
André Rolo (arquivo)
Talvez seja excesso de optimismo suspirar por paraísos perdidos, por tempos em que se debatia no espaço público com rectidão e profundidade em busca de chegar ao bem comum, ao invés de ganhar um argumento. Suspeito que os amanhãs que cantam tenham o seu contraponto, também utópico, nos ontens que cantaram. Ou seja, amanhã ou ontem, a utopia é sempre um pouco mais longe.
Em todo o caso, há a esperança de termos perdido alguma coisa, de já termos sido outros - mais perto de anjos do que de bichos. Embora eu saiba que as almas puras são ficções, também sei que, algures entre o ideal e a falha, é melhor falharmos o mais perto possível da meta.
O espaço público, hoje em dia tão amplo, tão cheio de gente, fecha-se cada vez mais num nó de desconfiança, de suspeita, de acusação imediata. De um ressentimento profundo nunca verdadeiramente explicado, salvo por estranhos processos mentais que não nos dizem respeito: misturas de política, infâncias perdidas, contas bancárias e questões de cama. Isto vestido de moralismo e de indisfarçável má-educação.
Sendo notório que ninguém passa incólume pelas redes sociais, estamos fartos de o saber e fartos de nos escandalizarmos - vivemos um grau acima da tranquilidade. Mas também é notório que esse estado de sítio saiu das caixas de comentário para se estender à opinião publicada e sobretudo ao comentário televisivo, o grande palco da política de entretenimento. Qualquer debate precisa de um vencedor e de um vencido, de um arrasador e de um arrasado, de um humilhador e de um humilhado. Qualquer confronto é um combate, e qualquer combate uma luta de morte.
Enfim, perde-se a maravilha adversarial que é o diálogo. E sobretudo se perde o que Martin Desrosiers descreve no seu ensaio A Arte de Não Ter Sempre Razão, agora publicado pela Zigurate. Era aqui que eu queria chegar. Perde-se a verdadeira construção interior do nosso intelecto, do nosso carácter. Trata-se de um jardim sem-fim que temos de cuidar com abnegação e humildade na escola de Montaigne, filósofo-paixão que o autor usa como exemplo de um intelecto temperado mas aguerrido, seguro mas aberto à opinião alheia. Quer dizer, o filósofo que Martin Desrosiers usa como um bálsamo para a nossa convivência e, mais do que isso, como exemplo para a edificação do intelecto.
Quando vejo comentadores como Rodrigo Taxa ou Bruno Nunes, mais do que o escândalo - justamente o efeito que eles querem ter em nós -, sobrevem a imagem de uma pedra atirada a um poço que podia ter sido usada numa construção. Quer dizer, a massa daquela gente também é a minha, a nossa, somos feitos irmãos no bom e no mau.
Mas esses, de uma berraria infinita que não pretende dialogar, tão-só ganhar o argumento, ou melhor, aparentar vitória, esses, e tantos outros que têm feito escola, atiraram as suas capacidades para um sítio escuro. O sítio onde as pessoas têm sempre razão.
O autor não escreve segundo as normas do novo acordo ortográfico