu também sobre as intenções de votos legislativas. Portanto, com a mesma base da amostra, com a mesma data, com o mesmo trabalho de campo, atribuía metade dos votos ao candidato presencial do que atribuía ao partido que o apoia.
E, portanto, foi com base nessa sondagem?
Sim. É uma força de expressão. Pode ser metade, pode ser menos, pode ser mais, mas é à volta disso.
Mas considera Marques Mendes um candidato de segunda linha? O desejado era de facto Pedro Passos Coelho?
Não sei. Isso tem de perguntar às pessoas que conhecem bem o PSD. Eu de fora não sei. O que sei é que olho para os factos e olho para as inúmeras mensagens. Nem vale a pena falar da quantidade de pessoas do PSD que não se revê no candidato que é apoiado oficialmente pelo PSD.
Mas isso é público. Vocês estão-me a obrigar a dizer coisas que já conhecem de cor e salteado. E a mesma coisa podia dizer do António José Seguro que também cativa muito pouco do eleitorado do PS. Tendo feito um trajeto e uma apresentação de candidatura diferente da de Marques Mendes, mais sozinho, se quiser, e tendo demorado o PS mais tempo a apoiá-lo, também não consegue mobilizar grande parte do eleitorado do PS.
Até por isso, estas eleições deviam ser consideradas eleições em que o voto útil devia ter um papel nulo. Os candidatos dos maiores partidos do sistema, ou dos partidos do centrão, se quiserem, têm grande dificuldade em mobilizar os seus próprios eleitorados.
Então isso quer dizer que está fora de questão apoiar Luís Marques Mendes numa eventual segunda volta, caso o João não consiga um dos dois primeiros lugares a 18 de janeiro?
Não ponho esse cenário. Nem sei quem é que irá à segunda volta, portanto, vou-me resguardar até essa altura.
Se não for à segunda volta, vai apoiar algum candidato? Ou fecha a participação nas eleições?
Nem disso tenho a certeza.
Tem dito várias vezes que é o candidato mais independente de todos. Como é que se define como independente se ainda é eurodeputado da IL?
Uma é pessoa independente quando não depende da opinião de terceiros ou das instruções de terceiros. Portanto, se me disser uma ocasião em que eu tenha recebido um telefonema a dizer faz assim e eu fiz, eu digo que realmente nessa altura fui dependente. Como não vai conseguir encontrar-me numa situação dessas, eu digo que sou independente.
Portanto, eu prefiro nas matérias que me são importantes e que são cruciais, desvincular-me daqueles que me querem influenciar ou forçar a fazer coisas em que não acredito, do que comprometer a minha independência. É nesse sentido que eu me considero totalmente independente.
E tem dito também numa crítica aos adversários que é independente de organizações secretas e de outros interesses, é isso?
Também.
Mas é justo dizer que o João Cotrim de Figueiredo é o rosto principal da Iniciativa Liberal. Acredita que o eleitorado vai conseguir separar as duas coisas?
Em parte, não. Mas crescentemente a adesão de pessoas fora do espaço da Iniciativa Liberal dá-me confiança que vou conseguir atrair gente suficiente para além daqueles que já me conheciam enquanto político ligado, presidente e deputado, da Iniciativa Liberal. Dá-me confiança que isso vai ser suficiente para chegar à segunda volta.
Considera, portanto, que é maior do que a Iniciativa Liberal?
Isso é uma questão aritmética, mas também estou numa posição bastante mais simples do que um líder partidário que tem obrigatoriamente de ter posições executivas sobre tudo e mais alguma coisa.
Portanto, acho que numa eleição presidencial, apesar de tudo, é mais fácil alargar o espectro da atração eleitoral do que enquanto líder partidário. Se o fizer, não é testado de incapacidade nenhum a outro líder partidário, é apenas a capacidade de ter usado um posicionamento político em presidenciais que foi mais atraente. Não leria muito mais do que isso.
Agora, para não ficar a ideia de arrogância, porque eu usei de facto essa expressão - "sou o mais independente de todos - quando estava num debate com o Almirante Gouveia e Melo.
Foi estratégia, portanto?
Não é uma questão de estratégia, não pensei nisso assim, mas o Almirante Gouveia e Melo, durante muitas semanas, fez questão de dizer que só as pessoas que não tinham passado partidário é que podiam dizer que eram independentes. E eu confesso que essa é uma teoria que perigosa até para o sistema democrático que não pode viver sem partidos.
Portanto, foi por isso que eu carreguei nas tintas e disse: "não, não há ninguém mais independente do que eu". Até porque eu só estou na vida política há seis anos. Eu sei que parece uma eternidade, mas só estou há seis anos. Tenho 34 anos de vida profissional antes disso e seis anos de vida política e tenho, em várias circunstâncias, evidência de que é muito, muito, muito difícil pressionar-me a fazer uma coisas que eu não quero.
