37º Congresso do PSD

37º Congresso do PSD
Entrevista TSF

"PSD tem de ir a eleições para ganhar"

Miguel Albuquerque, presidente do Governo Regional da Madeira, aconselha Rui Rio a afrontar o poder instituído do PS e a fazer uma aposta em que parte da sociedade se reveja.

Miguel Albuquerque, o senhor decidiu não apoiar oficialmente nenhum dos candidatos à liderança do PSD mas agora que já sabe quem ganhou, quer dizer-nos se Rui Rio ganhou com o seu voto?

Quero dizer que Rui Rio ganhou aqui na Madeira independentemente da minha posição. Eu tomei uma posição muito clara em relação a esta questão. Eu não podia dividir o partido, como líder, até porque o líder regional tem uma posição de inerência na comissão política, e essa foi a minha decisão. Penso, evidentemente, que foi uma decisão sensata porque o partido, aqui na Madeira, dividiu-se na votação entre os dois candidatos, o Dr. Rui Rio ganhou cá e a situação está decidida. Ganhou, é o líder do partido, vamos apoiá-lo.

Mas agora que já estão decididas as eleições, porquê manter essa posição de imparcialidade?

Eu não tenho nenhuma imparcialidade. Neste momento, o Dr. Rui Rio é o presidente do meu partido, o que eu espero é que o Dr. Rui Rio faça uma oposição e se apresente como alternativa a esta maioria de esquerda que está a governar o país e que o PSD assuma uma posição, não como complemento ou bengala de uma eventual solução de governo de esquerdas em Portugal, mas como verdadeira alternativa porque é isso que é fundamental no nosso país. Hoje, o Partido Socialista é um partido de regime, é um partido que ocupa o Estado maioritariamente em todas as áreas e é fundamental existir uma oposição que apresente uma alternativa de governo, uma alternativa de modelo de desenvolvimento e um escrutínio das decisões que são tomadas pelo Governo.

É daqueles que acha que Rui Rio tem obrigação de ganhar as próximas legislativas?

Não é o Rui Rio que tem obrigação, eu acho que todos os militantes e quem não se revê nesta solução de esquerda deve desmitificar esta solução de esquerda porque os portugueses estão muito iludidos. Um dos trabalhos que os partidos tradicionais têm de fazer na oposição é desmistificar uma situação de ilusão, porque as cativações do Estado e os impostos diretos não acabaram com a austeridade, nem a situação do país está tão brilhante como se vem anunciando.

O Partido Socialista tem, de facto, um processo de tomada do Estado e propagandístico que é muito forte e é muito importante insistir no escrutínio por parte dos partidos da oposição, apresentando e desmistificando aquilo que são soluções miraculosas, mas que não correspondem na verdade àquilo que é a realidade do país. Se se olhar muito bem para aquilo que foram os últimos anos vê-se que a dita recuperação económica do país foi feita devido à conjuntura europeia e, sobretudo, devido ao não investimento público - nunca se investiu tão pouco nas infraestruturas públicas e nos serviços públicos -, basta ver o que se passa, por exemplo, ao nível da saúde em Portugal ou em áreas como a do investimento nos concelhos; mas também aquilo que decorreu dos impostos indiretos, não estamos a pagar mais impostos diretos, não houve aumento, houve, na verdade, um aumento dos impostos indiretos.

Que postura é que acha que o PSD deve ter na oposição daqui para a frente, sobretudo tendo em conta, por contraposição, aquilo que foi o tipo de oposição que Pedro Passos Coelho fez até às últimas autárquicas com os resultados que se viram naquelas eleições?

Eu acho que, neste momento, o país tem duas opções: ou muda o modelo ou não cresce economicamente. Nós temos uma sociedade assimétrica, desigual, mas o país - e os portugueses têm de compreender isto - tem uma nova geração que é qualificada, mas que tem toda a necessidade de se inserir no mercado global, pois hoje o mercado é global. Esta geração que tem 25, 30, 35 anos é uma geração que tem expectativas relativamente àquilo que são as respostas do próprio país para o desenvolvimento das suas potencialidades. Nós ainda estamos marcados por um Estado Social, que é um Estado que paga 366 000 salários e três milhões de pensões. Mas, se for ver a realidade dos portugueses vê que a maioria dos portugueses ganha mais de 700 euros líquidos por mês, ou seja, é um país pobre. Nós precisamos de dar a volta a isto.

