João Ruivo (PS): acordo com Chega "vai mudar imagem" de Cascais e deixa investimentos em causa

Vereador do PS em Cascais, João Ruivo, em entrevista à TSF
Mário Vasa / TSF
Investimentos em causa e imagem corroída. O vereador do PS em Cascais João Ruivo avisa que o concelho pode perder investimentos pelo acordo do executivo PSD/CDS com o Chega e lamenta que a imagem da cidade esteja a ser posta em causa, com a entrada dos vereadores do Chega no executivo municipal, o que fez com que os eleitos socialistas entregassem os pelouros e rompessem o acordo para governar a autarquia até 2029, que tinha sido assinado meses antes
Em entrevista à TSF, o também presidente da concelhia socialista em Cascais está convencido de que o presidente da câmara, Nuno Piteira Lopes, não acreditava que o PS rompesse o acordo de governação - além dos meses de trabalho, já tinham sido contratados funcionários para os gabinetes.
Arrepende-se de ter aceitado um acordo com o executivo PSD/CDS de Nuno Piteira Lopes?
Durante a campanha eleitoral, sempre disse, enquanto candidato à câmara, que o PS nunca seria parte do problema em Cascais, seria sempre parte da solução. Após o resultado eleitoral, acreditou que o PSD perdesse a maioria absoluta que tinha nos últimos 24 anos. Quando negociámos o acordo, negociámos a pensar em Cascais, na estabilidade governativa, na estabilidade da câmara, nos funcionários e na capacidade de podermos desenvolver o concelho.
Sentiu desde a primeira hora que o PS era a prioridade para o executivo ou que existiam outros interesses?
Não pensámos nessa opção. Pensámos apenas e só em como é que tínhamos que contribuir para Cascais, contribuir para a estabilidade. Nunca nos foi colocada em cima da mesa a questão de haver outros partidos que não o CDS, que já fazia parte da coligação pré-eleitoral.
Conseguimos chegar a um entendimento sobre aquilo que precisávamos que estivesse no acordo e as condições que precisávamos para poder estar na governação.
E foi-lhe dado conta em algum momento que estava a ser negociado ou que havia uma tentativa para levar o Chega para o executivo?
Não, nesta altura, não. Falou-se que podia haver uma eventualidade da saída do vereador do Chega, para aceitar pelouros enquanto independente, isso falou-se, ouviu-se, nada de concreto. Agora, esta questão específica de ser o Chega a aceitar pelouros nunca foi falada com o PS.
Se o vereador tivesse passado a independente, o João Ruivo continuaria no executivo?
Era uma questão a avaliar. O PS assinou um compromisso em Coimbra, antes das eleições, com todos os candidatos à câmara, e que também assinei. E não assinei apenas porque o PS me pedia, assinei porque concordo com aqueles princípios. Não fui instado ou obrigado a assinar para ser candidato.
Quando negociámos o acordo [em Cascais], o PS colocou em cima da mesa a necessidade de colocar escrito que o Chega não podia governar a câmara. Tentámos com uma cláusula de exclusividade, não foi possível porque o CDS também está na coligação. Tentámos colocar uma cláusula que vinculasse apenas o PSD e o CDS, mas também não foi aceita porque podia haver a necessidade de integrar independentes.
Na impossibilidade de colocarmos escrito no acordo que o Chega não estaria no executivo, fiz declarações públicas, que foram publicadas na imprensa, onde disse que só aceitámos o acordo porque foi aceito que o Chega não estaria. Portanto, fizemos questão de que ficasse escrito, que ficasse publicado e que fosse público essa nossa intenção.
Qual lhe parece ser a razão para esta aposta no Chega em detrimento do PS?
A entrada do PS na governação implicou a criação de equipas, foram contratadas pessoas. Já estávamos demasiado comprometidos, já tínhamos quatro meses de trabalho, tínhamos pessoas que já tinham sido contratadas e tinham vindo de fora para nos apoiar neste trabalho, que nós não iríamos fazer. Penso que o presidente achou sempre que nós não iríamos sair e que iria ter ali o melhor de todos os mundos, que era ser o presidente que trabalhava com o PSD, com o CDS, com o Chega, com o PS e que tinha todos à sua mesa, porque entendeu que nós iríamos ficar agarrados a um ordenado, que nos movíamos por uma outra coisa que não a seriedade na política e a dignidade das instituições.
Ainda assim, esta semana foi aprovada uma proposta para um salário mínimo a cada pescador afetado pelas tempestades em Cascais, foi uma proposta que teve a assinatura tanto do PS como do PSD.
O que lhe pergunto é se será esta postura que vai ter daqui para a frente, ou seja, negociar medida a medida?
Essa proposta foi assinada ainda antes do acordo ser rompido, não quer dizer que eu não a assinasse mesmo depois. Eu nasci em Cascais, sou de Cascais, politicamente tem sido sempre o local onde eu quero praticar a política e nós vamos estar sempre na parte da solução, todas as propostas que entendamos que sejam boas, que sejam benéficas, vamos continuar a apoiar e acompanhar o presidente e a restante vereação nessas propostas. Nós não estamos para fazer a política do contra, dizer que não só porque não, essa não é a nossa postura. A nossa postura é continuar a alertar para os problemas, a sugerir soluções e a apoiar as soluções que nos sejam apresentadas, que tenham condições, como foi essa.
Existe o risco de o mandato de Nuno Piteira Lopes terminar antes de 2029?
Não sei porquê, não vejo nada que provoque esse risco.
Tendo em conta que agora há um diálogo mais estrito com o Chega.
A entrada do Chega é um fator importante, altera aquilo que tem sido a realidade política em Cascais e não só, em Portugal também, porque é dos poucos exemplos onde esse entendimento existiu. E quando estamos a falar de um concelho, que é o concelho que recebeu os condes de Barcelona e o rei Humberto de Itália, e o rei da Roménia, exilados há umas décadas, que soube receber outras culturas, ter um partido que põe as pessoas umas contra as outras, que não pugna por receber outras culturas, que não pugna por receber outras realidades.
Cascais permite que os judeus celebrem as suas datas, permite que os muçulmanos celebrem as suas datas e, ainda no mandato anterior, o Chega votou contra que fosse permitido que outras religiões que não são católicas pudessem professar as suas religiões no concelho.
Teme que exista uma crispação em Cascais?
Com certeza, porque o investimento que existe, o potencial investimento que nós queremos captar e esperamos continuar a captar para Cascais, também provém muito de investimento estrangeiro. E não podemos ter um partido na gestão, na governação, que tem um discurso contra os estrangeiros, que não sabe acolher outras culturas.
Portanto, este acordo com o Chega pode, de alguma forma, mudar a imagem de Cascais?
Sim, sim, vai mudar com certeza a imagem de Cascais. O conforto, a forma como as pessoas trabalham e investem em Cascais vai ser completamente diferente e, eventualmente, afastar pessoas válidas de Cascais para outros lados.