Quem quer voto secreto mete a mão no ar. Filme de uma noite de clarificação e fantochada

Um desafio de Montenegro a Rio, um "não" redondo às diretas como resposta e uma moção de confiança para acabar com as dúvidas. A noite em que escolher o melhor método para demonstrar confiança em Rio foi o maior drama.

Foram dez longas horas de espera. Houve "fantochadas", abraços entre arqui-inimigos e até a (muito próxima) presença do homem que desafiou Rio para um duelo e que estava a "meia dúzia de minutos a pé", mas acabou por não arredar pé para o Conselho Nacional do PSD.

A novela dos votos tomou conta da reunião. Voto secreto ou voto de braço no ar? A dúvida percorreu as longas horas do Conselho Nacional. Os apoiantes de Luís Montenegro insistiram no voto secreto e criticaram duramente o presidente da mesa do Conselho Nacional, Paulo Mota Pinto. As palavras mais duras surgiram por parte de Pedro Pinto, líder da distrital de Lisboa, horas depois de entregar um requerimento a pedir a votação secreta.

"A fantochada tem limites, o receio tem limites e estão a ser ultrapassados todos os limites em democracia (...) Quem está tão agarrado ao braço no ar é porque tem alguma coisa a temer", atirou o social-democrata, acusando "aquele grande membro e jurista do Tribunal Constitucional" - Paulo Mota Pinto - de, passado várias horas, "ainda não [ter conseguido] saber qual é a posição dele acerca desta matéria".

Também Hugo Soares, apoiante de Montenegro, levantou a bandeira do voto secreto e anunciou durante a noite que o conselho de jurisdição iria ser chamado a intervir para se pronunciar sobre o voto.

O clímax da noite chegou quando Rio interveio e defendeu, ainda que admitindo que ia contra os seus princípios, o voto secreto. O líder do PSD parecia decidido a não dar espaço aos críticos para contestarem o resultado final, fosse ele qual fosse. Como se esta história não estivesse já suficientemente estranha, eis se não quando o Conselho de Jurisdição se dirige à mesa para expor o seu parecer favorável ao voto secreto. Como a resposta foi uma "tampa" do presidente da mesa, os elementos deste conselho decidiram abandonar a sala.

Nada parecia demover Paulo Mota Pinto da votação de braço no ar. Nem os requerimentos, nem os pareceres jurídicos, nem tão pouco o discurso de Rio. À falta de melhor opção, o presidente da mesa do Conselho Nacional decidiu obrigar os conselheiros a votar...de braço no ar...para decidirem se queriam voto secreto.

Longe da sala do conselho, os jornalistas conseguiram, ainda assim, ouvir os assobios de protesto contra a decisão de Paulo Mota Pinto. A correria escada acima, só foi interrompida pelos seguranças que impediram os repórteres de chegar mais perto. A espera não foi muito longa, uma vez que logo de seguida saía da sala o Conselho de Jurisdição. Para trás deixavam um ambiente tenso, com alguns insultos, berros e onde quase se chegou a vias de facto (leia-se estaladas).

Até que, chegou a hora da verdade: 78 conselheiros levantaram o braço, para que 75 votassem secretamente a favor da moção de Rui Rio. 50 votaram contra e um ficará para história por ter sido considerado nulo.

Apoios, mas poucos. Tema era (mesmo) outro

À chegada ao Hotel Porto Palácio contavam-se espingardas entre apoiantes de um e do outro lado, mas o tema principal já era o da forma de votação. Poucos anteviam as nove (e meia) longas horas às quais o partido assistiu até votar a moção, mas foi ainda antes das 17h00 que o tema quente da noite começou a liderar aquele que acabou por revelar-se o verdadeiro debate.

A decisão da votação, essa, caberia sempre ao presidente da mesa, Paulo Mota Pinto, que como Elina Fraga, vice-presidente de Rui Rio, fez questão de reforçar "é aceite como um dos juristas mais prestigiados que temos no país", tendo sido juiz do Tribunal Constitucional.

Se Paulo Mota Pinto estivesse a ouvir as considerações de cada um à chegada ao hotel, teria voltado à estaca zero com a chegada de Paulo Rangel. O eurodeputado social-democrata foi claro ao dizer que a votação da moção de confiança deveria ser feita de "forma pública", isto porque esse exercício é um "juízo político", feito por pessoas eleitas pelos militantes do partido.