Mas falando um pouco sobre a Iniciativa Liberal, ainda há poucas semanas o primeiro-ministro assumiu uma postura mais feroz, diria assim, para com o partido. Acabou por dizer que Mariana Leitão está a radicalizar a Iniciativa Liberal. Concorda com esta visão de Luís Montenegro?
Não vou comentar a política partidária nem do partido do qual faço parte.
André Ventura é criticado por ser candidato a todos os cargos, mas o João Cotrim de Figueiredo no ano passado estava a concorrer às europeias, antes esteve numas legislativas e agora nas presidenciais. Sente-se o André Ventura da Iniciativa Liberal?
Bem, aceito a provocação, mas de facto o único paralelo que há é, neste caso, sendo eu eurodeputado, estar como candidato a outro cargo. Eu já expliquei isso em público e em parte tem a ver exatamente com a minha experiência de ano e meio no Parlamento Europeu, em que se tornou bastante claro uma coisa que já se imaginava e que o relatório Draghi veio confirmar, é que a Europa sem reformas profundas corre o risco de implodir enquanto projeto político, que seria dramático para a Europa como um todo e para Portugal dentro desse cenário. Isso já se sabia e confirmou-se.
Aquilo que não tinha a perspetiva tão clara é que as reformas que vão ser necessárias ou que são necessárias e que urgem - e que a Europa está a mexer devagar - necessitam que o Parlamento Europeu funcione, sim senhor, mas necessitam sobretudo que o Conselho Europeu deixe de ter preocupações tão egoístas, cada Estado Membro olhar para o seu umbigo em vez do projeto europeu, numa miopia que me custa entender. Qualquer país que despenda, e qualquer responsável desse país, que passe dez segundos a pensar no problema, percebe que o seu país tem muito mais a perder com um projeto europeu fraco do que com uma posição menos musculada dentro de um projeto europeu forte.
Portugal é dos países que mais sofreria se a Europa não existisse enquanto União Europeia, enquanto projeto político que já tem estas décadas de sucesso, ou teve estas décadas de sucesso, e, portanto, acho que o papel mais útil que eu posso desempenhar para proteger os interesses do meu país, mas também do projeto europeu, é influenciando a política do meu estado-membro. Não tendo hipótese realista de ser outra coisa no contexto, digamos, do poder executivo, esta função de Presidente da República é aquela em que eu acho que posso ter uma função, uma influência mais direta na defesa do projeto europeu e dos interesses de Portugal nesse projeto europeu.
Portanto, sim, ponderei, e não foi fácil essa decisão, estou a admitir interromper o mandato de eurodeputado para exercer um mandato de Presidente da República, porque acho que posso ser mais útil nessa função, como digo e repito, aos interesses de Portugal e aos interesses da Europa, que neste particular são a mesma coisa.
Mas isso quer dizer também, de alguma forma, que se arrepende da candidatura ao Parlamento Europeu?
Não, acho é que aquilo que um deputado de um país pequeno, num grupo parlamentar que hoje é o quinto grupo parlamentar do Parlamento Europeu, tem que fazer um esforço absolutamente hercúleo, e eu tenho-o feito - a influência que a delegação portuguesa tem no seu grupo parlamentar é hoje infinitamente maior do que se poderia supor quando entrámos. E mesmo assim, eu digo, a influência que temos no nosso grupo parlamentar e a influência que esse grupo parlamentar pode ter no resto do Parlamento é um processo muito lento para conseguir mudar as coisas e a Europa não tem esse tempo todo que essa influência demoraria a produzir resultados.
Portanto, a Europa tem urgência em se reformar, não só porque há alargamentos aí à porta, mas porque a crescente distância entre o desenvolvimento económico e social da Europa face a outros blocos económicos é absolutamente mortal para o desenvolvimento e para as oportunidades que os mais novos podem e devem ter na Europa.
Voltando às presidenciais, definiu como objetivo claro estar na segunda volta, mas em termos concretos, prevê atingir que percentagem, tendo em conta, por exemplo, que nas europeias ficou-se pelos 9%?
Eu não fixo um número exato, mas sim, reafirmo o objetivo de chegar à segunda volta e digo também, sem qualquer pudor, que não o fazer será uma derrota pessoal.
E, portanto, ficar abaixo dos 9% seria um descalabro total? Recordo que a última sondagem lhe dá 3%.
Vamos falar dessa sondagem? Porque é inacreditável. Foi a expressão que eu usei, repito, é uma sondagem inacreditável. E o que é que me levou a essa indignação, para não pensarem que é apenas por me rebelar contra um resultado que me é adverso? É porque tenho a certeza de que, em vez de me darem um terço das sondagens anteriores, me tivessem dado o triplo das sondagens anteriores, eu achava igualmente inacreditável e tenho a certeza de que a sondagem tinha sido revista do ponto de vista técnico. E não foi.
