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Crónicas de justiça de Rui Cardoso Martins. Relatos de vidas que se cruzam com o poder da lei, o braço da justiça e as circunstâncias de cada um. E quando se levanta o réu, é o juiz que decide
Nos últimos tempos, desde que a boca suja de um manhoso furou o caminho de segunda volta até aos portões do Palácio de Belém, e por todas as TVs espalha mentiras e barbaridades como porcaria numa ventoinha, voltou-me a lembrança de um caso exemplar que vi há muitos anos no tribunal. Tentei, na viragem do milénio, descrever este espécime lusitano usando a perspectiva naturalista, fazer um estudo de vida selvagem, o National Geographic de "um castiço português". Vale a pena realçar semelhanças e diferenças. Escrevi então:
OUÇA AQUI O PROGRAMA TSF LEVANTE-SE O RÉU
"O espécime que hoje aqui se apresenta é tão-só a pequena ponta visível, 'visível' no sentido mais directo, pois exemplares como este encontram-se um pouco por todo o lado, e não há sequer uma boa alma que lhes escape um dia inteiro." [Bom, como se sabe agora, chegados a 2026, saíram das tocas e agem em manada, matilha, cardume e vara política.]
Continuava essa antiga descrição: "José, bípede de sangue quente, posição erecta típica de alguns mamíferos vertebrados, terá os seus metro e sessenta, 70 a 80 quilos, cara redonda, polegar oponível, tecido adiposo, olhos castanhos com olheiras. A pelagem é encaracolada ao nível do crânio, com uma outra franja de pêlos, isolada e simétrica, por baixo do nariz. Género masculino, 47 anos." O nosso trabalho de campo foi descobri-lo fora do seu habitat natural, no tribunal. José passara a pé por uma patrulha de polícia que fazia um controlo de automobilistas e lançou um primeiro grito primaveril:
- Seus chulos, em vez de andarem a prender os ladrões e os drogados, andam a chatear quem trabalha. Seus traidores, sem as fardas não passam de uma merda.
Já na esquadra, continuou:
- A maior fatia da droga vem através das vossas fardas, vocês são a maior máfia que aí anda.
Bom, temos de admitir que algo mudou, uma vez que exemplares destes resolveram tomar como suas as dores dos polícias, e até captar agentes para a sua causa, o que aliás conseguem, e só ficam desconcertados quando descobrem que ainda há, em Portugal, polícias leais que prendem polícias corruptos que cometam crimes de ódio e conspiração. José, na esquadra, quando o informaram que ia estar perante um juiz, rematou:
- O juiz que se foda!
O juiz, na sala do tribunal, tinha com uma expressão curiosa. Acabara de ler o auto de detenção e começava o interrogatório.
- Isto é verdade?
- Não senhor, corrigiu José, nunca ele seria capaz de dizer "essas expressões obscenas". O que ele disse foi apenas "que eles sabem quem anda a roubar e a vender droga e que não fazem nada".
Acontecera-lhe isso poucos dias antes. A sua vivenda fora arrombada, levaram uma série de coisas, um vizinho até viu os assaltantes. E apresentara José uma queixa concreta na polícia? Não, porque "eles", os polícias, responderam "que não valia a pena..."
- Então o senhor é desses que só fazem aquilo que lhes dizem que devem fazer... - reflectiu o juiz. - A sua personalidade é com certeza um bocado distorcida. Gosta de mandar umas bocas... O senhor é algum fiscal da moral pública? E esta referência ao juiz, também é verdade?
- Não tem cabimento... respondeu José.
- Mas porque é que está a desviar os olhos? Então no que é que ficamos?
- Até estou engasgado, falta-me a saliva, nem consigo falar...
- Senhor José, o senhor anda chateado com a vida, não anda? Compre um saco de boxe e pendure-o lá na garagem!
- Já não tenho idade para violências.
- Para violências não tem, mas também não tem idade para
estas parvoíces.
E chegamos ao desfecho deste caso, pré-história do que estamos agora a ver, Janeiro/Fevereiro de 2026, a uma semana das presidenciais. José ouviu uma multa pesada e uma definição do seu ser. Terminou o juiz, irónico:
- O senhor é o estereótipo do bom cidadão português. Trabalhador, honesto, não mata nem rouba. E os outros são uma cambada!
Bom, mas temos de actualizar o caso, que isto não chega... E não lhes chega. Por isso ameaçam, agridem, até matam - há nazis activos e condenados nesta "gente de bem" - roubam malas nos aeroportos, guincham no parlamento, prostituem menores, espalham ódio, usam o nome de Deus em vão, etc. e, apaixonados por outro castiço, este estrangeiro americano, um exemplar televisivo "de bem" que se chama Trump, mentem, aldrabam, falseiam, trapaceiam e intrujam.
O autor escreve de acordo com a anterior ortografia