Somos, a nível mundial, um país que tem, na verdade, um nível de desenvolvimento elevado no contexto global, mas no contexto europeu estamos atrás dos outros; se olharmos para o crescimento de Espanha, vemos que a Espanha tem crescido, e ainda bem porque leva por arrasto a economia portuguesa. Nós temos de apostar hoje numa sociedade mais dinâmica, numa sociedade de empreendedorismo, numa sociedade que se liberte das garras do Estado porque o assistencialismo é importante, mas não vai resolver o problema dos rendimentos dos portugueses.

Mas admite que a economia está a crescer, o desemprego está a baixar, o défice está em níveis historicamente baixos, isto não são resultados animadores?

São resultados animadores, mas o país tem uma dívida pública que ultrapassa os 130%, tem um problema fundamental, hoje, de a esquerda estar neste momento a decidir a alteração da lei laboral para tornar isto ainda mais difícil e tem, na verdade, uma conjuntura que é muito complicada do ponto de vista do investimento externo. O que se está a passar, por exemplo, na Autoeuropa é um anúncio para dizer no exterior, "Não venham para cá investir". O problema hoje é que aquilo que era a libertação da austeridade não acontece, ela mantém-se por via dos impostos indiretos, aquilo que era a necessidade de desenvolver o Estado Social, este não está a ser desenvolvido, uma vez que houve as cativações e - é bom explicar isto à população - não houve investimento público; o investimento público não existe, veja-se o que se está a passar a nível do Serviço Nacional de Saúde, veja-se o que se está a passar a nível dos serviços essenciais do Estado, por exemplo, a Proteção Civil. Tudo isto é, na verdade, consequência de quê? Para cumprir o défice não se investiu naquilo que é fundamental nos serviços essenciais do Estado, os cuidados de saúde, o socorro às populações mas, por outro lado, aumentou-se os impostos indiretos.

Portanto, isto é uma troca baldroca, mas para ficar tudo no mesmo. Como dizia o célebre escritor italiano, "É preciso alguma coisa mudar para tudo ficar na mesma".

O que é que entende que Rui Rio, como líder do PSD, deve fazer relativamente à relação com o Partido Socialista? Há quem defenda, e Rui Rio já o disse, até durante a campanha interna, que em matérias verdadeiramente importantes estaria disponível para dar a mão ao PS. O senhor tem essa visão, acha que na atual conjuntura política o PSD deve estar disponível para ajudar o PS sempre que isso se justificar?

Em primeiro lugar, o PSD nos últimos 20 anos tem servido de bombeiro para salvar o país das más governações do PS. O PSD vai para o poder para pôr ordem na casa depois de a casa ter sido destruída, foi assim com o Dr. Passos Coelho.

E acha que vai ser assim com Rui Rio?

O que é fundamental é o Partido Social Democrata fazer uma aposta em que parte da sociedade se reveja. Ou seja, o Partido Social Democrata não é um partido socialista, não é socialista. Tem de apostar no pequeno e médio comerciante, nas novas gerações, nos empreendedores; é preciso uma economia liberta e uma economia dinâmica, apostando também, obviamente, na equidade social e libertando também a nossa sociedade de um poder imenso, tentacular, que está a penetrar em todos os setores da vida portuguesa que é o poder do Estado. Aliás, com uma situação muito mais complicada agora que é a praga do politicamente correto, ou seja, se olharmos neste momento para a sociedade dos anos setenta ou oitenta vemos que eram sociedades muito mais livres do que são hoje; hoje estamos condicionados por um conjunto de censuras e autocensuras politicamente corretas que estão, no fundo, a condicionar inclusivamente a própria liberdade de expressão.

Quer dar um exemplo?

