O candidato das "generalidades" contra o candidato do "ruído": fuga ao rótulo PS para um, "primárias da direita" para outro?

António Pedro Santos/LUSA
Foi o derradeiro confronto entre os dois candidatos às presidenciais que disputam esta segunda volta. Durante 75 minutos, António José Seguro e André Ventura puderam expor ao que vêm e quem pretendem ser se chegarem a Belém. Dos dois lados da barricada, houve lugar a acusações. O líder do Chega não quis deixar o adversário esquecer-se de que também já foi líder do PS. E Seguro insistiu que vem para unir, falando até aos eleitores de Ventura.
António José Seguro contra André Ventura. Foi no Museu do Design, em Lisboa, que os dois candidatos à Presidência da República se encontraram para o último (e único, nesta segunda volta) debate, transmitido pelas televisões. Se Ventura procurou passar a ideia de que o adversário era uma figura sem ideias, que será uma "espécie de rainha da Inglaterra" em Belém ("Consegue passar dois minutos sem dizer nada", atirou), Seguro associou-o à cultura do "passa-culpas" e do "ruído" ("Há pessoas que só sabem canalizar o protesto e não passam a soluções", acusou).
Da independência aos poderes do Presidente, passando pela Imigração e pela Defesa, estes foram os temas que marcaram o debate.
Independência e partidos
Ventura apostou na estratégia de colar Seguro ao rótulo do PS. Em matéria de corrupção ou da herança deixada na Saúde, o candidato atribui ao adversário um "legado" de que, diz, não se pode desassociar.
"Não se lhe ouviu uma crítica!", apontou.
Mas António José Seguro responde que André Ventura é que é líder de um partido, enquanto ele não representa qualquer força política nesta eleição (volta a dizer que lhe dá o número do líder do PS, José Luís Carneiro, se Ventura quiser conversar com ele).
Questionado sobre o motivo pelo qual tem afastado a sua candidatura presidencial do Partido Socialista, António José Segura recusa que seja porque a palavra "socialista" queime. "Não queima absolutamente nada. Os portugueses sabem de onde é que eu venho."
Seguro insiste que é "livre" e vive "sem amarras", garantindo que será um Presidente independente. "Comigo as ideologias ficam à porta", declarou. "Não serei um líder de fação, era o que mais faltava."
Os apoios da direita
Os apoios que se somam, entre a Direita, à candidatura de António José Seguro foram também tema. Aos olhos de André Ventura, não são declarações de apoio ao socialista, mas, sim, contra a candidatura do líder do Chega. "Estão a votar contra mim", assegura.
Ventura recordou Cavaco Silva, que chegou a apelidar Seguro de "inseguro, medroso" e que considerou que, enquanto primeiro-ministro, seria um líder "fraco". Mas que, agora, declara apoio a António José Seguro nas presidenciais.
Atira, por isso, que se tratam de "amigos do sistema" e sugere que Seguro poderá ficar "capturado por esse sistema".
Por sua vez, Seguro defende que Cavaco Silva tem "direito a mudar de opinião" e declara-se "muito feliz" que nomes da direita prefiram a sua candidatura à de André Ventura. Vai mais longe e diz que pretende mesmo chegar aos eleitores do Chega, cuja angústia e revolta diz compreender, e de quem pretende ser também presidente.
A Constituição e os poderes do Presidente
O perigo da revisão constitucional foi uma das bandeiras agitadas pelos candidatos à esquerda, nestas presidenciais, como argumento contra os candidatos mais à direita, sobretudo André Ventura. E, neste debate, o assunto esteve em cima da mesa.
Para António José Seguro, não há necessidade de mexer na Constituição nem nos poderes conferidos ao Presidente da República.
"O que é necessário é que o Presidente da República seja mais exigente com a governação", frisou.
Já André Ventura, que quer uma mudança da Constituição, negou que a defenda com vista ao reforço dos poderes presidenciais. É porque, alega, "as subvenções vitalícias dos políticos" estão envoltas "em escândalos" e "não conseguimos mudar isto sem mudar a Constituição".
Seguro rebate. Diz que que a proposta que Ventura apresenta sobre este tema "será sempre chumbada, e bem, no Tribunal Constitucional". E lembra que, em 2011, apresentou um projeto de lei sobre esta matéria que era constitucional e que foi chumbado pelo Parlamento, sendo que, desde então - estando Ventura há vários anos no Parlamento -, ninguém o retomou.
"Eu tenho uma história que fala por mim", alegou.
A discussão evoluiu para a nomeação de certos cargos, como o de Procurador-Geral da República - que Seguro diz considerar correto que seja indicado pelo Governo e depois validado pelo Presidente. Já André Ventura apontou como solução a nomeação por uma "corporação", com Seguro a questionar a quem responderia, então, o Procurador nesse caso - e Ventura a insistir que era melhor que não fosse ao primeiro-ministro.
"Não nos faça é de parvos. Eu percebo que, para agradar aos seus amigos de esquerda, tenha de dizer que não quer mexer na Constituição", rematou Ventura. "Comigo não há nomeações partidárias. Serei muito transparente nas minhas nomeações", assegurou Seguro.
A reforma laboral
Passando aos temas na agenda política do Governo, houve lugar para discutir a reforma da lei laboral. António José Seguro reafirmou que, se chegar a Belém tal como está, merecerá um veto presidencial.
