"Jogos florais" evidenciaram "organização fascista" numa cerimónia que alimentou "embuste completo"
Cláudia Alves Mendes e Manuel Acácio
Os "jogos florais" disputados no Parlamento durante a cerimónia de comemoração dos 50 anos do 25 de Novembro, assente num "mito" que alimenta um "embuste completo", evidenciaram que o Chega é uma "organização fascista".
O Fórum TSF desta quarta-feira procurou refletir sobre se, afinal, Portugal deve ou não celebrar esta data nos mesmos moldes do 25 de Abril, se há uma tentativa de reescrever a história para diminuir o 25 de Abril e se Marcelo tem razão quando olha para o país e faz um apelo à temperança.
Ouvido sobre isto, o coronel Vasco Lourenço, presidente da Associação 25 de Abril, e um dos ausentes na cerimónia de terça-feira, assume que aquilo a que assistiu na terça-feira só reforça as críticas que deixou previamente em relação à forma como foi realizada a comemoração dos 50 anos do 25 de Novembro.
Por ter sido um dos "protagonistas nos acontecimentos" a 25 de Novembro de 1975, recusa adensar a discussão sobre a data por considerar que pode dar a "sensação" de que quer pôr-se "em bicos de pés". Ainda assim, confessa que a cerimónia feita na terça-feira o desiludiu.
"Houve ali boas intervenções, mas houve outras que me desiludiram um bocado, nomeadamente a do PSD - que foi um desastre. Já para não falar no [discurso] do CDS, mas esse já se espera porque estão a competir com o Chega para ver quem é que fica mais à direita", atira.
Já o capitão de Abril Rodrigo Sousa e Castro, que também participou no 25 de Novembro de 1975, integrando o Grupo dos Nove - onde estava "a força" -, sublinha que a Revolução de Abril é o acontecimento mais importante e insiste na crítica à direita por estar a encetar um "embuste completo" ao querer afirmar que o país esteve à beira da guerra civil.
"Esse mito que é criado pela extrema-direita para vangloriar a tal ideia de que o 25 de Novembro é igual ao 25 de Abril é um embuste completo. A seguir ao 25 de Novembro, o que é que mudou? O Presidente da República era o mesmo. O primeiro-ministro e o Governo até nem no número mudou - era o VI Governo antes e era o VI Governo depois", vinca.
Já o presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal entende que as comemorações do 25 de Novembro são positivas. O problema, diz, é outro.
"Há uma parte da esquerda que não aceita o 25 de Novembro. Esse é que é o problema. Há uma parte da esquerda que quis apoderar-se do 25 de Abril só para si e que não aceita o 25 de Novembro. Ontem era um episódio de teste. Assistimos a jogos florais, põe flor, tira flor, põem flor, tira flor. Isso faz parte também de um modelo atual de fazer política, mas são brincadeiras laterais", afirma.
Mas é com estranheza que vê a posição do Partido Socialista, que continua a escolher fica "no meio da porta", quando foi, na verdade, "o grande triunfador civil do 25 de Novembro".
Quem partilha da mesma opinião é Filipe Garcia, autor do livro "Breve História do 25 de Novembro - O dia em que a utopia revolucionária deu lugar à sensatez e democracia", que considera que os socialistas ficam "incomodados com a data". E aponta que o "maior problema" é, talvez, ter-se falado "pouco de História".
"A data continua envolta em grande confusão e os verdadeiros vencedores - falo do Partido Socialista, que é o partido mais próximo das forças moderadas que a 25 de Novembro são decisivas - parece que não estão em paz com a História. Ainda não se sentem muito confortáveis com o seu papel no período que conhecemos por PREC e no próprio 25 de Novembro. Não há ninguém mais próximo daqueles militares do que Mário Soares e, mesmo assim, a narrativa instalada à volta da data deixa, parece-me, o PS bastante desconfortável", denuncia.
Por outro lado, a historiadora Raquel Varela, autora do Livro "Do 25 de Novembro aos nossos dias - Histórias da contrarevolução", defende que o gesto "simbólico" de André Ventura, que arrancou os cravos colocados juntos às rosas brancas no púlpito do Parlamento, foi uma confissão perante o país de que o partido Chega é "uma organização fascista e não uma organização de extrema-direita".
"É um erro, aliás, que tem que ver com fragilidade de um pensamento da ciência política. Se nós olharmos a ciência política crítica feita em grande parte das universidades, por todas as razões, este partido é uma organização fascista. Mas ontem disse-o abertamente: 'Nós estamos aqui a defender o Estado Novo. Nós estamos aqui a apagar o 25 de Abril'", dispara.
