Interesse pela transição energética continua alto, mas diminui ligeiramente o apoio a medidas de ação climática

Foto: Pedro Correia (arquivo)
A preocupação com a proteção do ambiente e do clima e com a aposta nas energias renováveis decresceu ligeiramente nos últimos dois anos. Temas como a saúde, habitação, criminalidade e migração tornaram-se mais relevantes para os portugueses. O estudo da Fundação Friedrich-Ebert (FES) é apresentado na quinta-feira, em Lisboa.
A 28 de abril deste ano, pouco depois das 11h30 da manhã, "ocorreu uma situação histórica na Península Ibérica - uma interrupção geral do abastecimento de eletricidade (vulgo apagão) que afetou cerca de 60 milhões de pessoas e levou a graves perturbações em serviços críticos. Em menos de cinco segundos, uma perda abrupta na geração de eletricidade em Espanha causou um colapso em cascata que se estendeu por toda a rede ibérica. A reposição total do abastecimento de eletricidade em Portugal demorou quase 12 horas".
Este apagão reacendeu o debate público sobre a transição energética em Portugal, questionando-se tanto as causas deste fenómeno e as soluções imediatas para prevenir a sua repetição como as decisões estratégicas a longo-prazo para o sistema energético. Em 2023, a Fundação Friedrich-Ebert (FES) tinha promovido um inquérito em 19 países com o objetivo de perceber as perceções, interesses, receios e expectativas da população face à mudança socioecológica em curso. Dada a rápida evolução do contexto nacional e global e as circunstâncias extraordinárias do apagão de 28 de abril, a Frederich Ebert Portugal decidiu efetuar uma repetição parcial do inquérito conduzido em 2023, com o objetivo de aferir potenciais alterações nas prioridades dos portugueses face às alterações climáticas e energias renováveis.
Os resultados mostram que "os portugueses são muito favoráveis à proteção do ambiente e do clima e que vastas maiorias apoiam a transição no sentido das energias renováveis", com várias medidas a serem vistas favoravelmente por mais de 80% dos inquiridos, mas diminuiu de forma transversal e significativa entre 2023 e 2025.
No entanto, a maioria dos portugueses também considera que as políticas governamentais não são suficientes, nem claras, e entendem que existem outros temas muito importantes com os quais os políticos deviam preocupar-se, como, por exemplo, "a saúde, a habitação e os rendimentos", isto é, temas que se "sobrepõem e inibem um envolvimento ativo na transição energética".
Os principais resultados deste inquérito foram analisados por uma equipa coordenada pela professora e socióloga Luísa Schmidt, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, para quem "os resultados revelam, acima de tudo, uma preocupação grande com o ambiente e as suas afetações negativas e, muito particularmente, com o problema das alterações climáticas, que os portugueses consideram ser um problema de enorme relevância, e até um maior desafio para a conservação dos meios de subsistência, o que quer dizer que já o relacionam com eventos extremos que afetem a agricultura, atividades económicas, enfim, a sua própria qualidade de vida".
Valorização das medidas ambientais
Os aspetos mais diretamente identificados são a escassez hídrica, os incêndios florestais, as ondas de calor e de frio, o problema dos oceanos e a subida do nível do mar. Por outro lado, afirma a investigadora, "as pessoas têm uma preocupação em saber mais e melhor, reconhecem os impactos, mas não sabem como é que iam reagir, o que é que iam fazer, portanto, no fundo, as políticas públicas têm de ser melhor explicadas".
"Há uma certa invisibilidade que criticam das medidas e das políticas em matéria de combate às alterações climáticas. É uma atitude manifestamente cética face às instituições oficiais e responsáveis administrativos, cuja função é clarificar a importância das políticas através da sua efetiva aplicação." Leis há muitas, mas depois as pessoas sabem que "muitas vezes não passam à prática e atribuem importância a que isso seja feito e que as instituições levem a cabo uma regulação ambiental que seja mais robusta e também uma ação mais fiscalizadora".
