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O presidente da AIMMP não sabe dizer quantos empresários terão capacidade de recuperar o que perderam
Cerca de 80% das empresas da região centro afetadas pela tempestade Kristin estão a laborar ainda de forma intermitente por dependerem do fornecimento de eletricidade e telecomunicações, segundo disse à TSF o presidente da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal (AIMMP), Vítor Poças, que defende a criação de uma linha especial de apoio e desafia António Costa e Ursula von der Leyen a sobrevoar aquela zona para verem a dimensão da catástrofe e a urgência na resposta.
A fileira ainda está a contabilizar prejuízos diretos e indiretos nas 150 empresas afetadas pela tempestade Kristin, na região de Leiria, mas a maioria ficou destelhada e existem empresas que apresentam um grau de destruição quase total, de acordo com o presidente da AIMMP.
Vítor Poças não sabe dizer quantos empresários terão capacidade de recuperar o que perderam, mas adianta que confia nos apoios já anunciados pelo Governo, apesar de considerar que cabe ao Estado reduzir a burocracia nos processos de candidatura e pede a Bruxelas a celeridade na atribuição de verbas. Sabendo que há regras processuais às quais os Estados-membros não podem fugir, previstas em legislação regulatória comunitária, contudo, desafia mesmo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, a vir de helicóptero sobrevoar o país, para verem o grau de destruição e a urgência da resposta.
"É um momento trágico, do qual é muito difícil falar, porque os destroços e os impactos são muito maiores do que aqueles que são visíveis, pois umas empresas ficaram completamente sem telhados, outras perderam parcialmente telhas e outras têm grandes danos de estrutura. Depois, tivemos problemas ao nível da paragem da operação por falta de eletricidade. Hoje temos muitas empresas ainda paradas, porque há linhas cortadas, quer de eletricidade, quer de telecomunicações. E não têm Internet, mas eu acredito muito na boa vontade do Governo e no esforço de resposta que está a fazer. As regras comunitárias também são apertadas, mas o Governo tem de fazer pressão junto da União Europeia e a senhora Von der Leyen e o senhor António Costa que peguem num helicóptero e que passem aqui por cima e venham ver a destruição que está por aqui. Se estão com dúvidas, que venham cá ou que mandem um drone fazer umas filmagens para eles verem nos seus aposentos em Bruxelas o que é que se está a passar aqui", afirmou.
Aquele responsável da AIMMP também sente na pele os prejuízos enquanto empresário e lança a proposta para ser criada uma linha de crédito especial diferenciada para quem perdeu tudo e para quem perdeu apenas parte das infraestruturas, como os telhados, com montantes atribuídos a fundo perdido, perante prova documental de cada realidade.
"Para mim, isto era muito simples, era atacar a recuperação dos telhados, com preços fixos para não haver abusos, que se sabe que existem em todo lado, e obrigar as empresas a mandarem fotografias com aquilo que são as áreas danificadas. Dizer quantos metros foram, o preço é X, pegue lá o dinheiro e recupere. E andamos aqui a ligar o 'complicómetro' com planos e estudos, mas as pessoas não precisam disso. Estamos muito preocupados. Há empresários que tiveram destruição total e para esses tem de haver outra postura na apresentação de um projeto para tentarem recuperar a empresa como um todo. Portanto, é legítimo, proporcional e adequado dizer que o Estado português, através dos fundos europeus e do PRR, deve colocar também dinheiro na recuperação, com preços fechados, para não haver abusos e não haver burocracia. Para tal, basta fechar o preço e entregar o dinheiro. Não há grande conversa sobre isso", considerou.
Vítor Poças defende também a criação de um sistema de lay-off parcial para as empresas afetadas, mas que continuam a laborar, para que o trabalhador não fique apenas em casa em teletrabalho e possa ajudar a entidade patronal na reconstrução do seu posto de trabalho.
"É também uma medida que eu penso que é fundamental, um lay-off parcial, durante um mês, pelo menos, naquela percentagem de 20% a 80%, nas empresas onde os trabalhadores deveriam ser forçados a trabalhar um mês, porque eles estão a receber o salário a 100%. Não têm de se queixar de nada, a menos que tenham danos nas suas próprias casas e nos seus bens. Nesses casos, há que dar prioridade à recuperação dos seus bens pessoais e das suas casas. Agora, se não têm, deveriam realmente ajudar a recuperar os telhados dos seus postos de trabalho, porque o grau de destruição dos telhados das empresas em que trabalham é tal que a forma mais útil de poderem assegurar os seus postos de trabalho para o futuro seria colaborar com patrões. Os empresários estão resilientes e realmente não querem deitar a toalha ao chão, nem deitar tudo a perder", referiu.
Os danos da tempestade afetam toda a cadeia de valor, desde a matéria-prima à transformação e produção e esta tarde de quinta-feira uma avaliação de impacto leva o ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, a Coimbra, para uma reunião com a fileira da floresta, na qual Vítor Poças estará e terá já propostas para apresentar.
"Estamos muito preocupados com aquilo que está a acontecer. Eu acho que as pessoas não têm a noção dos milhares de hectares que foram destruídos por esta tempestade. É só ir por aí pelas autoestradas e ver as árvores tombadas. São quilómetros e quilómetros de floresta que está tombada. Árvores partidas ou completamente destruídas. Por isso, hoje há uma reunião com o sr. ministro da Agricultura e com o sr. secretário de Estado das Florestas [Rui Ladeira], em Coimbra, onde nós vamos estar e apresentar pelo menos duas medidas rápidas. Uma é encontrar um aviso comunitário para financiar a aquisição de equipamentos para o abate, corte e transporte das madeiras. Outra medida passa por financiar a criação de parques para armazenar esta madeira, que realmente muita dela tem valor económico e valor industrial. Se ficar na floresta, vai ser um potencial para alastrar os incêndios, mais um potencial para aumentar problemas de fitossanitário e ambientais além do problema do não aproveitamento económico. Há também uma medida que é preciso que é o Governo impedir de alguma forma que esta madeira saia por canais muitas vezes descontrolados para outros países e estarmos a exportar matéria-prima e nós não devemos exportar matéria-prima porque temos pouca e precisamos de matéria-prima aqui em Portugal", remata.
