Marca entre Vila Franca de Xira e Porto Alto: abandonada há 40 anos, antiga Estalagem do Gado Bravo pode estar prestes a renascer
Autor: Leonardo Alexandre
A antiga Estalagem do Gado Bravo, no meio da N10, entre Vila Franca de Xira e o Porto Alto, foi palco de muitas festas e noites de fados. Por aqui passaram figuras como a fadista Amália Rodrigues ou até mesmo a Rainha Isabel II. Construída nos tempos da ditadura, está fechada há quase 40 anos. Está previsto um projeto de restauração do edifício que pode arrancar até ao final do próximo ano, num investimento superior a dois milhões de euros, que será assumido por uma empresa de produção e distribuição de fruta em Samora Correia.
Da velha estalagem já só restam marcas de tinta nas paredes, janelas partidas, alguns grafítis, telhas, azulejos e vidros no chão. Há muito lixo e só os carros que passam do outro lado da rua quebram o silêncio. Os tempos de glória da Estalagem do Gado Bravo já lá vão. Agora, só lembranças. O espaço tinha oito quartos, dois salões, uma praça de touros e uma taberna.
"As pessoas vinham aqui almoçar na altura e a estalagem era caríssima. Quando eu era miúdo, a refeição completa, que era à escolha, chegou a custar mais de 40 escudos. Havia sopa, quatro pratos de peixe e quatro de carne, doces e fruta. Na taberna, o menu era mais barato e era servido à dose como é atualmente", conta Vítor Batista, filho dos primeiros gerentes da estalagem

Vítor viveu neste espaço dos 5 até aos 22 anos e saiu dali há 50. Ainda se lembra de uma ementa que guardou, a do dia 5 de outubro de 1968:
"Havia sopa de peixe à borda d'água e caldo verde. Nos pratos de peixe, caldeirada à Estalagem, sardinhas assadas com salada mista, mexilhão à espanhola, pescada-dourada com arroz de marisco e linguadinhos de Vila Franca de Xira, que são aqueles linguadinhos mais pequenos. Depois, na parte da carne, havia costeletas de porco com molho picante, misto à portuguesa, mãozinha de vitela de fricassé - que eu tenho saudades doidas -, escalopes de vitela grelhados, frango assado. O preço desta refeição, em 1968, era de 45 escudos. Incluía ainda a fruta, mas o doce era à parte e custava cinco escudos."

Mesmo com todo o luxo, o alojamento não tinha água potável: "A Lezíria não tinha água. O meu pai mandou fazer um depósito, uma pipa de madeira como se fosse de vinho que estava em cima de uma carroça. Todos os dias, o 'Zé da Água', o chamado 'faz tudo' da Estalagem, ia em cima da carroça no meio dos touros, abria o portão, afastava o gado que estava perto e ia encher o recipiente. Nos quartos, a água das torneiras era salobra e muitas vezes vinha castanha."

Apesar das duas grandes salas onde eram servidas as refeições mais caras, o estabelecimento também era conhecido pelos clientes habituais da taberna: os campinos e as pessoas que viviam no campo.
"Quando vinham sempre com mais pressa chegavam ao João, que estava a trabalhar, e diziam: 'Ó João, é um copo de três.' E lá vinha o empregado dar o copo à porta. Era a parte mais humilde, lembro-me de uma pessoa que vinha aqui sempre: o poeta português Ary dos Santos", recorda Vítor.
Embora tenha sido palco de um dos primeiros comícios do Partido Comunista Português, depois do 25 de Abril de 1974, aqui, a política não era tema de conversa, só na bomba de gasolina ao lado.
"Era uma coisa do regime, vinham aqui muitos ministros. Ali fora era tudo malta do PCP, mas não se falava do partido. Aqui era onde se faziam as discussões políticas da época. O meu pai não queria que eu entrasse para eu depois não dizer nada"
Políticas à parte, a estação de serviço também servia para outras coisas: "Funcionava como posto de correio, porque esta zona recebia os chamados 'Ranchos dos Seareiros', que eram, normalmente, mulheres que vinham em camionetes para trabalhar aqui nas plantações de tomate e melão."

Há quem recorde a antiga Estalagem do Gado Bravo com saudade. É o caso de António Abrantes, o dono daquela bomba de gasolina, há mais de 40 anos.
"Era um espetáculo. Lembro-me das festas ribatejanas e dos fados. Ainda sou do tempo em que vinham barcos de Lisboa até ao Cais do Cabo [Vila Franca de Xira], onde já estavam autocarros e campinos. Os autocarros traziam as pessoas para a Estalagem do Gado Bravo e aqui comiam, bebiam, divertiam-se e dançavam. Eu fui dançarino de Rancho Folclórico"
Também para o presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Fernando Paulo Ferreira, este espaço é também sinónimo de memória. "Tenho 52 anos e recordo-me vir aqui com os meus pais almoçar várias vezes, quando tinha uns 10 anos. Era um espaço de referência em toda a região de Lisboa e Ribatejo."