Foi com as opiniões polarizadas que Rui Rio chegou ao Hotel Porto Palácio. Se alguém estava à espera que o líder do partido pudesse fazer incidir alguma luz sobre a forma como seria votada a confiança nele próprio, depressa terá percebido que tal não ia acontecer quando as seguintes palavras saíram da sua boca: "nem tenho direito a voto, o Conselho Nacional há de decidir." Mais tarde, o próprio acabou por apelar, contra os seus princípios, ao voto secreto.

Certo é que Rio iria, de facto, ver a confiança do partido em si ser alvo de escrutínio e no que dizia respeito a essa votação, o diretor de campanha de Rio, Salvador Malheiro, expressava a certeza de que o atual líder do PSD sairia reforçado deste Conselho Nacional.

Paulo Mota Pinto já ganhava um relevo pouco provável nos momentos que antecediam o início da reunião, mas até aqui ainda ninguém tinha visto o presidente da mesa deste Conselho. Eram exatamente 17h - hora marcada para o início da reunião - quando o próprio chegou ao local. Mas também não foi nesse momento que a dúvida sobre as votações - ou sobre o que fosse - ficaram dissipadas: Paulo Mota Pinto levantou a sua credencial e não falou.

Quem falou sim foi Pedro Alves, o líder da distrital de Viseu, que trouxe de novo consigo a questão da noite, à qual acrescentava novos dados: para os apoiantes de Rui Rio a questão do voto nominal era decisiva, para o lado de Montenegro era determinante. A esperança? Paulo Mota Pinto, um "democrata" de quem Pedro Alves tinha esperança que viesse a surgir a decisão de optar pelo voto secreto, "a única forma que conheço para que um democrata possa exercer o seu direito de voto de forma livre."

A fechar as declarações à entrada da reunião esteve Miguel Albuquerque, líder do Governo regional da Madeira, que trazia palavras quase proféticas: "o partido tem de comunicar melhor." Mal sabia Miguel Albuquerque (e toda a gente).

Um abraço emocionado entre (ex-)inimigos

Um abraço naquele ponto de encontro. Demorou, houve rivalidades, desencontros, desentendimentos mas, num momento difícil e delicado para Rui Rio, Luís Filipe Menezes apareceu no Conselho Nacional, discursou mostrando apoio ao líder do PSD e, no final, já na rua, surgiu aquele abraço que deixou Rio emocionado.

O antigo líder social-democrata não esqueceu a amizade com Luís Montenegro, considera mesmo que o ex-líder da bancada parlamentar "tem condições para um dia, e até hoje se as condições fossem outras, ser líder do PSD".

Porém, não é a hora, até porque Menezes, defende, não se movimenta por "amiguismos nem por ódios e vinganças", quer apenas o melhor para os filhos, netos e para o país.

"Em coerência, acho que nesta altura devemos cerrar fileiras à volta do líder do partido, ajudá-lo a arrepiar caminho numa ou noutra coisa, tirar-lhe do lado alguns maus amigos que não o ajudam em coisa nenhuma, só se querem vingar através de Rui Rio de um passado de que não gostaram", reforçava o social-democrata ainda antes da moção de censura.

Apesar do apoio, dos sorrisos e do abraço, Luís Filipe Menezes foi premonitório: "Enquanto eu acreditar que faz as coisas por convicção, o senhor terá o meu apoio até à vitória nas legislativas".

Tão longe... e ali tão perto

Montenegro acabou por ficar tão longe, mas ali tão perto. O homem que desafiou Rio a ir a eleições antecipadas e que instalou a discórdia no seio do PSD estava a meros 500 metros do hotel onde a confiança no seu adversário era sufragada.

Durante a tarde, Montenegro já tinha informado os eventuais interessados que estava a "menos de meia dúzia" de minutos a pé do local onde o Conselho se reunia. Bastava um convite e Montenegro apresentava-se para falar... mas a mesa não autorizou e o convite não chegou mesmo.

Terá sido num ambiente bem mais calmo - talvez até num sofá - que Montenegro assistiu, de fora, ao desenrolar da verdadeira "novela" que foi o Conselho Nacional do PSD. Isto quando estava ali, mesmo ali, a "menos de meia dúzia" de minutos. A pé.

Para já, fica prometida a reação daqui a poucas horas: é às 12h que Montenegro reage ao resultado da noite de Conselho, que reforçou a confiança em Rio.

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