Catástrofes expõem fragilidades e impõem resposta estrutural em Portugal, defendem especialistas
Maria Ramos Santos com Manuel Acácio
Os especialistas defendem que é preciso "pensar seriamente" na prevenção de catástrofes naturais e repensar a gestão do território, perante um cenário inevitável de alterações climáticas e com elevado "nível de perigosidade". As consequências das intempéries que têm afetado Portugal desde 28 janeiro são visíveis e, por isso, no Fórum TSF desta quinta-feira não sobraram dúvidas de que é preciso encarar a situação como uma oportunidade, para resolver problemas antigos e corrigir fragilidades.
"Temos de reconstruir com mais resiliência e resistência aos impactos e aos desastres naturais. Nós não podemos alterar a perigosidade destes desastres,(...) mas podemos reduzir e diminuir a vulnerabilidade e o impacto da exposição à perigosidade [que representam as alterações climáticas]", defendeu o engenheiro Jorge Cristino, especialista em questões de ambiente.
Em concordância, também o ex-secretário de Estado do Ambiente Joaquim Poças Martins considerou que "situações destas requerem respostas adequadas para que as próximas já não sejam emergências, mas sim rotinas".
"Temos de ser, de facto, mais resilientes, mas também muito concretos", afirmou.
Para o engenheiro Joanaz de Melo, uma das prioridades é, por exemplo, "pensar seriamente" em "renaturalizar áreas do território que têm a função de funcionar com controlo de cheias".
"Uma floresta num estado próximo natural, ou uma zona húmida, funciona como um sistema natural de controlo e redução da dimensão das cheias, porque funciona como uma esponja: absorve água quando há muita chuva e liberta água durante o período de estiagem. Isso é a maneira como naturalmente o sistema funciona", explicou, sublinhando que as autoridades "não têm deixado o sistema funcionar dessa maneira".
Dezasseis pessoas morreram em Portugal na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
A décima sexta vítima é um homem de 72 anos que caiu no dia 28 de janeiro quando ia reparar o telhado da casa de uma familiar, no concelho de Pombal, e que morreu a 10 de fevereiro, nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC).
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas. Na quarta-feira, um troço da Autoestrada 1 (A1) desabou na sequência do rompimento do dique nos Casais, em Coimbra. Porquê? O ex-bastonário da Ordem dos Engeneiros explicou também no Fórum TSF desta quinta-feira.
Tabuleiro da A1 não foi pensado "para situações de catástrofe"
"Aquele talude não estava dimensionado para ter um processo erosivo na sua base e esse processo erosivo foi de umas fortes correntes induzidas pela água proveniente daquela rotura do dique no leito periférico direito", explicou Carlos Matias Ramos.
"Quem fez o projeto fez o que tinha de fazer, mas não considerou situações de uma catástrofe como esta", acrescentou.
Carlos Matias Ramos referiu ainda que "a ponte não cai, porque está fundada em estacas". "Está transmitida toda a carga da estrutura a uma fundação adequada. Portanto, o que está em causa é o aterro do encontro que foi induzido por ação desse escoamento", concluiu.
O colapso do dique para a margem direita do rio Mondego agravou o risco de cheias em Coimbra.
O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