No mesmo sentido, Vítor Batista afirma que este edifício tem sabor a infância: "Fiz aqui praticamente a infância e a adolescência quase toda. Tinha tudo para brincar e muitos animais. Todos os anos, quando era o fim da caça, os caçadores largavam os cães e chegámos a ter aqui mais de 20."

Da taberna seguimos para o salão: "Era a sala de refeições normal, tinha um bar, umas poltronas rústicas junto às lareiras que se acendiam no inverno. Ao sábado, havia os clientes certos."
Ali marcaram presença o último rei de Itália, Humberto II, exilado em Portugal, os reis de Espanha, Juan Carlos e Sofia, ainda namorados, Paul McCartney, vocalista dos Beatles ou a fadista Amália Rodrigues.
"Quando cá esteve o Paul McCartney [em 1965], eu não estava cá, mas o meu pai pediu-lhe para ele dar uns autógrafos e umas fotografias por aí. Eu não ouvi tocar a Amália Rodrigues aqui. Vi-a a comer, mas nunca a vi tocar. A fadista esteve aqui numas filmagens, fez aqui um filme. Acho que tocou aqui, mas eu também não estava"
Perto da Estalagem do Gado Bravo também esteve a Rainha Isabel II, quando visitou Portugal: "Eu vi passar a rainha em Vila Franca de Xira, na janela da varanda de casa. A minha mãe é que tinha o convite para ir até à Estalagem. Na cidade, isto foi uma coisa doida, as ruas e as janelas estavam todas cheias de bandeiras inglesas e portuguesas", conta.
Houve quem tivesse comprado uma motorizada só para ver a monarca passar, como o pai de Vítor.
"O meu pai nem tinha carro, ele vinha de motorizada e arranjou uma para vir. Eu vinha à frente e isto estava tudo engalanado com mantas regionais e muitas bandeiras. A visita da rainha aqui foi mais para ver os cavalos e os campinos. Na altura, houve umas centenas de campinos e lavradores que arrancaram a galope e pararam em frente à tribuna onde a monarca estava."

A Estalagem do Gado Bravo acabou por fechar em 1989, algo que, para António Abrantes, só tem uma explicação.
"Quando se pensou em fazer o centro comercial, os donos desse terreno, do cinema e da Estalagem, que nunca exploraram nada disto, disseram que só vendiam o alojamento se vendessem o resto. Quem comprou isto, chegou e perguntou quanto é que queriam, disse para fecharem a porta, para saírem e levarem o que quisessem, foi mesmo assim"
Na altura, foi um desgosto. "Eu estava aqui a trabalhar, abria o posto às 06h00 e a essa hora estavam a cantar-se fados. Eu abria o posto, por vezes, passava um carro e as pessoas iam para ali ouvir os fados. Há 30 anos, pelo menos, que não ouço aqui um fado."

O novo projeto para restaurar a Estalagem do Gado Bravo pode arrancar até ao final do próximo ano e a autarquia já tem objetivos em mente.
"Nesta primeira fase funcionará como centro de eventos e de restauração, o que, de certo modo, é também a sua origem enquanto atividade regular e é muito respeitador do aspeto que a estalagem tinha originalmente", explica o presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira.

Ainda assim, esta ideia não convence muito quem por lá viveu: "É um bocado difícil de recuperar. Habituei-me a isto e era a minha casa, portanto, não vai ficar igual. Quando estiver pronto, hei de vir espreitar, mas não tenho muitas expectativas", afirma Vítor Batista.
Para António Abrantes, esta é uma casa em pleno estuário do Tejo e dispensa apresentações.
"Isto é uma casa que não precisa de publicidade. Só precisa de abrir. Quando abrirem, os clientes aparecem. Isto é uma casa conhecida desde o Algarve até lá acima ao Minho."
À TSF, a Frusantos S.A, dona do terreno da Estalagem do Gado Bravo, que se dedica há 30 anos à produção, comércio e distribuição de produtos agrícolas, garante que o projeto de requalificação do espaço será superior a dois milhões de euros. A empresa está à procura de um parceiro para explorar o estabelecimento, visto que não têm experiência na área da restauração.
