Enxurrada afeta moradores e submerge parte do Ecomuseu da Fábrica da Pólvora em Vale Milhaços

Créditos: André Luís Alves
Desde quarta-feira à tarde que a água e a chuva, da Depressão Kristin não dão tréguas aos moradores da Avenida da Antiga Fábrica da Pólvora em Vale Milhaços, no concelho do Seixal, distrito de Setúbal
Ao fundo da avenida inundada, a antiga Fábrica da Pólvora, com a sua chaminé industrial, que faz parte do Ecomuseu do Seixal desde 2001. A antiga indústria foi classificada como monumento de interesse público em 2012, e em 2021 parte integrante do Plano de Valorização da Biodiversidade no município.
No sábado à tarde, um dos edifícios da antiga fábrica ainda está inundado, submerso cerca de dois metros, cobrindo metade das janelas industriais da fábrica, que remonta ao final século XIX. Todo o interior do museu e as máquinas centenárias do polo pós-industrial estão submersas. As perdas materiais são certamente avultadas, em particular no núcleo museológico ainda não quantificadas.
"Venha ver, se acha que na minha casa está mal, ali na fábrica parece um piscina olímpica", diz Célia Duarte, uma das moradas afetadas pelas cheias. A sua vizinha, também com a casa inundada, diz que o nível da água subiu de forma repentina na tarde de quarta-feira. "Foi tudo em minutos, ia sair para o trabalho e só tive tempo de tirar alguma roupa e sair", relata Lúcia Duarte, com o mesmo nome de família mas sem laços familiares.

Ambas estão sem casa e a pernoitar na casa da filha de Célia na Costa da Caparica. A filha de Célia perdeu carro que estava estacionado no jardim à entrada da moradia com vários anexos. "É terrível. A minha filha ainda está pagar o empréstimo do carro. Custou-lhe 15 mil euros. Não sei quando vamos reaver o que quer que seja, ou receber algo dos seguros", lamenta Célia. O carro branco está metade submerso desde primeiro dia.
Os moradores dizem que os bombeiros vieram logo na quarta-feira mas na prática não fizeram nada. "Viram a situação e foram embora. Depois disso nada mais. Sentimo-nos abandonados", comenta consternada Célia.

Narciso, de 71 anos, marido de Lúcia, diz que a torrente de água que veio aqui desaguar, e corre com intensidade da fabrica na Antiga Fábrica da Polvora, deve vir do aterro sanitário mais acima. "Havia ali em cima um areal onde agora é o aterro, que é da câmara, e o escoamento não deve estar bem feito, ou dimensionado para estas chuvas. Como pode ver aqui, perdemos quase tudo dentro de casa", desabafa, enquanto se vê a água correr com violência conquistando mais terra dentro do eucaliptal que depois vai dar à sua casa, com a porta de entrada meia de água, qual espelho de água doloroso.
Narciso vive aqui há 30 anos e confessa nunca ter visto nada assim, ou sequer tido qualquer problema com cheias. O seu filho, de galochas, tenta entrar dentro de casa mais um vez para tirar mais roupa porque a situação parece que não se vai resolver em breve.

Uns minutos depois passa um carrinha da Câmara Municipal do Seixal. O condutor pergunta a Célia, que está na rua em frente à sua casa alagada e de portas abertas. "Foi aqui que pediram para recolher resíduos sólidos?" "Sim, mas como pode ver esse é o menor dos meus problema. Já viu esta água? Tenho a casa inundada. E a Câmara não faz nada", responde Célia. "Onde vivo, perto da AutoEuropa, está ainda pior. Está tudo muito complicado e nós não temos capacidade de resposta. Estamos a correr a atrás do prejuízo", responde o piquete de recolhas de resíduos sólidos.
Lúcia alerta que o eucalipto atrás de sua casa é um perigo. "Aquele eucalipto atrás de nossa casa ainda não caiu por milagre. É uma ameaça que paira sobre nós. O meu marido conseguiu tirar as botijas do gás para que tragédia não seja pior ainda." Narciso explica que foi o vizinho, da casa de trás, também alagada, que cortou parte do eucalipto no passado verão, o que tornou a situação mais segura, apesar de tudo.

A habitação deste vizinho, emigrante, está fechada e parcialmente submersa na água castanha do barro que corre insistentemente e escoa pelas boca de esgoto sem tampa há dias. Os muros das casas já cederam.
Esta quarta-feira, uma semana depois da ocorrência inicial, a Proteção Civil do Seixal fez obras de canalização das águas que já estavam a destruir o alcatrão das estrada de tinha desabado parcialmente.

Foi destruído alcatrão com retro-escavadoras para escoar o curso de água. Um dos técnico superiores no local explicou à TSF que foi construído um talude com sacos de areia, que fazem dique, e canalizam o caudal de água para a caixa de esgoto da avenida fazendo uma ligação directa à conduta. A água é, assim, escoada para a conduta subterrânea. A manobra foi eficaz e a rua está seca e o nível das águas nas casas afetadas está baixar. O técnico superior explica que a situação até sexta-feira pode alterar-se. As obras continuarão na quinta-feira de manhã com a equipa da proteção civil no sentido de permitir aos moradores que voltem às sua casas ou pelo menos lá consigam entrar. As previsões atmosféricas mostram que as chuvas se mantêm até sexta-feira.
