
DR
Crónicas de justiça de Rui Cardoso Martins. Relatos de vidas que se cruzam com o poder da lei, o braço da justiça e as circunstâncias de cada um. E quando se levanta o réu, é o juiz que decide
Aos que receiam 2026, àqueles que prevêem um futuro igual ou pior do que 2025, só trago fraco e triste consolo. Com o mal dos outros podemos nós bem, mas o caso de Carlos tem tanto de dramático como de calendário. Alguém descobrirá forma mais calamitosa de um coração apaixonado entrar no ano novo? A juíza perguntou-lhe se queria falar, Carlos disse que sim. Nesse instante estava calmo, foi só no final que se torceu e chiou como papel no fogo.
OUÇA AQUI O PROGRAMA TSF LEVANTE-SE O RÉU
- O seu relacionamento com a senhora Júlia começou ano de 2020, e esse relacionamento terminou em Fevereiro de 2024. Isto é verdade?
- Não. Foi no dia 1 de Janeiro de 2023, quando ela foi apanhada com outra pessoa... na casa desse homem e, desde aí, montou-me esse processo.
Nesse dia, a roda da fortuna de Carlos fez uma pausa dramática e recomeçou a rodar, mas ao contrário. Carlos, no tribunal, acusado de violência doméstica e de ameaças, tinha o corpo feito magrezas, tatuagens, coxeios, barbas selvagens, nervos fora da pele. A juíza recomeçou:
- Diz aqui que têm uma filha que...
- Já não a vejo há um ano!, cortou Carlos.
- Eu vou ler-lhe a acusação e o senhor tem que tomar posição quanto à acusação, cortou a juíza, por sua vez.
- Certo, disse Carlos.
- Uma filha que nasceu no dia 8 de Agosto de 2020. Diz aqui que a vossa relação foi pautada por instabilidade, com separações que...
- Desde esse dia...!
- Quando?
- Desde que a apanhei a ela com outra pessoa no final do ano, às duas da manhã!
- Hum... Diz aqui que o senhor tinha ciúmes e comportamentos controladores e possessivos.
- Depois desse dia! (silêncio de Carlos, seguido de àparte). Também era de ter, não é?...
Novo silêncio, agora da juíza:
- E o que é que eram estes comportamentos controladores e possessivos, pode-me dizer?
- Ai isso não sei, disse Carlos, Eu trabalhava para o pai dela o dia todo. Chegava a casa cansado e...
- Diz aqui que no dia 1 de Janeiro de 2023, quando a Júlia se encontrava em casa da amiga Brigite, a conversar com o amigo Diego... o senhor apareceu no exterior da janela dessa casa...
- ... com o telefone a filmar..., concordou Carlos.
- E que lhe disse: "És uma puta"...
- Sim.
- E que disse ao amigo Diego: "Se és homem, anda cá fora"...
- Isso é mentira. E só lhe chamei esses nomes no dia em que a apanhei. Porque a Júlia é uma rapariga muito bonita que tem um poder enorme, eu, para a pessoa que eu sou, eu nem queria... Foi no dia em que a apanhei com outra pessoa, dia 31 às duas da manhã... ahh, no dia 1 de Janeiro, na passagem do ano.
Carlos confirmou que lhe disse "puta, vaca, não voltas para mim porque és uma puta. Nunca vais arranjar ninguém que te ame tanto como eu". Desmentiu o mesmo Carlos ter dito "Vais ficar sem a menina" ou "não és minha, não serás de mais ninguém".
- Isso é mentira, no acto quando a apanhei, só lhe chamei esses nomes. A partir desse dia é que me montaram esse processo, nunca mais vi a menina e ando aqui assim!
Aqui, Carlos já estava arder na voz e nos gestos, parecia papel no fogo.
- A Júlia tinha estado com uma pessoa que lhe batia e ela sofria violência doméstica e agressões, antes de se juntar comigo, e quando eu vim a descobrir que ela voltava a estar com essa pessoa, o que é que eu pensei: "o que é que eu estou aqui a fazer?!" Eu só quero é ter o direito de ver a minha filha. Eu até à data de apanhar a Júlia com outra pessoa sempre fui uma pessoa trabalhadora, mas as mulheres dali não gostam de pessoas assim, porque ela quando me conheceu ela veio com outra vista, porque eu estava preso, saí da prisão, era isto, era aquilo... Eu todos os dias mando mensagens a perguntar pela minha filha.
- Disse ao pai dela que se calhar ia acontecer uma desgraça?, perguntou a juíza.
- Se calhar até devo ter dito isso. Se não me resolvesse a situação.
- Qual era a desgraça, o que significava cometer uma desgraça?
- Era... matava-me. Quer que eu lhe diga? A justiça é para quem tem dinheiro, a justiça é para quem tem muito dinheiro, porque para quem não tem dinheiro é assim!
Muitos acontecimentos. Um dia, foi algemado na escola da filha. Noutra vez:
- Eles de férias, no Algarve, a curtir e onde é que está o pai da criança? Fechado em casa, a bater com a cabeça nas paredes a chorar! É porque eu sou um ex-presidiário com esta aparência que eu não valho nada, porque se eu fosse uma pessoa com outra aparência e com poder, nem aqui estava!
Mas estava, Carlos estava a arder, fogo de artifício nos revéillons fora de prazo dos amores infelizes.
Mas, como sempre, Feliz Ano Novo a Carlos e a todos nós.
O autor escreve de acordo com a anterior ortografia
