O "atrevido" Cotrim ganha nas redes sociais. Marcelo "não precisou" delas nem teve de fazer o pino
Autora: Ana Sousa
Nas redes sociais também se corre agora para Belém, mas há dez anos foi diferente. É Cotrim de Figueiredo quem vai à frente nesta maratona, considera a investigadora Rita Figueiras, em entrevista à TSF. Porquê? É "atrevido" e "irónico". "A sua gravitas [seriedade] permite-lhe arriscar mais" e "sem ficar com a autoridade fragilizada", acrescenta. Ou já imaginou, por exemplo, Marques Mendes a fazer o pino? O candidato presidencial apoiado pela Iniciativa Liberal fez mesmo o pino para todos verem. Alargando o espetro a todos os políticos no país, a verdade é que, com ou sem malabarismos, já nenhum deles pode viver "na invisibilidade total" no digital.
Fotos a sorrir para a terceira idade nos mercados, reels com discursos ou templates de determinadas personalidades a apoiar - na página de Catarina Martins (apoiada pelo Bloco de Esquerda), por exemplo, surge em destaque a deputada socialista Isabel Moreira -, mas também copys em mirandês (Jorge Pinto, apoiado pelo Livre) e toques na bola: num país carregado de informação, os presidenciáveis tiveram de furar o algoritmo.
Quem o fez melhor? Com uma "estratégia mais airosa, provocadora, com alguma ironia e sentido de humor", João Cotrim de Figueiredo canta vitória nesta dimensão da campanha, segundo a professora de comunicação política na Católica Rita Figueiras. Trouxe "inovação" ao introduzir inteligência artificial na comunicação, nomeadamente no Natal, quando foi possível tirar uma foto com o liberal em casa (não, ele não lá está).

Créditos: reprodução Instagram @joao_cotrim_figueiredo
Este conceito de família faz parte do seu modus operandi: "começou por captar a atenção dos jovens, a falar para eles, a mostrar como pretende imaginar o país, com criatividade", e, conquistando estes que são "os destinatárias preferenciais da sua candidatura", "convida-os a expandir a sua influência pessoal nas redes familiares para tentar convencer os eleitores mais velhos".
A tática tem dado frutos. Num vídeo publicado no Instagram, um jovem fala com Cotrim de Figueiredo, num mercado, para lhe dizer que convenceu a mãe, militante do PSD há 27 anos, a votar nele. O próximo passo é a avó e o eventual sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência, ao ouvir isto, não hesita em gravar uma mensagem: "Minha querida Maria dos Prazeres, tem o nome da minha avó. Gostava muito que não fosse a única desta magnífica família que não votasse em mim. Até dia 18 [próximo domingo] pense bem e faça a escolha certa. Um beijinho muito grande", apela. Para Rita Figueiras, exemplos destes mostram como "as redes estão a funcionar numa estreita relação entre o online e o offline, porque não são dois mundos separados".
"A estética, a velocidade, a linguagem emocional": é fulcral entender "o jeito" das redes sociais e o que "envolve" os internautas. Fundamental, considera, é também saber até onde pode ir o candidato "porque, na verdade, hoje em dia, um dos problemas é que tudo é possível ser feito e nem a todos serve fazer muita coisa". E, no meio de tudo isto, a "autenticidade" é "muito importante": "A ideia de que aquela pessoa até pode estar a exagerar no discurso, mas está a ser verdadeira, é extremamente valorizada."
E vão-se somando publicações: o candidato independente Henrique Gouveia e Melo, ex-chefe do Estado-Maior da Armada, dançou nas Galerias de Paris (Porto) e foi buscar o surfista Garrett McNamara. António José Seguro (apoiado pelo PS), Luís Marques Mendes (tem apoio do PSD e CDS) e António Filipe (apoiado pelo PCP) vão mostrando-se conhecedores do Portugal interior. Rita Figueiras sobre o conteúdo que cada um produz remata: "Depende de quem faz e nem todos podem fazer ou nem todos podem fazer da mesma maneira. E também depende quando é que é feito, em que contexto e qual é a frequência."
Comunicação social em risco?
O TikTok já é uma arma de arremesso na campanha. No último domingo, Cotrim de Figueiredo respondeu a quem descredibiliza as redes sociais e verbalizou o que tem mostrado: "Os problemas resolvem-se em todo o lado. Os candidatos que querem representar os portugueses e não conseguem comunicar com eles, de todas as idades e em todos os canais, talvez estejam um pouco desfasados da realidade."
Contudo, entre danças e trends, que espaço ocupa o jornalismo? "Objetivamente a vida da comunicação social está menos fácil porque também vem de toda uma tradição de serem os únicos veículos que permitiam garantir visibilidade aos candidatos. E as coisas mudaram muito."
As redes sociais, sublinha a mesma especialista, "permitem fazer uma curadoria, protegendo o candidato e tentando ao máximo preservar a narrativa que ele quer passar". Suponha-se "uma entrevista que não tenha corrido exatamente como planeada", "os cortes [de vídeo] que são feitos para colocar disponível online são os grandes marcos", ou seja, "é possível soterrar aquilo que correu menos bem".
As próprias candidaturas já pensam "nos momentos de corte para colocar a circular na internet". Como ficou patente no debate com todos os onze na RTP, ao "atacar certo oponente, falar com uma determinada intensidade de voz e de gestos" tem o objetivo de garantir momentos-chave para partilhar nas redes.
"Por nenhum ter rejeitado estar presente", este confronto com todos mostra igualmente como ainda reconhecem a necessidade de presença nos media tradicionais, refere a investigadora, acrescentando: "Sabiam que teriam um debate onde a sua presença é limitada porque a distribuir por tantos candidatos torna-se mais difícil ter protagonismo."
O "problema" das redes sociais, onde os políticos fazem os guiões e não há contraditório, é que "nem sempre os candidatos conseguem alcançar outras pessoas além daquelas que já estão mais em sintonia com as suas ideias, falam para os seus", e ir à rádio e à televisão "reforça e mobiliza" eleitores.
Marcelo "não precisou" de redes sociais... mas e daqui para a frente?
Há dez anos, quando Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito Presidente da República pela primeira vez, a sua campanha "não precisou" de redes sociais para lá chegar. "A familiaridade foi construída" ao longo do tempo em que foi "líder de audiências" na televisão e esteve, metaforicamente, "na casa das pessoas", o que lhe permitiu "acumular um capital de notoriedade". Cinco anos depois, a "visibilidade" do cargo levou-o ao segundo mandato.
Muito mudou nestes anos e a pergunta impõe-se: há algum político que possa escolher não estar nesta dimensão da comunicação?
"À medida que as redes sociais se tornarem cada vez mais corriqueiras, no sentido comum, sendo óbvio que elas fazem parte da paisagem comunicacional, mais difícil será haver a possibilidade de alguém não as ter. É quase como perguntar se pode haver algum político que se recuse a aparecer na televisão. É altamente improvável que alguém possa recusar. A não ser um caso em particular, estratégico: a sobre-exposição de alguns pode favorecer uma estratégia mais minimalista de outros em determinados momentos. Mas, do ponto de vista geral, uma invisibilidade total não me parece muito adequada aos tempos em que estamos", finaliza Rita Figueiras.
