
André Rolo (arquivo)
"A próxima sou eu", disse-me ainda agora a vizinha do primeiro andar. "Já ninguém me quer aqui, a próxima sou eu" - e espreitava para a casa do homem enquanto, lá dentro, os bombeiros, a polícia e as funcionárias da Santa Casa faziam o silêncio de quando morre alguém.
É assim esse silêncio, cheio de meias palavras, caído sobre os móveis, e próximo da sensação de que agora nada muda sozinho. De que agora tudo é um pouco sagrado: os pertences de quem morreu, os papéis, as camisas penduradas na porta do armário, os sapatos alinhados no corredor, um calendário com paisagens. Tudo na casa falava a voz do morto.
Eu pus-me de plantão no patamar, eu e a vizinha que dizia ser a próxima, à medida que as portas se iam abrindo e o prédio inteiro a perguntar o que se passava com o Sr. Fernando. As duas funcionárias da Santa Casa queriam saber quando o tinha visto pela última vez. "Ouvi-o falar com os bombeiros há dois ou três dias, a minha mulher viu-o a subir a rua com compras antes do Natal", respondi-lhe.
Depois apareceram mais vizinhos. Entre uns e outros, o homem surgiu de novo, descrito de boca em boca. Há quatro dias, foi para o hospital e voltou irritado, como sempre conflituoso. Fechou-se em casa e só saiu mais uma vez à procura de comida. Bateu à outra porta do primeiro andar para pedir sopa, repetia que queria sopa, não queria hospital. A vizinha deu-lhe um prato, disse-lhe que era melhor o hospital. O homem recolheu ressentido e à espera que lhe fizessem mal.
Não sei quanto tempo ficou em casa, queixoso e sozinho, à espera que lhe fizessem mal. Mas esperou o tempo suficiente para não ser preciso esperar mais. A vizinha que lhe deu a sopa diz que não vale a pena baterem mais à porta. Sempre que havia movimentos no patamar, o homem costumava berrar do outro lado da porta. "Não batam mais, entrem pela janela", insistiu ela, mas ficou surpreendida quando os bombeiros e a polícia e as funcionárias da Santa Casa constaram o que já suspeitava.
Na rua, a ambulância chega sem sirene, o camião dos bombeiros continua com as escadas lançadas até à janela, e as pessoas agem com cerimónia. Até as comunicações por Walkie Talkie chegam numa frequência de salmo, como se encomendassem a alma do homem.
A certa altura, alguém diz "É assim, é assim", e aos poucos, antes que se dê a saída que comprova, sem qualquer dúvida, que é assim, é assim, os vizinhos dispersam e as escadas íngremes e estreitas ficam livres.