Como é que alguém pode achar que, com trabalhos de campo idênticos, as outras sondagens tinham saído na semana anterior, a 17 e a 21, houve sondagem, com trabalho de campo em momentos idênticos, e davam-me três veze este resultado. Foi a única sondagem como voto presencial em urna, com apenas 27% das pessoas a abrir a porta ou aceitar participar na sondagem, e isso pode ter dado desvios grandes na amostra final em termos de certificação. Gostava que alguém tivesse explicado, tecnicamente, porque eu não fui o único. Pessoas insuspeitas e não ligadas à minha candidatura também acharam totalmente inacreditável aqueles resultados.
Porquê é que eu me insurjo? É que condicionam toda a discussão. Estamos aqui a falar nisto agora outra vez. E a questão do voto útil que estava arrumada antes desta sondagem, a questão de haver cinco candidatos para a segunda volta que estava adquirida antes desta sondagem volta a ganhar vida. Isto influencia muito, muito, muito a opinião das pessoas. Portanto, não me parece que a minha indignação seja mal colocada ou seja só em causa própria, porque isto afeta, de facto, a forma como as campanhas são geridas e se desenrolam.
Mas tenho a certeza absoluta de que o resultado final vai ser muitíssimo diferente deste. Para melhor, obviamente, não podia ser muito diferente para pior, porque ele é tão baixo. Mas será muito, muito melhor e quando eu chegar à segunda volta gostava que alguém viesse explicar o que é que aconteceu neste trabalho de campo de meados de novembro de 2025.
É interessante, porque a credibilidade das sondagens, aqui e noutras latitudes, tem sofrido nos últimos anos enormes, enormes abalos. As surpresas sucedem-se e as pessoas desacreditam das sondagens e começam a achar que são manipuladas. Não é esse o meu objetivo. Eu acho as sondagens um bom instrumento de trabalho, mas não estas que alteram completamente o tema e o teor da discussão. Essa é a minha preocupação, especialmente, como disse há pouco, quando isto favorece a defesa do voto útil que é o caminho andado para a mediocridade.
Olhando para o panorama internacional, como seria a sua relação como Presidente da República com líderes de Estados que tem criticado, como por exemplo, a Venezuela?
O papel do Presidente da República, em primeiro lugar, é defender os interesses dos portugueses. E no caso da Venezuela, em concreto, temos uma comunidade de portugueses e luso-descendentes tão grande que é óbvio que as relações têm que existir, como têm que existir com capacidade de diálogo e de produzir resultados. Portanto, isso não implica que eu esqueça as opiniões que tive sobre a legitimidade das eleições do ano passado ou da natureza ditatorial do regime de Nicolás Maduro, que aproveito para dizer aqui, enquanto sou candidato e posso fazê-lo, que mudou de cariz.
Hugo Chávez e Nicolás Maduro, nos primeiros tempos, eram apoiados pelas forças mais esquerdistas do seu próprio país. O Partido Comunista Venezuelano apoiou fortemente qualquer um desses ditadores. Mas hoje temos o próprio Partido Comunista Venezuelano a acusar o Partido Comunista Português de não entender o que se está a passar no terreno da Venezuela e não entender como é que o Partido Comunista Português continua a apoiar o Nicolás Maduro.
Hoje em dia há uma ditadura, há uma limitação seríssima dos direitos civis e políticos dos venezuelanos, dos que lá ficaram, porque há oito ou nove milhões que já saíram do país, causando, aliás, muitos problemas na Colômbia e no Brasil também, mas dos que lá ficaram há, de facto, a total ausência de direitos políticos e boa parte de direitos cívicos. Já não sei se a orientação é sobretudo ideológica, se não é puro nepotismo ou até a transformação gradual da Venezuela numa espécie de narco-estado, que seria então o descalabro final do pobre e tão martirizado povo venezuelano.
Antes de fecharmos esta entrevista, deixe-me só perguntar se já decidiu onde é que será a sua primeira visita de Estado, caso seja eleito Presidente da República. Será, por exemplo, à Argentina, de Javier Milei?
Não, isso não será, certamente. E se houvesse relações de visitas de Estado, até preferia que viesse Milei a Lisboa, ver se ele deixa de ter tão más companhias quando faz visitas internacionais. Não, não seria, certamente, com a Argentina.
Há uma visita que gostava de fazer, mas essa não é ao estrangeiro, que é, já disse, pernoitar nas selvagens, tão cedo quanto possível. Visita internacional talvez gostasse que fosse a Timor-Leste.