Posso dar um exemplo: se um político ou qualquer pessoa, hoje em dia, toma uma posição, por exemplo, em matéria de costumes é completamente censurado na internet. Hoje em dia, eu estou condicionado, inclusivamente, a usar um vocabulário que determinadas criaturas acham que é o certo. Por exemplo, eu sou um defensor e amigo dos animais, mas não acho que os animais sejam iguais às pessoas. Portanto, nós temos de ter a noção de que estamos a criar uma sociedade claustrofóbica, essa é a primeira questão, devido obviamente a esta situação de pressões de grupos minoritários, de pessoas com disfuncionalidades afetivas que querem impor o politicamente correto e isto é um problema de liberdades, direitos e garantias.

Rui Rio é um político politicamente correto?

Eu espero que não seja. Pelo menos, no Porto não foi. Acho que, hoje em dia, em política há duas coisas essenciais: é preciso coragem física, a política exige confronto, exige dialética, e uma capacidade de resistência e de imunidade relativamente às opiniões públicas, publicadas ou manipuladas é fundamental. É fundamental afrontar o poder instituído do Partido Socialista, afrontá-lo sem medo porque, hoje em dia, com aquela coisa do politicamente correto, uma pessoa diz qualquer coisa de forma perentória e é logo censurada porque está a ser malcriada ou está a falar alto ou a falar baixo. As democracias parlamentares exigem a dialética e o confronto em política e quem vai para a política não tem de fazer acordos, os acordos são exceções em política. Há áreas que devem ser consensualizadas, aliás, uma delas é o Pacto para a Justiça que o senhor Presidente da República defendeu e continua a defender, e bem, mas nós não temos de ter nenhum problema em afrontar.

Há necessidade de olharmos para a realidade do país. Toda a gente diz: "O país está fantástico". Como é que o país está fantástico se quatro milhões e tal de portugueses ganham 700 ou 750 euros líquidos? Está fantástico? Não temos mais ambição? Não era ótimo que estas pessoas ganhassem muito mais? Nós, neste momento, temos de olhar para setores fundamentais da nossa sociedade e fazer apostas de desenvolvimento, de captação de investimento estrangeiro, de internacionalização e de criação de uma rede como por exemplo os irlandeses têm.

Um dos aspetos mais polémicos da campanha interna do PSD teve a ver com a posição que Rui Rio assumiu caso perca as eleições em 2019 ou, de outra forma, caso o PS ganhe sem maioria absoluta. Rui Rio mostrou-se disponível para dar apoio parlamentar a um governo minoritário do Partido Socialista. Parece-lhe um bom princípio, este?

Não, parece-me que não é um bom princípio. A primeira coisa que temos de ter é a noção de ganhar as eleições, a perspetiva posterior, acho que é estarmos a dar algum conforto, alguma liberdade negocial ao próprio PS antes das eleições.

Portanto, posso deduzir antes das suas palavras que se Rui Rio perder as próximas legislativas deve sair da liderança do PSD?

Não, não, o que deve deduzir é que, em primeiro lugar, nós não vamos para eleições para perder, nós vamos para eleições para ganhar. A história de "e se perder" é uma questão posterior, o que nós temos de fazer é uma boa campanha, uma campanha incisiva, que denuncie em termos de democracia e de liberdade de informação aquilo que está mal feito no Governo e aquilo que nos propomos apresentar como alternativa e aproveitar este momento para recrutar novos quadros para o PSD. O PSD precisa de novos quadros, de um pessoal político rejuvenescido para fazer uma oposição acutilante, mas quando estamos aqui a falar de novos quadros não é de técnicos muito bons que não percebem nada de política nem sabem comunicar. Temos de ter pessoas que tenham um discurso anglo-saxónico e objetivo, curto e incisivo e que ponham o dedo na ferida, onde é preciso pôr.

Miguel Pinto Luz escreveu a Rui Rio e disse-lhe que ele não podia viabilizar o Orçamento do Estado do próximo ano. Concorda?

Isso depende de se o Orçamento do Estado contempla ou não contempla aquilo que são as reivindicações do Partido Social Democrata.

Portanto, a sua posição seria manter o voto em aberto até conhecer o Orçamento?

O voto está sempre em aberto, é assim que se negoceia em política. Pode-se aprovar, abster, a abstenção não deixa de ser um valor em política.

