"Baterias reforçadas." Presidente da Câmara de Leiria confessa-se "privilegiado" apesar da "missão" para reerguer o concelho

O presidente da Câmara Municipal de Leiria, Gonçalo Lopes
Créditos: Manuel de Almeida/Lusa
Gonçalo Lopes não sofreu danos significativos em casa, mas garante que isso ainda lhe dá mais força para levantar Leiria. Uma semana depois da passagem da tempestade Kristin, a TSF quis saber como tem sido a vida do presidente da câmara de uma cidade praticamente destruída
Os dias começam cedo, sempre às 08h00, e nunca têm hora para terminar. De manhã, é importante ver as notícias e fazer contactos, nomeadamente, com as freguesias, para perceber quais as necessidades mais imediatas às quais é urgente atender. De tarde, sai para o terreno.
É uma espécie de corrida contra o tempo, em que uma das funções que o autarca entende ter é "dar energia" para que, quem perdeu tudo, "não perca potência".
"Tenho umas baterias reforçadas", afirma Gonçalo Lopes, que, por estes dias, busca forças "no movimento solidário que tem ajudado tanto" a região.
O presidente da câmara vive no centro da cidade. Talvez, por isso, não teve danos de maior em casa e, até na rua, a sorte esteve do lado dele. "O meu carro fica sempre na rua, ao pé de uma árvores. Todas as árvores caíram, menos essa." Uma sorte "dentro deste azar todo", que o faz sentir-se um "privilegiado". Ainda assim, "sinto os problemas de quem não tem água, nem luz", quer que aquilo que tem agora, "rapidamente os outros também tenham".
E para os muitos a quem o temporal levou tudo, ou quase, seria importante haver ajuda psicológica. Mas Gonçalo Lopes confessa dificuldades em avançar deste já com este tipo de apoio.
Por um lado, a falta de luz dificulta a identificação de todos os casos. Por outro, o facto de haver muita gente dispersa por um grande número de aldeias, tornaria necessário "quase um batalhão de pessoas para ir quase porta a porta". Vai ter de ficar para mais tarde.
O presidente da Câmara de Leiria defende que esta catástrofe deveria ser "um exemplo" para o país, no que respeita à Proteção Civil. Também, por isso, o mandato que começou em outubro, tornou-se ainda mais importante: "É a missão de uma vida."
Após a passagem da depressão, Gonçalo Lopes procurou aprender com tragédias como a do Katrina, o furacão que devastou Nova Orleães, em 2005, e concluiu que uma prevenção rápida é decisiva, mas ainda há quem não compreenda isso.
O autarca dá o exemplo do agricultor que não queria guardar o trator novo num ponto mais alto, com receio de que o roubassem, ou do proprietário que não aceitou colocar uma torre de eletricidade no seu terreno.
"Estamos em calamidade, isso é para resolver, ponto final!", afirma. "A pessoa não tem noção da importância da montagem dessa torre, só está a pensar em si. É o sentimento de egoísmo que vivemos atualmente."
E Gonçalo Lopes conclui com um receio, recuando até aos tempos da pandemia.
"Durante a Covid-19, o povo mostrou-se solidário; a seguir, ficámos piores, tornámo-nos muito mais individualistas (...) neste momento, toda a gente quer ajudar; depois de passar, vamos voltar ao mundo egoísta."