crise no psd

De "ponta de lança" a "nadador-salvador" do Governo Passos. Chegou a hora de Montenegro?

Disse e repetiu que Rui Rio deveria ir a votos, mas acabou por avançar para a liderança do PSD apenas um ano depois das diretas. O retrato do "vizinho de Cavaco Silva" que já mora perto da sede social-democrata.

Joga a ponta de lança nos veteranos do Sporting Clube de Espinho e, embora considere que na política "há dias em que temos de estar mais à defesa e outros mais ao ataque" arrancou hoje tentando marcar golo na baliza social-democrata, contra Rui Rio.

Luís Montenegro entrou pela primeira vez no Parlamento em 2002, eleito por Aveiro. Em 2005 ensaia um remate à Câmara de Espinho mas perde para José Mota. Na Assembleia da República, começa uma subida fulgurante quando, em 2010, é eleito vice-presidente do Grupo Parlamentar do PSD, na lista liderada por Miguel Macedo: apenas um ano depois, quando Passos Coelho é eleito primeiro-ministro, assume a presidência da bancada.

Ao longo dos anos da troika assume as dores e as medidas do Governo PSD/CDS, forma com Nuno Magalhães a dupla que amortece o embate na frente parlamentar. Chega a dizer, em entrevista ao JN, que "a vida quotidiana das pessoas não está melhor, mas não tenho dúvidas de que a vida do país está muito melhor".

O avental

Enquanto líder parlamentar não fica imune a polémicas. Logo em 2012 surgem notícias de que Luís Montenegro teria sido convidado para participar num jantar debate sobre Portugal, "reservado" a membros da loja maçónica Mozart 49. Entre os convidados, enumerados pelo jornal Público, estariam "sete altos quadros da Ongoing, entre eles o presidente e vice-presidente, Nuno Vasconcelos e Rafael Mora, respetivamente, Jorge Silva Carvalho, ex-director do SIED".

Num texto no jornal Expresso, o líder da bancada social-democrata assume que participou em "algumas reuniões e debates com um conjunto de pessoas qualificadas e empenhadas em refletir", mas recusa ter qualquer "atividade na maçonaria". Mais tarde, entrevistado por Ricardo Araújo Pereira na TVI, Montenegro saca de um avental azul e garante que "o único avental que uso é este e diz: 'cuidado, dragão na cozinha'".

Os negócios

O nome de Luís Montenegro chega a ser incluído entre sete deputados que detinham mais de 10% do capital de empresas ou de sociedades de advogados que ganharam contratos com o Estado, a propósito dos 50% que detinha no capital social da Sousa Pinheiro & Montenegro, empresa que entre 2014 e 2017 obteve seis contratos por ajuste direto de entidades públicas. O caso vai à Comissão de Ética que iliba o líder da bancada parlamentar do PSD. Já antes, Montenegro tinha dito estar "100% seguro" de que não havia "qualquer tipo de incompatibilidade ou impedimento" na sua atividade profissional.

O bilhete para o jogo

Apreciador confesso de futebol (torce pelo Futebol Clube do Porto), Luís Montenegro surge envolvido na polémica sobre os bilhetes para assistir a jogos da seleção nacional durante o Euro 2016 e recebe "com surpresa, mas também com absoluta tranquilidade" a notícia de que estaria entre os arguidos no caso que o Ministério Público decide instaurar. Numa nota assinada também por Hugo Soares e Campos Ferreira, lê-se que os três acreditam não ter praticado "qualquer crime" e que as viagens "foram a expensas próprias".

O defensor de Passos

Escolhido pelo então presidente do PSD para liderar a bancada, Luís Montenegro é, até ao último suspiro da governação de Pedro Passos Coelho, um indefetível. Quando já se adivinhava um entendimento entre o PS e as esquerdas, o Governo PSD/CDS escuda o seu programa de Governo e Montenegro defende o líder como "o Primeiro-Ministro com autoridade e legitimidade plenas".

Mas António Costa chega a São Bento e Montenegro é dos que insiste na tese da falta de legitimidade da solução governativa que "não tinha vencido as eleições". É também um dos que recupera o fantasma da governação Sócrates, tentando colar Costa ao antigo líder do PS, hoje a contas com a Justiça.

Com a saída de cena de Passos Coelho, Luís Montenegro começa a testar a ambição de chegar à liderança. Em entrevista à TSF, admite que "tem liberdade total" para decidir sobre uma eventual candidatura, mas acaba por apoiar Santana Lopes na corrida interna contra Rui Rio.

Regresso anunciado antes mesmo de partir

Em Lisboa, Luís Montenegro vive na mesma rua que Cavaco Silva, o único líder social-democrata que conseguiu uma maioria absoluta para o PSD. A casa fica uns cinco minutos de carro da sede do PSD.

Foi no último congresso social-democrata, há menos de um ano, que o antigo líder parlamentar testou a temperatura da sala para anunciar a saída da Assembleia da República; ao mesmo tempo avisava que não iria esquecer o objetivo de liderar o PSD.

"Desta vez decidi não. Se algum dia entender dizer sim, já sabem, não vou pedir licença a ninguém." Da tribuna, pelo meio do aplauso da sala, avisa Rui Rio de que "o PSD não pode capitular nos braços do PS", promete intervir "na rádio, na televisão e, porventura, nos jornais" mas sem "ser oposição interna à nova liderança".

Mas o tom nunca deixa de ser crítico em relação às posições assumidas por Rui Rio e, de desacordo em desacordo, Montenegro chega à decisão final: candidatar-se contra Rui Rio, mesmo antes de este ter a possibilidade de ir a eleições, ao contrário do que tinha defendido.

No dia do adeus à Assembleia da República, a TSF acompanhou a última viagem de Luís Montenegro para São Bento. Olhando para trás, o social-democrata relembra que nestes anos foram muitas mais as horas passados do parlamento do que em casa. Era "uma vida muito incerta", contou.

Montenegro, que chegou a ser nadador salvador em Espinho, atira-se agora ao mar laranja tentando chegar à sede social-democrata na Rua de São Caetano à Lapa, onde o atual presidente mal teve tempo de aquecer o lugar.

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