Mas a preocupação com a proteção do ambiente e do clima e com a aposta nas energias renováveis decresceu ligeiramente nos últimos dois anos. Temas como a saúde, habitação, criminalidade e migração tornaram-se mais relevantes para os portugueses. Essas preocupações mais imediatas do quotidiano não podem contribuir para arrastar, fazer demorar o processo de transição energética? Para Luísa Schmidt, é natural que as pessoas sublinhem, acima de tudo, "os cuidados de saúde, a questão da habitação, que é hoje um problema absolutamente crucial no país e para a própria democracia". Mas também o emprego e os salários justos, os custos de vida, atribuindo igualmente muita importância à educação.
A socióloga do Instituto de Ciências Sociais (ICS) entende que isso não leva a que as pessoas "não valorizem também a proteção do ambiente, da natureza e do clima", acrescentando que são os jovens e as pessoas mais escolarizadas que "dão maior importância, tanto à educação como aos problemas ambientais; sendo hoje, para os jovens, evidentemente a habitação o tema de preocupação dominante, mas eu diria que uma coisa não tira a outra", havendo até, segundo os resultados do inquérito, "uma articulação muito forte entre ambiente e saúde". Nota que numa questão que se prende diretamente com a guerra da Ucrânia, que procura saber se não se tornou mais importante a questão da segurança energética das renováveis por causa da guerra, "as pessoas dizem esmagadoramente que sim, portanto é a noção que a segurança energética é cada vez mais importante".
A esmagadora maioria dos inquiridos tem receio de que o apagão se volte a repetir nos próximos anos, logo, para Schmidt, "é necessário o reforço de confiança nas instituições e fazer o que for necessário para reduzir esta possibilidade. Uma das coisas que pode ser mais interessante é a colaboração, por exemplo, ao nível ibérico".
Falta informação e preparação
No ponto sobre confiança, comunicação e perceções após o apagão de abril, apenas uma pequena minoria das pessoas, 26%, concorda que já foram explicadas claramente todas as causas do apagão, e menos ainda, apenas 14% admite que as pessoas estavam bem preparadas para um apagão.
Em 2023, o inquérito conduzido pela FES reportou uma predisposição significativa por parte da população para participar na transição energética à escala local. Em 2025, "esta predisposição mantém-se robusta, mas com um ligeiro decréscimo do interesse", em linha com a tendência geral de redução do apoio a medidas ambientais. Enquanto, em 2023, 80% dos inquiridos estavam disponíveis para participar ativamente em projetos comunitários de energia, essa percentagem baixou para 64% este ano e se 81% mostravam abertura para produzir a sua própria energia, em 2025, esta proporção diminuiu para 73%,.
O apagão de abril, que desencadeou corrida às pilhas para ouvir a rádio, "parece ter tido impactos distintos na disponibilidade de diferentes segmentos da população portuguesa" para participarem ativamente na transição energética, de acordo com o estudo. Ligeiramente "mais de metade dos inquiridos afirma que o apagão aumentou o seu interesse em produzir a sua própria energia, armazenar eletricidade através de baterias e participar em projetos comunitários de energia. Para a restante população, o apagão não parece ter influenciado significativamente o seu interesse nestes temas".
A equipa coordenada por Luísa Schmidt recomenda que seja reforçada a comunicação sobre os benefícios destas medidas, explorando a sua ligação a temas como saúde, habitação e emprego. Os autores do novo inquérito, que é apresentado amanhã, quarta-feira, ao fim da tarde na Fundação Mário Soares e Maria Barroso (18 horas) afirmam que, embora não seja possível traçar conclusões definitivas, "esta pode ser uma tendência preocupante de progressiva diminuição da aceitação social de políticas ambientais e climáticas, em linha com o crescimento a nível internacional e nacional de movimentos que desvalorizam estes temas". Isto quando a evidência científica alerta que "a ação neste campo é cada vez mais urgente para mitigar os piores impactos das crises ambientais e salvaguardar o cumprimento de compromissos internacionais".