Voltando à carta de Miguel Pinto Luz, porque ele toca num tema, que é muito caro sobretudo à Região Autónoma da Madeira, que tem a ver com a descentralização. Ele diz a Rui Rio que o processo de descentralização não pode ser aproveitado para fazer uma regionalização encapotada. Acha que é isso que António Costa está a tentar fazer?

Eu acho que a questão da regionalização é uma questão recorrente em Portugal, mas nós temos de distinguir as duas coisas. Portugal é hoje um país macrocéfalo a nível do litoral, estou a falar em termos de território, eu costumo ir muito ao Alentejo ou a Trás-os-Montes. É um país que tem uma desertificação muito forte no chamado interior; o interior é muito relativo em Portugal porque somos um país com 200 km de largura. O que é que tem havido? Apesar de todos os esforços das câmaras, a verdade é que a política autárquica ou aquilo que tem sido feito, e bem feito, pelas câmaras não é suficiente para fixar a população e evitar a desertificação.

O que acontece hoje é que se for para o interior do país tem uma população envelhecida, tem uma queda demográfica, não tem fixação de pessoas e, onde isso aconteceu, o caso de Évora, o caso de Braga, outros casos em algumas zonas de Trás-os-Montes, foi onde se fixaram universidades. Ou seja, haver clusters - Aveiro, sendo litoral, é um caso - é fundamental; nós devíamos ter feito o que muitos outros países fizeram que foi fixar clusters de investimento de determinadas áreas especializadas no interior, mas isso tem de ser feito em articulação com o Estado e com instituições intermédias, câmaras municipais e outras realidades.

Na verdade, é muito triste uma pessoa chegar a determinados concelhos do interior, por exemplo Alcoutim que é uma zona maravilhosa, no próprio Alentejo, e a população vai envelhecendo, vai morrendo e há aldeias desertas, depois tira-se os Correios, tira-se tudo. É uma pena porque nós devíamos ter um país em que as pessoas, em vez de estarem a viver ali agregadas sem muitas condições à volta das grandes cidades do litoral, podiam estar a viver no interior relativo, em cidades médias, com grande qualidade de vida.

O que é que falhou na estratégia de Pedro Passos Coelho?

Eu acho que Pedro Passos Coelho tem de ser visto como um homem que pegou no país à beira, ou na eminência, da bancarrota. Portugal precisava de 78 mil milhões de euros e esse dinheiro veio para Portugal senão não conseguíamos pagar os salários da função pública, nem o serviço de saúde nem a educação nem coisa nenhuma. Portanto, teve de fazer um acordo com os credores, um acordo com o FMI, com a União Europeia, etc. e isso impôs um conjunto de cláusulas e de condições muito duras. Houve obviamente uma grande coragem e, diria, algum estoicismo na aplicação destas medidas.

E mesmo assim ganhou as eleições.

E mesmo assim ganhou as eleições.

O que é que correu mal daí para a frente?

Não correu mal, depois o Partido Social Democrata, ou seja, a anterior maioria, não tendo sido viabilizado o Governo no quadro parlamentar e as forças perdedoras terem organizado uma solução de governo para o país, a situação de Pedro Passos Coelho ficou, evidentemente, muito difícil. Porquê? Porque Passos Coelho estava formatado ainda como primeiro-ministro, portanto era muito difícil fazer esta reconversão de primeiro-ministro para líder da oposição relativamente a uma maioria que foi constituída contra as expectativas dessa mesma maioria.

Acha que ele era uma espécie de primeiro-ministro no exílio?

De certa maneira. Era uma posição muito difícil, mas não deixo de sublinhar que esta governação, independentemente de terem diabolizado o Dr. Passos Coelho, tinha assinado a intervenção da troika pelo Partido Socialista, o PS viabilizou esta solução. Depois, como nós temos a memória curta e, muitas vezes, os portugueses não gostam de olhar para a realidade, o PS aparece como o grande salvador da pátria, quando o Governo do PS é que levou o país à bancarrota, o seu Governo subscreveu a intervenção da troika em Portugal - não tinha outra alternativa - e, passado pouco tempo, depois de o trabalho duro ter sido feito aparece como salvador da pátria.