"Mas tenho a expectativa de que haja evolução e diálogo", acrescentou, admitindo que, se houver acordo com a UGT, estará mais perto de dar luz verde ao decreto - e apontando como exemplo daquilo que gostava de ver discutido as diferenças salariais entre homens e mulheres e a introdução de inteligência artificial para a criação de trabalhos mais qualificados.
Quanto a André Ventura, declarou que "qualquer pessoa que não queira que o mercado seja selvagem" critica o pacote, sublinhando os "salários muito baixos" da maioria dos portugueses.
Afirma ainda que esta não é uma questão "da direita ou da esquerda", e rejeita um "bar aberto aos despedimentos e precariedade".
"Se [o diploma] chegar assim, não passará", garantiu.
A Saúde
Foi o tema eleito por António José Seguro como prioritário, se chegar a Belém, mas, colando mais uma vez o candidato ao PS, André Ventura, afirmou que ele é que tem sido "exigente com o Governo" em matéria de Saúde, ao contrário dos socialistas.
Ventura sublinhou que os Executivos de PS e PSD deixaram milhões de pessoas sem médico de família e classificou a criação da direção executiva do SNS como uma forma de "meter mais 'boys' nos 'jobs'".
António José Seguro insiste na ideia de um pacto de regime com "um objetivo essencial": "saúde a tempo e horas para todos".
Admite até que haja alterações, se necessário, ao atual SNS, desde que não ponham em causa o serviço universal e gratuito.
Mas, para Ventura, as palavras do adversário não passam de "generalidades", contrapondo com as "ideias concretas e específicas" que diz ter para o setor - como garantir que, após ultrapassado o tempo máximo previsto para uma consulta, o privado e o social "entrem em ação".
A Imigração
Num debate com André Ventura, o tema da imigração não poderia ficar de fora e, aqui, António José Seguro tentou jogar nos dois campos. Defendeu a regulação da imigração, mas sublinhou a necessidade de imigrantes no país, dado o atual modelo económico.
"Devemos regular a entrada de imigrantes, era o que mais faltava que não o pudéssemos fazer", declarou Seguro, lembrando, contudo, que o "modelo económico que temos no país apela cada vez mais a mão de obra"
"Se, de um momento para o outro, os imigrantes fossem todos embora, o país parava", constatou, defendendo uma alteração do perfil económico do país para uma "economia do futuro" e da "era digital".
André Ventura contrapôs que a necessidade de mão de obra estrangeira é consequência dos baixos salários no país. E afirmou que, caso o Governo quisesse aprovar a regularização extraordinária de imigrantes em solo português, à semelhança de Espanha, teria de vetá-la.
"A exigência de mão de obra não pode significar uma substituição civilizacional", declarou, apesar de afirmar não querer "fechar Portugal".
A política internacional e a defesa
Finalmente, houve espaço para fala sobre o clima internacional e as ameaças a que Portugal e a Europa estão sujeitos.
André Ventura defendeu que Portugal "tem de demonstrar firmeza" perante os EUA e o resto do mundo e declarou que a "integridade europeia não se discute", independentemente de quem estiver na Casa Branca.
O candidato admitiu, contudo, apoiar a integração de Portugal no Conselho para a Paz criado por Donald Trump, se o organismo se restringir ao conflito israelo-palestiniano, como é posição do atual Executivo.
Já António José Seguro considera que é preciso analisar se o Conselho para a Paz é um movimento apenas desta administração Trump ou mesmo dos Estados Unidos da América.
"O mundo tornou-se perigosos e o direito internacional significa muito pouco para os amigos de André Ventura, como Donald Trump", atirou, afirmando que "a lei da força é apanágio dos autocratas".
Aos olhos de Seguro, a Europa, e Portugal em concreto, tem de reforçar a autonomia estratégica em matéria de segurança e de defesa - apesar de afirmar que continua a pensar que 5% de investimento em Defesa pode ser demais para as capacidades do país.
"Temos de comprar português e temos de comprar europeu", defendeu mas sublinhando que é preciso haver "planos anticorrupção" para acompanhar esse investimento. "É preciso garantir neutralidade e transparência."
Sobre matéria de estratégia de defesa nacional, diz querer "discutir com chefes militares, ouvir partidos e convocar o Conselho de Estado para que haja uma discussão séria".
Os 'soundbites'
- Sobre o facto de apenas ter concordado com um único debate, António José Seguro atirou que só precisa de um debate porque só tem uma posição sobre cada assunto, ao contrário de André Ventura, que, afirma, tem várias posições sobre os mesmos assuntos.
- "Se nem o PS conseguiu agregar, como raio é que vai gerar consensos no país?", perguntou Ventura a Seguro, apontando que não conhece uma "única proposta" do adversário.
- Em relação ao tema das subvenções aos políticos, Seguro afirma que podia ter recebido até 300 mil euros por baixo. "Sabe quanto recebi? Zero! Fui à minha vida!", disse o socialista a Ventura.
- António José Seguro acusou Ventura de usar esta eleição como umas "primárias da direita" e voltou a atirar-lhe: "O senhor está na eleição errada".
- A técnica de Ventura para o debate da noite foi ainda classificada por Seguro como fazer "política do empadão", isto é, "misturar tudo".