O receio de um novo apagão
As falhas em serviços críticos, como comunicações e transportes, no apagão de 28 de abril deixaram a população apreensiva e a falta de explicações por parte das autoridades abriu espaço à desinformação. A esmagadora maioria das pessoas tem receio de que o apagão se volte a repetir nos próximos anos, apenas uma pequena (26%) concorda que já foram explicadas claramente todas as causas do apagão e menos ainda, apenas 14% admite que as pessoas estavam bem preparadas para um apagão...
Os autores do estudo da Fundação Friedrich Ebert Portugal (FES) entendem que é crucial "planear o sistema elétrico de forma a garantir a segurança do abastecimento em linha com o preconizado no Plano Nacional de Energia e Clima para 2030". Recomendam igualmente que sejam reforçadas "as medidas que promovem o envolvimento direto dos cidadãos na transição energética, por exemplo, no que diz respeito à reabilitação energética de edifícios, à substituição de equipamentos ineficientes, à melhoria da literacia energética, à prestação de apoio personalizado e ao desenvolvimento do autoconsumo de energia solar e de comunidades de energia renovável".
A colaboração direta com organizações de carácter local é vista como pode ajudar a mobilizar a população para iniciativas de transição ambiental e climática. Concluem os autores do estudo que "uma transição energética justa, que envolva todos os segmentos da população e que partilhe os múltiplos benefícios, não só terá maior aceitação social como será mais rápida e eficaz no cumprimento de objetivos".
Apostar na prevenção e comunicação
Prevenção e comunicação são assim dimensões em que é preciso apostar mais? "Absolutamente", afirma Luísa Schmidt, acrescentando que "é uma das questões absolutamente centrais do nosso país e especificamente nas questões da energia, é aprofundar a informação e a comunicação a este nível e que ela seja sistemática". Admite que toda a temática da transição energética aborda "questões complexas que têm que ser comunicadas, tem que haver boa informação, comunicação e, sobretudo, uma coisa muito importante, bons mediadores de proximidade para as pessoas perceberem o que é que hão de fazer em casa, como é que hão de melhorar a sua eficiência energética; e esses mediadores de proximidade podiam trabalhar em juntas de freguesias, em autarquias, mas é uma figura que se tem que criar e levar a casa, quase, não é?" Defende que devia haver uma generalização da capacidade de as pessoas acederem à informação "de uma forma muito mais rápida e muito mais eficiente, porque é uma área complexa e difícil".
Os autores do inquérito consideram que é preciso reforçar a comunicação sobre o benefício destas medidas de transição energética, explorando a ligação dessas medidas a temas como a saúde, a habitação e o emprego. Schmidt considera que este ponto é "muito importante para as pessoas estarem muito mais atualizadas e, sobretudo, na sua casa, poderem fazer muitas mudanças que serão úteis e que são importantíssimas para a questão da saúde, por exemplo. A investigadora, ouvida pela TSF, lembra que Portugal, "sendo um país com clima ameno, é o quinto país que, na União Europeia, mais sofre de pobreza energética, porque as edificações não têm qualidade suficiente e, portanto, as casas arrefecem muito no inverno e aquecem muito no verão. É possível e é desejável tomar uma série de medidas para melhorar a performance das habitações".
O inquérito foi conduzido do ICS para a FES Portugal foi conduzido online entre 9 e 24 de junho de 2025. O universo do inquérito são indivíduos com idades compreendidas entre os 18 e os 69 anos e residentes em lares privados em Portugal continental e regiões autónomas. A amostra é constituída por 1200 entrevistas distribuídas de acordo com a população em estudo pelas variáveis sexo, idade e região, sendo esta considerada representativa da população portuguesa.