Parece que afinal não era a Terra que girava em torno do Sol, mas sim o contrário, o Sol é que girava em torno da Terra; só que isso, normalmente, tem consequências nefastas para a própria evolução do país.

O senhor foi um apoiante de Pedro Passos Coelho desde a primeira hora. Agora, que há uma nova liderança de Rui Rio, está disponível para ajudar Rui Rio e integrar a direção dele, se for convidado para isso, por exemplo?

Eu integro a direção porque os líderes regionais fazem parte da Comissão Política por inerência. Nós aqui na Madeira somos o único centro de poder, estamos aqui cercados, - somos uma espécie de aldeia do Astérix, como costumo dizer - por um imenso e assoberbante poder rosa, ou seja, o partido mexicano do regime está a dominar isto tudo e quer também tomar o poder aqui, portanto nós precisamos de um novo impulso do partido a nível nacional, até para nos ajudar aqui nas próximas eleições.

Vai ao Congresso?

Claro que vou ao Congresso.

Que mensagem é que pretende levar ao Congresso?

Acho que neste momento nós temos de retomar a questão das autonomias e vou dizer isto com grande clareza e grande franqueza: as questões autonómicas, a questão da equidade da justiça nas autonomias e nas ilhas é um pouco como a questão social, se não for tratada vai levar a soluções mais radicais. Nós aqui na Madeira temos tido uma postura de Estado, temos uma postura de diálogo, uma postura de cooperação no sentido de resolver aquilo que são questões essenciais para os portugueses residentes na Madeira. Evidentemente, as expectativas que tinha em relação a este Governo foram um verdadeiro desastre; os poderes do Estado são vistos neste momento não de forma suprapartidária, mas como instrumentos, muitas vezes, para o desenvolvimento de políticas partidárias.

Acha que este Governo está a prejudicar a autonomia da região?

Completamente. Ainda no outro dia veio aqui uma secretária de estado do PS - veio ao Congresso do Partido Socialista - e teve o desplante, a lata, de dizer as maiores mentiras e uma das mentiras foi que o Governo Regional é que estava a atrasar o novo hospital da Madeira, quando o Governo do PS ainda não inscreveu um cêntimo no Orçamento do Estado. Portanto, isto torna-se muito complicado, e torna-se complicado porquê? Porque as questões das ilhas ultraperiféricas são complicadas. Ainda agora tivemos a Guiana, a Guiana esteve a ferro e fogo - eu estive lá na reunião das ultraperiféricas -, com grupos de rua com ocupações de hospitais, ocupações de escolas, porque tem um desemprego de 40%; teve de ir lá o Presidente francês, o Presidente Juncker esteve lá. Porquê? Porque ou encontramos as soluções ou então vai haver forças mais radicais e vão-se extremar posições na questão das autonomias regionais.

Acha que a Madeira corre esse risco?

Se as soluções não forem enquadradas no âmbito institucional corremos esse risco, porque as pessoas não podem aceitar ser tratadas de forma discriminatória. Não há nenhum português que goste de ser tratado de forma discriminatória.

Eu estou a dizer isto porquê? Porque nós temos tido, aqui na Madeira, sempre uma postura de responsabilidade, de tratamento institucional no quadro da nossa Constituição, no sentido de resolver os nossos problemas. Nós nem queremos mais do que os outros, nós precisamos é de ter soluções. E o que é que temos tido agora? Conversa fiada e aquela velha coisa que o Dr. Salazar ia dizendo que era criar comissões para não resolver nada. Criam-se as comissões, vai-se deixando o tempo passar e nada é resolvido. O que eu tenho dito é que, neste momento, é fundamental resolver questões que estão pendentes; por exemplo, a questão iníqua do Tribunal Constitucional que continua a ter posturas napoleónicas, de um centralismo absoluto, relativamente, por exemplo, à sobretaxa do IRS. Acabou a sobretaxa do IRS e os madeirenses continuam a pagar, e porquê, se nós já saímos do plano de ajustamento? Inventam justificações absurdas para continuar a penalizar os nossos impostos.

