"Não podemos continuar a construir nos leitos de cheias" perante "clima que se comporta como montanha-russa"
Autores: Maria Ramos Santos e Manuel Acácio
Os efeitos da depressão Kristin fizeram-se sentir um pouco por todo o país, mas com maior intensidade nos distritos de Leiria e Coimbra. Perante os estragos e vítimas já registadas, o tema entrou em debate esta quarta-feira no Fórum TSF, onde especialistas alertaram para a necessidade de adotar políticas face a temporais cada vez mais frenquentes, num "clima que se comporta como uma montanha-russa".
"Este não é um problema só português, não é só um problema ibérico, não é só um problema europeu, é um problema a nível mundial", defendeu Adriano Bordalo e Sá, hidrobiólogo do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Baltazar, sublinhando que a questão surge quando "descemos à malha mais fina e os intesses instalados boicotam a visão holística de que temos de alocar meios".
"Não podemos continuar a construir nos leitos de cheias e aqui as autarquias também têm uma cota-parte da responsabilidade, independentemente da pressão das pessoas", disse.
Também para o bastonário da Ordem dos Engenheiros, Fracisco Almeida Santos, "as cidades, os países e as comunidades têm de estar preparadas e ter mais resilência" em momentos de temporal. "Porque da mesma maneira que também temos maior conhecimento destes, também vamos tendo maiores conhecimentos de respostas", argumentou.
Em vista o reforço desta ideia, João Joanaz de Melo, professor na Universidade Nova, exemplificou: "Hoje em dia, todos nós escrevemos no nosso telemóvel avisos de quando há situações de risco, mas temos de ser mais estruturais. Significa que a informação que temos, por exemplo, em termos de risco costeiros, de riscos cheias têm mesmo de ser aplicadas ao ordenamento do território. Portanto, essa informação já existe e tem de ser aplicada, por exemplo, a questões de política energética ou de mobilidade."
Também no Fórum TSF, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses sublinhou que as comunicações são um setor crítico, quando há temporais mais fortes. António Nunes mostrou-se "expectante sobre a nova lei que está a ser preparada pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil", que podem vir a permitir a "a criação de um comando de bombeiros que se separe do ponto de vista institucional da própria Proteção Civil" e, por outro lado, "uma informação para a cidadania".
Já na perspetiva do presidente da associação ambientalista Zero, Francisco Ferreira, é preciso "olhar para um clima que se comporta como uma montanha-russa" e garantir que a estratégia nacional de adaptação às alterações climáticas para 2030 é implementada.
A passagem da depressão Kristin pelo território português provocou pelo menos três mortos e vários desalojados, com a Proteção Civil a registar mais de mais de três mil ocorrências durante a madrugada e manhã desta quarta-feira.
Quedas de árvores e de estruturas foram as principais ocorrências, que afetaram sobretudo os distritos de Leiria (por onde a depressão entrou no território continental), Coimbra, Santarém e Lisboa.
Vento, chuva, neve e agitação marítima têm motivado o corte ou o condicionamento de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, bem como o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações.
No Fórum TSF desta quarta-feira, Daniela Fraga, adjunta de operações da Proteção Civil, admitiu problemas de comunicação por todas as vias, sublinhando que "não basta generalizar a questão da rede ao Siresp".
