"Leiria não existe." País não sabe "o que se passa aqui" e só vai sentir quando não houver carne na mesa

Créditos: Manuel de Almeida/Lusa
Na freguesia de Ortigosa, em Leiria, é preciso passar por cima de cabos e de ramos para seguir caminho. As árvores e os postos de eletricidade caíram. As coisas já não são como antes, principalmente nos arredores da cidade
"Leiria, hoje, não existe no país. Ninguém sabe a realidade que se passa aqui." O cenário é traçado à TSF por Eduardo Silva, um agricultor que ao seu encargo cinco mil animais. Mas não se sabe por quanto mais tempo.
"Até um depósito de água que eu tinha caiu uma árvore para cima e partiu-me o depósito, que [servia] três mil animais. Como é que eu ponho a água de um dia para o outro?", questiona.
Na freguesia de Ortigosa, em Leiria, é preciso passar por cima de cabos e de ramos para seguir caminho. As árvores e os postos de eletricidade caíram. As coisas já não são como antes, principalmente nos arredores da cidade.
"Esqueçam. O mundo mudou ontem. Eu não estou cá, eu já não estou cá. A dor é de quem sente. Uma pessoa bloqueia. Uma pessoa chega: "é para ali, é onde? Vamos para ali, mas então e aquele? É assim."", resume Eduardo Silva.
O agricultor critica a ineficácia das medidas públicas perante a catástrofe vivida, mas avisa que as consequências da tempestade podem vir a ser saboreadas por todos. "Eles [os portugueses] só sentem quando não tiverem carne para comer", atira.
Maria Gaspar, também ela agricultora, lamenta igualmente a indiferença e assume que já não tem esperança no futuro.
"Já há oito anos foi o [furacão] Leslie. Nós nessa altura tínhamos seguros, conseguimos acionar o seguro e conseguimos reconstruir. A partir daí, nenhuma seguradora faz seguros para explorações agrícolas. Eu tenho 75 mil euros de prejuízo e eu não vou conseguir reconstruir. Está fora de questão", denuncia.
Nos arredores de Leiria, pouco ou nada ficou em pé.
"Desapareceram telhas, desapareceram barracões. Nós temos oito estufas de framboesa, estão todas para o lixo. O futuro vai ser limpar o lixo e provavelmente arranjar emprego noutro lado - para uma fábrica. Porque a agricultura neste momento está fora de questão reconstruir", reforça.
Sem água e luz, o sol ainda não traz dias melhores: "Nós estamos aqui num praticamente num vazio."