A solução da mobilidade aérea continua por resolver quando, ao fim de seis meses da aprovação da lei, devia ter sido resolvida. Há justificação para um pai de família residente na Madeira estar a adiantar, devido aos preços exorbitantes que a TAP pratica - companhia nacional, de maioria nacional -, 500 ou 600 euros à TAP se tem dois filhos a estudar em Lisboa? Acha que isto é normal? Nada disto é normal. Há casos e já houve de jovens que ficar nas férias do Natal em Lisboa porque o pai não consegue adiantar o dinheiro e esta é uma questão que tem de ser resolvida. Andamos há dois anos para resolver isto.

A história da mobilidade marítima também não existe, por exemplo, a Espanha apoia a mobilidade marítima entre as ilhas, tem um navio que é apoiado pelo Estado. É preciso levar em conta que Portugal tem hoje 3 700 000 km² de plataforma continental, uma das maiores do mundo, que é a nossa segunda maior riqueza a seguir aos recursos humanos, uma plataforma continental imensa, uma riqueza fundamental para o futuro, graças à dimensão arquipelágica. Ora, gasta-se dinheiro em tanta coisa e não se tem dinheiro para apoiar um navio de passageiros de ligação entre o continente e as ilhas. Acha que isto é normal? Não, não é.

Parte do sucesso de Rui Rio depende de si e do resultado que o senhor conseguir nas regionais do próximo ano; nas últimas teve uma maioria absoluta. Continua a ser essa a sua fasquia?

As eleições são daqui a algum tempo, são no próximo ano, e o nosso objetivo é ganhar as eleições com maioria absoluta, aliás é importante ganharmos com maioria absoluta porque é bom que os governos aqui na Madeira tenham maioria absoluta porque é muito mais fácil governar. Tenho tido algum contacto com o meu colega de Canárias que não tem maioria absoluta no Governo, e ele passa horas e horas ao telefone, pois qualquer decisão tem de ser negociada, é um processo moroso e um processo complicado. Mas, obviamente, o quadro de solução governativa é aquele que os madeirenses e os porto-santenses decidirem. Nós estamos disponíveis para governar em função do resultado que os eleitores decidirem.

Mas a perspetiva neste momento não é muito animadora para o seu lado, há uma sondagem que, pela primeira vez, coloca o Partido Socialista à frente do PSD na Madeira. O que é que lhe está a correr mal?

Neste momento, eu acho que devemos ter alguma noção de que tivemos e estamos a ter um processo de governo de recuperação económica e social, com baixa do desemprego, etc., etc. Houve, de facto, as eleições autárquicas onde a maioria dos presidentes de câmara que não eram do PSD foi reeleita, como acontece em 98% das câmaras, mas acho que ainda é muito cedo para o Partido Socialista deitar os foguetes. O PS fez o Congresso, já deitou os foguetes, já apanhou as canas, mas as eleições são só daqui a uma ano e meio.

O foguete do Partido Socialista chama-se Paulo Cafôfo?

Seja quem for, não tem nenhum problema, porque nós vamos às eleições sempre para ganhar.

Não tem medo de Paulo Cafôfo?

Não tenho medo nenhum, medo nenhum.

Mas admite que é um candidato forte que o Partido Socialista conseguiu convencer?

É um candidato que representa o fracionamento e a divisão do PS e representa outra coisa, representa também além disso, a circunstância de hoje o PS não ser governado pelos órgãos locais, ser governado a partir de Lisboa.

Acha que é António Costa que está por trás da candidatura de Paulo Cafôfo?

Eu acho que é o Partido Socialista de Lisboa que engendrou esta solução de barriga de aluguer para tomar o poder na Madeira, vamos ver se consegue.

Acha que não vai conseguir?

Acho que não.

Não teme que os madeirenses estejam a perder a confiança em si e no PSD?

