Estatuto do Jovem Pescador: "Os velhos vão morrendo e os novos não querem a pesca"

Créditos: Rui Manuel Fonseca
Em declarações à TSF, o pescador Rui Castro afirma que a medida é positiva, mas considera que devia contemplar também ajudas a pescadores que já exercem e querem melhorar a sua condição
Rui Castro, de 38 anos, natural de Caminha, conhece as artes e a arte da pesca desde que se lembra de existir. Começou em criança a ver o pai chegar do rio Minho e do mar e a ajudar no cais com os apetrechos, juntamente com os irmãos. Ganhou tal gosto ao ofício que, hoje em dia, vive da pesca e até é presidente da Associação de Profissionais de Pesca do Rio Minho e do Mar em Caminha.
Considera, a propósito da criação pelo Governo do Estatuto do Jovem Pescador, que o melhor incentivo à sobrevivência da atividade são "as raízes". E entende que, apesar de positiva, a nova medida devia contemplar também ajudas a pescadores que já exercem e querem melhorar a sua condição.
"Tanto poderiam dar essa ajuda a quem quer iniciar, não sou contra, mas também a quem está neste momento. Quem quer subir de patamar em termos de embarcação e assim, acho que o Estado tinha de olhar também para essa gente", afirma, em declarações à TSF.
Bisneto, neto e filho de pescador, com mais quatro rapazes e duas raparigas, Rui Castro considera que o ofício não é atraente para as novas gerações". "Há 20 anos, o rio Minho estava cheio de embarcações. Agora, cada vez há menos. É uma realidade. Os velhos vão morrendo e os novos não querem isto. Procuram vidas melhores, em termos económicos, e de emprego, porque isto é uma vida dura. Não é uma vida fácil", diz, referindo: "Cada vez há mais venda de barcos. Primeiro por causa da falta de mão de obra, por isso é que vêm os imigrantes para cá ajudar. Depois há muitos [pescadores] que acabam e a família, os filhos, não querem dar continuidade, e é um ciclo que se fecha."
As suas raízes familiares em Caminha ainda seguram gente na atividade.
"Estamos a falar em mais de cem anos ligados à pesca. Tenho irmãos, primos e ainda tenho muita família ligada à pesca. Experimentei outros trabalhos quando era mais novo, mas aquilo durou meses. O gosto pelo mar e pelo rio é mais forte do que qualquer outra coisa", afirma, recordando: "Tenho muitas memórias. Sei que, com seis ou sete anos, já ia para o mar com o meu pai, só pelo gosto de ver. Não ia fazer nada, mas ia ver". E continua: "Eu e os meus irmãos estávamos na escola, o meu pai vinha do mar e nós ajudávamos sempre a tratar dos aparelhos e em tudo, embora pequeninos. E lá está, é isso que começa a criar o bichinho e foi o que nos impulsionou para o futuro."
