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À TSF, João Labrincha, um dos organizadores da manifestação Geração à Rasca, defende que um movimento "inorgânico" como este é irrepetível neste momento em Portugal, sobretudo porque as redes sociais "aprenderam" desde então a treinar os algoritmos para impedir que "se organizem coisas deste género"
Há 15 anos, uma "Geração à Rasca" saía à rua para reivindicar melhores condições de vida e laborais. Volvidas quase duas décadas, estas exigências não só não foram cumpridas como ainda se "aprofundaram". Com o aumento da precariedade, é hoje ainda "mais visível" a incapacidade dos portugueses em comprar casa, uma condição que a "contrarreforma laboral" agrava.
Pouco depois das 15h15 de 12 de março de 2011, 300 mil pessoas, um pouco por todo o país, saíram às ruas para contestar a precariedade, a instabilidade laboral e os baixos salários. João Labrincha, um dos organizadores da manifestação Geração à Rasca, recorda na TSF o dia em que a multidão parecia não ter fim.
"Nós dissemos ao senhor da polícia que estava conosco que, se calhar, até íamos ali pela faixa lateral da Avenida da Liberdade. E ele responde-nos que "não, neste momento há pessoas a correr de todo o lado". E nós realmente começámos a ver pessoas a correr de todo o lado e estão os pelos a arrepiar-se neste momento", confessa.

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Depois de descrever a "primeira imagem" que lhe vem à cabeça quando pensa no dia 12 de março de 2011, João Labrincha reflete sobre a década e meia que passou e estabelece um paralelismo com o momento atual vivido em Portugal. Uma das medidas adotadas após o Geração à Rasca impôs um limite às renovações dos contratos a prazo. Mas, com a "contrarreforma laboral" levada a cabo pelo Governo, o país está a recuar.
"Voltamos ao antes da Geração à Rasca. Aquilo que as pessoas pediram na rua acabou por não melhorar, mas antes por se aprofundar. Existe mais precariedade hoje e existe uma coisa que já começava [a haver] na altura, mas que agora acho que ainda é mais visível: nós trabalhamos muito, às vezes temos dois e três empregos e não conseguimos pagar uma casa. Isso já era difícil na altura, especialmente em Lisboa e no Porto; agora espalhou-se a todo o país", lamenta.
Por estas razões, João Labrincha defende que não faltam motivos para uma nova manifestação com a mesma expressão que teve a Geração à Rasca. Assume, porém, a crença de que uma manifestação "inorgânica" como esta é irrepetível neste momento em Portugal e explica porquê.
"As redes sociais aprenderam, com as manifestações que nós organizamos em Portugal e em Espanha, a não deixar que os algoritmos permitam que se organizem coisas deste género. Logo à partida, com a forma como as redes sociais hoje estão organizadas, já não seria possível", esclarece.
João Labrincha junta-se agora à vasta lista de portugueses que emigraram à procura de uma vida melhor. Há dois anos a viver na Bélgica, neste 12 de março, junta-se a uma greve geral convocada contra o "pico da austeridade" enfrentado no país.
"O Governo daqui está a aplicar medidas de austeridade draconianas, os trabalhos estão a ficar cada vez mais precários. E eu estou na rua. Hoje é dia de greve geral, estou em Bruxelas, numa manifestação gigantesca, muito parecida com a da Geração à Rasca, provavelmente meio milhão de pessoas também na rua. As pessoas estão a mostrar que aqui ainda há um pouco de esperança, como havia em Portugal", remata.