Há muitos anos que eu concorro a eleições, mas acho que, neste momento, o caminho que estamos a percorrer é um caminho positivo para a Madeira, acho que as pessoas têm a noção disso. Nós saímos do plano de ajustamento, hoje a Madeira está a crescer há 53 meses em todas as valências da sua economia, o desemprego baixou; quando cheguei ao Governo tínhamos um desemprego de 15,8%, hoje está em 9,8%. Temos todos os investimentos em infraestruturas que estão a ser realizados e, por conseguinte, estou perfeitamente tranquilo porque, na verdade, nós vamos mais uma vez cumprir aquilo que são as nossas promessas e os nossos compromissos com os madeirenses.

Não deixa de ser irónico que a oposição agora o acuse de ser uma espécie de remake da governação de Alberto João Jardim, com a aposta que o senhor está a fazer em grandes obras públicas e naquilo a que a oposição chama "investimento do betão". O senhor, que foi um crítico de Alberto João Jardim sobretudo na fase final do mandato dele, admite que está a usar a mesma estratégia ou não?

Eu nunca fui contra o investimento público, isso não é verdade. Se me perguntar que tipo de investimentos públicos é que nós estamos a fazer, eu acho que é importante que esses investimentos sejam feitos, na reabilitação do património, nas infraestruturas de saúde, nas escolas. Nós estamos agora a construir duas escolas na Madeira fundamentais, mas quando vai ao parlamento e pergunta aos tais líderes da oposição se são contra essas escolas nos concelhos, eles não assumem isso, porque perante a população dos concelhos acham que as escolas são essenciais. Por exemplo, ainda agora reabilitámos duas capelas do séc. XVI no concelho de Machico, que é um concelho que o PSD governa. É uma igreja matriz do tempo, quase, da descoberta da Madeira, essa reabilitação é uma obra pública, ninguém é contra. Tudo isto tem de ser contextualizado numa vertente local.

Mas isso é um slogan e sabe que, hoje, os slogans pegam da mesma forma que a difamação pega e, depois, há agora um novo modelo que eu acho detestável, que é o mandar mensagens, o pôr perfis falsos na internet e nas redes sociais. Uma pessoa hoje não pode governar para as redes sociais, no dia em que começarmos nesta moda - e há muitos políticos que já estão a começar -, vamos cair numa coisa que é terrível e que vai levar à decadência das democracias, que são os populismos. Vai haver eleições agora em março em Itália e a Itália que foi um país fundador da construção europeia corre o risco de cair num governo anti-Europa, e isto está a surgir de uma forma acelerada nas nossas sociedades devido também à responsabilidade dos próprios políticos tradicionais. Os políticos tradicionais dos partidos fundadores do estado social e da democracia para se fazerem também populares, para a popularidade fácil, continuam a usar estas formas de manipulação, de desinformação e de ignorância. Estas novas metodologias populistas têm sempre consequências más.

A sua relação com Alberto João Jardim está reabilitada?

Eu estou farto de dizer isto: nunca tive nenhuma questão pessoal com ele.

Tinha uma questão política?

Uma questão política. Na altura achei, e bem do meu ponto de vista, que deviam existir eleições no partido, que a liderança devia mudar e foi isso que aconteceu, as eleições foram feitas, ganhámos e ainda bem que ganhámos. Houve um Congresso democrático. Hoje, aqui, o nosso relacionamento é um relacionamento normal, institucional.

Não deixou marcas, esse processo?

Não, isso está ultrapassado.

Acha que ele ainda tem alguma coisa a dar à política?

Tem, com certeza que tem. Tenho imensa pena, porque acho que ele, na altura - não quer dizer que já não esteja a tempo -, devia ter ido para um cargo na Europa porque era importante para o país, até pelo papel que ele desempenhou quer no Comité das Regiões quer nas Ultraperiféricas teve um papel muito importante e acho que é um homem que podia dar um contributo muito importante, podia e pode.

Como eurodeputado?

Como eurodeputado ou mesmo num cargo de um lugar político na Europa. Devemos aproveitar os políticos com experiência política, com obra feita, como ele tem, e acho que isso era importante para dar um contributo para o desenvolvimento e para a projeção internacional do país. Eu vejo alguns dos indivíduos que têm sido nomeados e que não valem absolutamente nada, são aqueles bluffs que têm um grande currículo, mas nunca fizeram nada. Não preciso de enunciar nem explicar o que estou a dizer.

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